|
|
Tales
Alvarenga Esquizô! Esquizô!
"Poderíamos
declarar inelegíveis para a
universidade pública belezas globais como as atrizes Carolina Dieckmann,
Luana Piovani e Deborah Secco" Tem
dias que o Brasil parece um hospício com a contabilidade em dia. O médico
Antonio Palocci cuida com zelo das colunas do débito e do crédito.
O país está crescendo 5% ao ano, bate recordes de exportação,
tem a mais baixa inflação com que se poderia sonhar e está
ficando a cada dia mais confiável ao investidor estrangeiro. Mas só
um esquizofrênico poderia deixar de perceber o que alguns malucos estão
fazendo no pátio do manicômio.
No Rio de Janeiro, o cenário mais exuberante do sanatório, a polícia
está pegando crianças que vivem na rua. Os jornais estão
publicando fotos de meninos que mal ultrapassam a altura de uma mesa sendo arrastados
aos berros por policiais parrudos em trabalho que é oficialmente definido
como "social". A verdade é que a polícia foi encarregada de livrar
a paisagem dos pivetes. O objetivo é tranqüilizar turistas, assustados
com as notícias sobre assaltos e assassinatos de estrangeiros no Rio de
Janeiro. Em Brasília, um deputado petista
apresentou um projeto que regulamenta a prostituição. Caso a lei
venha a ser aprovada, prostitutas, prostitutos, dançarinos que se apresentam
nus ou qualquer pessoa que tenha como função despertar a sexualidade
alheia serão classificados como "trabalhadores da sexualidade". Para quê?
Para que essas pessoas sejam registradas no Ministério do Trabalho e no
Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Continuarão sendo prostitutas,
prostitutos e dançarinos pelados, só que com carteira assinada.
Pergunta: alguém levaria no bolso um documento em que é descrito
como operário da sexualidade? A intenção pode ser das melhores,
mas a execução parecerá mais perseguição ao
sexo pago do que proteção ao trabalho. No Brasil, metade da mão-de-obra
ganha o salário sem carteira assinada e ninguém está nem
aí. Para não falar do exército de pobres coitados trabalhando
em regime de escravidão em fazendas nos grotões do gigante adormecido
em berço esplêndido. Nas universidades,
a discussão do momento é implantar cotas para o ingresso de negros
e índios no ensino público superior. Muito justo. As vagas no melhor
ensino superior gratuito são ocupadas quase inteiramente por brancos, filhos
das classes média e alta. Na Universidade de Brasília, no entanto,
a turma está exagerando. Como o número dos "falsos negros" triplicou
nos dois últimos vestibulares, há uma comissão para tirar
a prova dos noves. Examina o tipo de cabelo do candidato, a cor da pele, o formato
do nariz. O único método aceitável de avaliação
num país com a fluidez racial do Brasil é aquilo que a pessoa diz
de si própria, ou seja, a auto-atribuição da raça.
Fora isso, a coisa ganha um ranço de preconceito. Que tal radicalizar e
inverter a equação? Poderíamos declarar inelegíveis
para a universidade pública belezas globais como as atrizes Carolina Dieckmann,
Luana Piovani e Deborah Secco. Elas são objeto de enorme preconceito a
favor. São ótimas atrizes, mas levam uma vantagem na linha de largada,
por serem lindas e perfeitas como são. Pois que paguem sua faculdade particular
se quiserem estudar. Parece injusto com as nossas
beldades, pois não? Parece comportamento de manicômio. Muito bem.
É tão inaceitável como caçar crianças de rua
com a carrocinha, tão esquisito como fichar prostitutas e tão descabível
como medir a taxa de negritude de vestibulandos num país mestiço
como o Brasil. |