Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

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Internacional
O ministro, a amante,
o marido dela...

Num escândalo à inglesa, ela acabou tudo,
mas ele quer provar que é pai dos filhos dela


Silvia Rogar, de Londres

AFP
Blunkett passeia com Blair: popular mesmo com processo contra a ex-amante


Reza o roteiro dos grandes escândalos sexuais britânicos que eles transcorram assim: 1) homem famoso e/ou poderoso engravida amante menos favorecida; 2) ele faz de tudo para escapar do teste de paternidade; 3) a moça bate na porta de um tablóide, conta os detalhes do romance, ganha uma bolada e ainda fica famosa; 4) a reputação do homem famoso vai para a sarjeta. A prática, conhecida como kiss and tell ("beija e conta"), inverte-se completamente no escândalo que freqüenta há quatro meses as manchetes dos jornais ingleses, envolvendo o ministro do Interior, David Blunkett, 57 anos, e seu romance com a americana Kimberly Quinn, 43. Ela, casada, diretora da revista conservadora The Spectator, grávida de sete meses, deu a relação por encerrada. Ele, divorciado, integrante dos mais populares do governo trabalhista do primeiro-ministro Tony Blair, uma raridade com verdadeiras raízes na classe operária, além de cego de nascença que exige ser tratado sem nenhuma condescendência, não se conformou. Entrou na Justiça, para garantir o contato com o filho dela, William, 2 anos, que diz ser dele, bem como o bebê ainda em gestação. Em outros tempos, Blunkett já teria perdido o emprego. Como esse não é um escândalo igual aos outros, o ministro tem apoio explícito de todo mundo. "No fim dos anos 60, os jornais começaram a publicar detalhes da vida íntima das pessoas conhecidas e os britânicos adoraram. Mas foram se acostumando. O lado bom é que agora estão ficando mais tolerantes", comenta Robert Kaye, professor da London School of Economics e especialista em ética política

Nessa história de exceções, o início foi regulamentar. O ministro encantou-se com a voz de Kimberly – uma morena bonita, bem relacionada, de família rica – ao ouvi-la em 2001 no rádio, num programa sobre literatura. Cheio de segundas intenções, concedeu justamente à Spectator, revista de pequena tiragem, mas deliciosamente bem-feita e alinhada com a oposição, sua primeira entrevista como ministro do Interior. Apresentado a Kimberly num jantar com a cúpula da revista, os dois iniciaram seu romance – isso, três meses depois de ela ter se casado com o irlandês Stephen Quinn, 60 anos, milionário executivo da edição britânica da revista Vogue. Foram ostensivas as aparições de Kimberly ao lado do ministro (que é separado há quinze anos e tem três filhos adultos): ela freqüentava sua casa, passou férias com ele e o filho na Grécia e, no ano passado, sentou-se a seu lado no banquete oferecido pela rainha Elizabeth ao presidente americano George W. Bush.

Em agosto, um tablóide publicou a notícia de que David Blunkett estava tendo um caso com uma mulher casada. No dia seguinte, outro deu nome e sobrenome à amante (que até então assinava Fortier e, a partir daí, adotou o Quinn do marido). A essa altura, o romance estava praticamente acabado – ela optou por ficar com o marido, totalmente compreensivo. Blunkett partiu para a briga, recorrendo à Justiça para provar que é o pai dos filhos de Kimberly. "Nunca quis que minha vida privada e a paternidade de William caíssem em domínio público e nunca teria ido aos tribunais se houvesse outra forma de ter acesso a ele", justificou. O ministro já obteve uma primeira vitória: a Justiça não aceitou o pedido de Kimberly, que está hospitalizada com stress, de suspensão do processo até abril. Quinn, o marido traído, dá a entender com serenidade olímpica que o teste de DNA não lhe será favorável. "Não sou obcecado por detalhes biológicos. Acho que paternidade é estar presente", declarou ao Sunday Times.

Impermeável à denúncia de que teve um caso e dois filhos com uma mulher casada, Blunkett pode ter problemas, isso sim, por motivo mais burocrático: é acusado de usar as prerrogativas do cargo para agilizar o visto de residência da babá filipina Leoncia Casalme, empregada de Kimberly – babá essa já demitida e, para manter pelo menos algo da tradição, já cooptada pelos tablóides. Pelo equivalente a 160.000 reais, ela apresentou "provas" do tal favorecimento e falou horrores da ex-patroa. Corre uma investigação independente para apurar os fatos, que deve ser divulgada na próxima semana. Paralelamente, soube-se na semana passada da existência de outro romance, anterior a Kimberly, do ministro sedutor com uma secretária vinte anos mais jovem e também comprometida. Blunkett, cuja infância é inevitavelmente comparada a um romance de Dickens (o pai morreu escaldado ao cair numa caldeira na fábrica em que trabalhava), lê seus discursos em braile e anda com naturalidade na companhia de "Sadie", sua cadela-guia. Defende uma linha dura, para os padrões ingleses, de combate ao crime e desafia o pensamento politicamente correto: já declarou, por exemplo, que os refugiados do Paquistão e de Kosovo deveriam voltar para casa e ajudar a reconstruir os seus países. Até agora, tirando as diatribes da Spectator (na última edição, quatro artigos sustentam que, dispensado pela amada, o próprio Blunkett teria procurado os jornais para contar detalhes da relação), a popularidade do ministro só aumentou. Numa pesquisa publicada pelo The Times, três quintos dos entrevistados dizem que o escândalo não afeta em nada sua integridade – um fenômeno no caso do ministro que quer ser pai dos filhos da amante casada.

 
 
 
 
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