Edição 1 628 - 15/12/1999

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Os generais sem estrelas


Orlando Brito
Leonel: no quarto do hospital
com Figueiredo


Desde que o Brasil voltou a ser um país democrático, muitos livros, teses e reportagens foram escritos a respeito do período em que o país viveu sob uma ditadura militar. Poucas são as informações, no entanto, sobre o que fazem hoje os generais que, durante 21 anos, mandaram no país. É esse o tema de uma reportagem especial nesta edição de VEJA. Durante dois meses, o subeditor Leonel Rocha, da sucursal de Brasília, tentou encontrar trinta generais que tiveram importância no governo militar. Conseguiu falar com catorze deles. Os outros não foram localizados, nem o Exército informou seu paradeiro.

Leonel, um baiano de 40 anos, entrevistou generais no Recife, no Rio de Janeiro e em Brasília. Também leu uma dezena de livros sobre o regime militar e seus personagens. Dos militares que entrevistou, poucos se deixaram fotografar. Todos evitaram falar sobre o passado, como se quisessem apagá-lo da memória. A maioria não escondia certo ar de tristeza. E nenhum concordou com o uso da palavra ditadura para caracterizar os anos em que ficaram no poder.

Uma das tarefas mais complicadas foi marcar uma conversa com o ex-presidente João Baptista Figueiredo. Depois de inúmeras tentativas frustradas, Leonel descobriu que Figueiredo estava internado na Casa de Saúde São José, no Rio. Persistente, o jornalista foi várias vezes ao hospital e sempre esbarrou no aparato de segurança do ex-presidente. Num determinado dia, chegou lá na hora do almoço e, sem que lhe barrassem o caminho, foi até o quarto 815, onde estava internado o general. Abriu a porta do quarto e, para seu espanto, viu Figueiredo na sua frente. Compenetrado, o último dos generais presidentes assistia ao Globo Esporte e comia com o prato apoiado sobre a perna. O esforço de reportagem acabou ali: descoberto pela segurança, Leonel foi expulso do quarto.