|
|
|
|
Os generais sem estrelas
Orlando Brito
 |
Leonel:
no quarto do hospital
com Figueiredo |
Desde que o Brasil voltou a ser um país
democrático, muitos livros, teses e reportagens
foram escritos a respeito do período em
que o país viveu sob uma ditadura militar.
Poucas são as informações,
no entanto, sobre o que fazem hoje os generais
que, durante 21 anos, mandaram no país.
É esse o tema de uma reportagem especial
nesta edição de VEJA. Durante dois
meses, o subeditor Leonel Rocha, da sucursal de
Brasília, tentou encontrar trinta generais
que tiveram importância no governo militar.
Conseguiu falar com catorze deles. Os outros não
foram localizados, nem o Exército informou
seu paradeiro.
Leonel, um baiano de 40 anos, entrevistou generais
no Recife, no Rio de Janeiro e em Brasília.
Também leu uma dezena de livros sobre o
regime militar e seus personagens. Dos militares
que entrevistou, poucos se deixaram fotografar.
Todos evitaram falar sobre o passado, como se
quisessem apagá-lo da memória. A
maioria não escondia certo ar de tristeza.
E nenhum concordou com o uso da palavra ditadura
para caracterizar os anos em que ficaram no poder.
Uma das tarefas mais complicadas foi
marcar uma conversa com o ex-presidente João
Baptista Figueiredo. Depois de inúmeras tentativas
frustradas, Leonel descobriu que Figueiredo estava
internado na Casa de Saúde São José,
no Rio. Persistente, o jornalista foi várias
vezes ao hospital e sempre esbarrou no aparato de
segurança do ex-presidente. Num determinado
dia, chegou lá na hora do almoço e,
sem que lhe barrassem o caminho, foi até
o quarto 815, onde estava internado o general. Abriu
a porta do quarto e, para seu espanto, viu Figueiredo
na sua frente. Compenetrado, o último dos
generais presidentes assistia ao Globo Esporte
e comia com o prato apoiado sobre a perna. O esforço
de reportagem acabou ali: descoberto pela segurança,
Leonel foi expulso do quarto.
|
|