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Cinema
O Japão é um palco
Um samurai cego, duas gueixas letais
e um número de sapateado: em Zatoichi,
todos escondem surpresas

Isabela Boscov
Divuklgação
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| O cego Zatoichi (à dir.) luta
com o jovem ronin: poesia na precisão |
O homem cego sentado à beira da estrada
parece um alvo fácil para o bando de malfeitores que o aborda.
Só dois ou três bandidos, porém, sobreviverão
para contar como ele é não o mero massagista que finge
ser, e sim um samurai que permanece sem rival no manejo da espada.
Também as duas jovens gueixas que descansam numa hospedaria
do vilarejo parecem inocentes mas só até usarem
as cordas do seu shamisen, o tradicional alaúde japonês,
para estrangular o cliente. E o rapaz que chega com a mulher à
mesma aldeia é obviamente um ronin, um samurai sem senhor.
O que não está à vista é que ele é
também um samurai sem honra, já que se dispõe
a trabalhar para a gangue da Yakuza a máfia japonesa
que está levando os aldeões à ruína
com suas extorsões. Tudo em Zatoichi (Japão,
2003), que estréia nesta sexta-feira no país, é
uma questão de representação. O próprio
filme do diretor Takeshi Kitano (que faz ainda o papel do massagista-espadachim)
segue esse credo: posa de aventura tirada da ficção
popular no que é muito divertido , mas acaba
se revelando algo bem mais complicado.
Zatoichi é, antes de tudo, uma
resposta aos vários filmes recentes que adotam o estilo chinês
de filmar artes marciais. Se neles a beleza está na agilidade
e nos vôos impossíveis, aqui a poesia está no
oposto: uma precisão tão extrema que beira a imobilidade.
Nenhum gesto dos samurais pode avançar, no tempo ou no espaço,
além do absolutamente necessário. Até as gotas
de sangue das vítimas de Zatoichi parecem resistir à
gravidade: elas ficam em suspenso por uma fração de
segundo além do esperado, densas como tinta. Kitano tem um
olhar apuradíssimo para as composições e as
cores, e aqui ele soma a esse talento um ouvido soberbo. O mundo
do cego Zatoichi é o dos sons, e todas as ações
cotidianas, das enxadas dos camponeses entrando na terra à
lenha sendo partida pelo machado, viram cadências musicais.
Zatoichi, o samurai cego que defende os oprimidos,
foi o protagonista de 26 filmes e 100 episódios de televisão
entre 1963 e 1989, sempre interpretado pelo ator Shintaro Katsu.
No Japão, não há quem não conheça
o personagem. O que Kitano faz com ele, entretanto, não tem
nada a ver com as adaptações americanas de séries
de TV. O diretor dos excepcionais Hana-Bi e Dolls
recria Zatoichi para seus próprios fins: um diálogo
em que participam uma visão intensamente nipônica a
respeito de valores como honra e justiça, mais a conexão
Hollywood-Japão exemplificada por filmes como Os Sete
Samurais, e também um tanto de filosofia pós-moderna,
em que o filme de samurai não é só um gênero
decalcado do passado. Como o faroeste, ele reinventa uma identidade
nacional para as gerações presentes, e o faz com tanta
força que a ficção passa a integrar a realidade.
Se parece estranho que o filme se encerre com um número de
sapateado dançado por camponeses e camponesas em trajes típicos
do Japão medieval, é aí que está a beleza
do que Kitano fez. Contagiados pela dança, os intérpretes
despem momentaneamente seus personagens, deixando entrever uma alegria
e uma espontaneidade insuspeitas. Talvez, então, o Japão
como ele se apresenta ao mundo também não passe de
uma encenação, que de tanto ser repetida se tornou
quase verdadeira.
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