Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Fotografei você
na minha Rolleiflex...

Num caso, revelou-se o desconforto
de uma prefeita; no outro, a enorme
ingratidão de uma bela

A prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, termina o mandato como começou. No dia 2 de janeiro de 2001, seu primeiro dia de expediente na então sede da prefeitura, o Palácio das Indústrias, ela circulou no prédio cercada por uma parede de seguranças. Era para evitar a aproximação de repórteres e fotógrafos. A prefeita percorreu uma a uma as dependências do novo local de trabalho. Era acompanhada, entre outros, pelo "assessor na campanha" – ele não era mais do que isso – Luis Favre. Momento de maior tensão foi quando, a certa altura, deu o ar da graça na sala de imprensa. A prefeita olhou rapidamente o covil onde se entocavam os repórteres e fotógrafos e saiu. Os seguranças de imediato fecharam a porta, para que ninguém saísse atrás dela. E assim o pessoal da imprensa foi mantido preso por alguns minutos.

Quatro anos depois e, na última terça-feira, ei-la, magnificente de blusa de plumas e saia longa e dourada, com mais dobras do que manto de rainha em tela de pintor renascentista, a brilhar no Teatro alla Scala, de Milão. Ao lado do antigo "assessor na campanha", o hoje marido Luis Favre, ele metido no obrigatório black-tie, formavam o casal mais fulgurante que as esquerdas mundiais jamais produziram. Se Lenin ou, com mais justeza, Trotsky – para honrar a filiação política do marido – os visse, teria-os tomado menos por aliados do que por sócios dos Romanov. Menos por parceiros no arrombamento do Palácio de Inverno do que pelos convivas que se divertiam lá dentro.

Esplêndida como se apresentava, a prefeita no entanto não queria ser documentada. Mostrou-se "irritada com os fotógrafos", segundo o repórter do Estado de S. Paulo Guilherme Aquino. A repórter da Folha de S.Paulo Érica Fraga insistiu em arrancar-lhe algum comentário. "Não vou falar, queridinha", disse, e dá para imaginar o tom com que saiu o "queridinha". Tal como no primeiro dia, Marta Suplicy mobilizava boa parte das energias para enxotar esses indesejáveis que são os profissionais da imprensa. Causa sempre espanto quem quer atuar na vida pública mas não quer saber de jornalista. É como querer ser médico mas não poder ver sangue. Ou amar futebol mas ter horror à bola. De qualquer forma, há uma diferença a notar entre o episódio do começo e o do fim do mandato.

Antes, uma breve explicação para quem não é de São Paulo e não acompanhou os últimos movimentos da prefeita. Marta Suplicy tirou licença do cargo e, meio à sorrelfa, embarcou para a Europa. Foi primeiro a Paris e depois a Milão, onde gozou da magna oportunidade de participar da noite de gala com que o histórico Teatro alla Scala foi reaberto, depois de três anos em obras. A prefeita, que desde a derrota na eleição mostra comportamento ora esquivo, ora amuado, mais estranheza ainda causou com a escapada. E pior ainda ficaram as coisas para ela pela infelicidade de, enquanto desfrutava o passeio, a cidade que governa ter sido castigada pelas enchentes, com a agravante de terem sido arruinadas algumas das obras viárias de sua gestão, pondo a nu a pressa e a imperícia com que foram executadas. Já deu para perceber que a viagem à Europa transcorreu entre as más companhias do azedume, do despeito e das más notícias de casa.

Pois bem. O episódio do primeiro dia do mandato, apesar de elementos estranhos, como a prisão dos jornalistas numa sala, até que pode ser visto sob uma luz benevolente. Ainda que com mão pesada, talvez o que a prefeita quisesse fosse impor disciplina na relação com os jornalistas, o que não é querer demais. Já em Milão a conversa era outra. O fato de ela não querer ser vista, e muito menos fotografada, trai a sombra nefasta do sentimento de culpa. A prefeita se escondia porque, naquele momento, era a colegial que cabulou a aula e foi ao teatro.

• • •

A (o quê? atriz? modelo? madrinha de bateria? como qualificá-la?)... A bela Luma de Oliveira (fiquemos com o adjetivo) protagonizou outro episódio memorável com um profissional de imprensa. O fotógrafo Cassiano de Souza, a serviço da revista Caras, tentava fotografá-la com um suposto acompanhante num hotel da Bahia quando... Bem-vindo a Abu Ghraib. Por ação conjunta dos donos do hotel e do suposto acompanhante, um policial, foi detido, teve sua câmera apreendida e, como isso era pouco, tiraram-lhe a roupa, ameaçaram-no com revólveres e bateram nele. Seu depoimento até parece o de vítima da famosa prisão iraquiana. Nu, numa sala onde do outro lado do vidro estava a bela, ainda ouviu ela dizer: "Profissão de m... Vocês, fotógrafos, não têm jeito".

Eis uma declaração que causa perplexidade. Que é Luma de Oliveira? Uma imagem. Uma bela imagem, saborosa imagem, resplendente de carnes e de promessas, mas isso mesmo – uma imagem. E quem produz as imagens? Os fotógrafos. Imaginemos que os fotógrafos, por causa do episódio, resolvam nunca mais fotografá-la. Que seria de Luma de Oliveira? Haveria sobrevida para Luma de Oliveira?

 
 
 
 
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