Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

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Cinema
O Japão é um palco

Um samurai cego, duas gueixas letais
e um número de sapateado: em Zatoichi,
todos escondem surpresas


Isabela Boscov

 
Divuklgação
O cego Zatoichi (à dir.) luta com o jovem ronin: poesia na precisão

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O homem cego sentado à beira da estrada parece um alvo fácil para o bando de malfeitores que o aborda. Só dois ou três bandidos, porém, sobreviverão para contar como ele é não o mero massagista que finge ser, e sim um samurai que permanece sem rival no manejo da espada. Também as duas jovens gueixas que descansam numa hospedaria do vilarejo parecem inocentes – mas só até usarem as cordas do seu shamisen, o tradicional alaúde japonês, para estrangular o cliente. E o rapaz que chega com a mulher à mesma aldeia é obviamente um ronin, um samurai sem senhor. O que não está à vista é que ele é também um samurai sem honra, já que se dispõe a trabalhar para a gangue da Yakuza – a máfia japonesa – que está levando os aldeões à ruína com suas extorsões. Tudo em Zatoichi (Japão, 2003), que estréia nesta sexta-feira no país, é uma questão de representação. O próprio filme do diretor Takeshi Kitano (que faz ainda o papel do massagista-espadachim) segue esse credo: posa de aventura tirada da ficção popular – no que é muito divertido –, mas acaba se revelando algo bem mais complicado.

Zatoichi é, antes de tudo, uma resposta aos vários filmes recentes que adotam o estilo chinês de filmar artes marciais. Se neles a beleza está na agilidade e nos vôos impossíveis, aqui a poesia está no oposto: uma precisão tão extrema que beira a imobilidade. Nenhum gesto dos samurais pode avançar, no tempo ou no espaço, além do absolutamente necessário. Até as gotas de sangue das vítimas de Zatoichi parecem resistir à gravidade: elas ficam em suspenso por uma fração de segundo além do esperado, densas como tinta. Kitano tem um olhar apuradíssimo para as composições e as cores, e aqui ele soma a esse talento um ouvido soberbo. O mundo do cego Zatoichi é o dos sons, e todas as ações cotidianas, das enxadas dos camponeses entrando na terra à lenha sendo partida pelo machado, viram cadências musicais.

Zatoichi, o samurai cego que defende os oprimidos, foi o protagonista de 26 filmes e 100 episódios de televisão entre 1963 e 1989, sempre interpretado pelo ator Shintaro Katsu. No Japão, não há quem não conheça o personagem. O que Kitano faz com ele, entretanto, não tem nada a ver com as adaptações americanas de séries de TV. O diretor dos excepcionais Hana-Bi e Dolls recria Zatoichi para seus próprios fins: um diálogo em que participam uma visão intensamente nipônica a respeito de valores como honra e justiça, mais a conexão Hollywood-Japão exemplificada por filmes como Os Sete Samurais, e também um tanto de filosofia pós-moderna, em que o filme de samurai não é só um gênero decalcado do passado. Como o faroeste, ele reinventa uma identidade nacional para as gerações presentes, e o faz com tanta força que a ficção passa a integrar a realidade. Se parece estranho que o filme se encerre com um número de sapateado dançado por camponeses e camponesas em trajes típicos do Japão medieval, é aí que está a beleza do que Kitano fez. Contagiados pela dança, os intérpretes despem momentaneamente seus personagens, deixando entrever uma alegria e uma espontaneidade insuspeitas. Talvez, então, o Japão como ele se apresenta ao mundo também não passe de uma encenação, que de tanto ser repetida se tornou quase verdadeira.

 
 
 
 
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