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Livros O
acadêmico showman A prosa de José
Miguel Wisnik é performática
como a sua música. E ainda mais vazia  Jerônimo
Teixeira

O professor de literatura da Universidade de São Paulo José Miguel
Wisnik, de 56 anos, é um grande comunicador. Sua palestra sobre Guimarães
Rosa na última Festa Literária de Parati, em julho, foi uma das
mais aplaudidas (e mais longas) do evento. Dublê de acadêmico e músico,
ele já gravou três discos, publicou três livros, compôs
trilhas para filmes, peças de teatro, espetáculos de dança.
Sua fala mais até do que o canto meio falado que exercita em seus
discos e shows tem qualidades que alguns diriam encantatórias (consta
que ele deixa muitas de suas alunas balançadas). O problema é que,
perdida entre a suavidade bossa-nova da voz de Wisnik e a pirotecnia barroca de
sua prosa, a platéia acaba esquecendo de questionar o que, afinal, ele
está dizendo. Pois bem: o recado está dado e condensado no recém-lançado
Sem Receita (Publifolha; 534 páginas; 69 reais), que reúne
ensaios, letras de música e uma longa entrevista com o autor. Reduzida
à medula, a mensagem de Wisnik se desdobra no seguinte: 1) a despeito das
mazelas do país, a cultura brasileira é dinâmica, mestiça,
original, enfim, uma coisa linda; 2) a música popular é a realização
mais acabada da cultura brasileira; 3) logo, a música popular brasileira
é dinâmica, mestiça, original, enfim, uma coisa linda. Como
o próprio Wisnik ocupa seu modesto espaço na festa da MPB, Sem
Receita tem um indisfarçado componente de auto-elogio.
Natural
de São Vicente, em São Paulo, Wisnik cresceu pulando da banqueta
do piano clássico para a arquibancada dos estádios, onde acompanhou
o Santos, seu time do coração, no tempo de Pelé. Estudou
letras na USP e vem mantendo, na carreira acadêmica, um pé na música
e outro na literatura. Foi muito ligado a uma certa vanguarda musical paulista,
especialmente ao grupo Rumo (alguém lembra?), que floresceu pelos anos
80 para murchar em seguida. Wisnik demorou a lançar-se em vôo musical
solo e mantém uma discografia esparsa: estreou com José Miguel
Wisnik, de 1992, seguido de São Paulo Rio, de 2000, e Pérola
aos Poucos, de 2003. Apesar do temperamento retraído, ele arrisca uma
certa exposição pessoal na música: a canção
DNA fala do momento em que o compositor conheceu a filha, então
com 17 anos, que tivera em um caso extraconjugal o refrão repete
as três letras do título, para revelar no final o nome da menina,
Daniela. Ao lado desses acidentes afetivos, a biografia de Wisnik também
tem sua dose de tragédia: em 1982, ele perdeu a primeira mulher, vítima
de uma doença respiratória, e seis meses depois um filho de 7 anos
morreu atropelado. Hoje casado com a artista plástica Laura Vinci, Wisnik
está em um bom momento, com disco e livro novo. As obrigações
universitárias limitam a carreira musical: ele não pode fazer longas
turnês. Mesmo assim, para o ano que vem, já tem programados alguns
shows-com-palestra ao lado do também músico e professor de literatura
Arthur Nestrovski. Unanimidade entre seus pares,
Wisnik é, sobretudo, um sujeito boa-praça, afável demais
para ser crítico. Sem Receita inclui poucos momentos de confronto
de idéias. O mais direto (e engraçado) é a sua discussão
com o já quase lendário crítico musical José Ramos
Tinhorão, que em seu purismo nacionalista rejeita até a bossa nova,
por considerá-la imitação do jazz. (Wisnik, aliás,
afirma que é responsável por ter sensibilizado Tinhorão para
a novidade do rap. Tinhorão nega.) Wisnik às vezes arranha uma crítica
vaga ao lixo predominante na indústria musical, mas nunca dá nome
aos bois. No geral, seus ensaios são pródigos em confete. É
significativo, aliás, que Sem Receita inclua até uma peça
publicitária: uma resenha de Budapeste, romance de Chico Buarque,
escrita por encomenda da editora para figurar no kit promocional do livro.
São elogios, loas, celebrações e homenagens que não
acabam mais. Esse fervor carnavalesco tem lá sua substância teórica.
Uma comparação com o já citado Tinhorão pode ser elucidativa:
obediente a um receituário rígido, Tinhorão exclui. Bossa
nova, tropicalismo, rock, tudo isso é descartado como fruto estrangeiro.
O nacionalismo de Wisnik, ao contrário, é inclusivo. Tudo entra,
tudo vale. Todos os opostos se encontram e todos os conflitos se conciliam na
brasilidade do professor. Num ensaio sobre Guimarães Rosa, Wisnik até
admite que a fluidez da cultura brasileira também dá lugar à
violência, a zonas sem lei em que impera a brutal retaliação
do jagunço. Mas o ensaísta também deixa a impressão
de que a própria existência de Guimarães Rosa, com suas "estórias
encantadoras da dignidade inesgotável da pobreza no Brasil profundo", basta
para resgatar as vergonhas sertanejas. Wisnik cita uma entrevista de seu amigo
Caetano Veloso na qual o músico diz que o Brasil ainda não fez por
merecer a bossa nova. Sem Receita, porém, inverte a equação:
o descalabro brasileiro é redimido porque o país gerou Tom Jobim
e João Gilberto. Nessa parada, desfilam
os chavões de sempre: a cultura mestiça, a antropofagia, a malandragem,
a alegria nativa que é nosso legado para a humanidade. O auge da originalidade
mestiça, claro, é a MPB. Até Machado de Assis é convocado
como um profeta tropicalista, no primeiro e principal ensaio do livro, Machado
Maxixe. Wisnik analisa o conto Um Homem Célebre a história
de um compositor de polcas muito populares nos salões cariocas, que no
entanto cultiva a ambição frustrada de ser um autor sinfônico.
O crítico faz o milagre de transformar esse personagem patético
em um emblema positivo, um símbolo da maleabilidade da cultura nacional,
do seu trânsito criativo entre o erudito e o popular. Em Machado Maxixe,
pelo menos Wisnik tem uma idéia a defender. Na maior parte de Sem Receita,
o que se vê é o encantamento do autor com a própria prosa.
Para louvar Chico, Caetano, Roberto e Tom, Wisnik não se vexa nem de convocar
deuses gregos (fala das "forças dionisíaco-apolíneas" e do
"Eros dançante"). Tudo pontuado tem de se cuidar do ritmo!
por aliterações, rimas, trocadilhos. Os trechos sobre Caetano e
Chico reproduzidos nesta página são só uma amostra de como
Wisnik se deixa possuir para usar uma expressão que arremeda o estilo
do autor por uma euforia eufônica. Que ele provavelmente pensa ser
música.
Os confetes "poético-musicais"
de Wisnik Machado de Assis "Foi
quem primeiro percebeu a dimensão abarcante que assumiria a música
popular no Brasil como instância a figurar e exprimir, como nenhuma, a vida
brasileira como um todo." Caetano Veloso "Caetano
lê o destino através do labirinto de labirintos da linguagem, o labirinto
de canções, ele sabe ir e voltar por esse labirinto; e ao voltar
ao começo, solitário/solidário, indica o que existe lá."
Chico Buarque "Artesão
habilíssimo, lê as entranhas dos homens: sua lírica dramática
é extremamente sensível ao corpo que sofre e goza. Sua poesia-música
(...) capta a entranha sensível." | |
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