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Especial A
busca pelo Jesus da História Cristo foi batizado
por João Batista no Rio Jordão, escolheu doze discípulos,
pregou pela Galiléia durante menos de um ano e foi crucificado. Mas
essas poucas certezas sobre sua vida só tornam ainda mais instigante
aquilo que não se sabe e provavelmente nunca se saberá
sobre ele 
Isabela Boscov
A fé cristã se fortaleceu no decorrer
dos últimos vinte séculos não por se constituir em um impecável
museu de relíquias capazes de narrar de forma coerente e incontestável
a história de Jesus. A fé cristã se enriqueceu da adversidade
e construiu uma vigorosa verdade teológica apesar das falhas gritantes
dos registros históricos sobre o homem que mandou o apóstolo Pedro
construir a sua Igreja. Sua passagem terrestre, no entanto, deitou sobre o tempo
histórico marcas muito tênues. Fora os Evangelhos, textos sagrados
do cristianismo, a figura de Jesus aparece citada apenas de forma cifrada ou pouco
clara em obras escritas dezenas de anos depois de sua morte. Por essa razão,
as raras descobertas arqueológicas que iluminam o período histórico
de Jesus na Palestina são recebidas com grande curiosidade pelos estudiosos.
Há dois anos, foi encontrada uma urna funerária de pedra gravada
com a inscrição em aramaico "Tiago, filho de José, irmão
de Jesus". Passada a excitação inicial com o que parecia ser a primeira
prova não textual da existência física de Jesus, as dúvidas
prevaleceram. O fato de a relíquia ter sido removida há muitos séculos
da terra, só agora encontrada e não se poder precisar onde andou
por tanto tempo contribuiu para que a descoberta não fosse considerada
definitiva. O episódio, porém, encerra a lição de
que a força da palavra de Jesus independe das provas históricas.
Estas, por sua vez, continuarão a ser buscadas com afinco e precisão
crescentes.
AP  |  |
| A ilustração da aparência provável de Jesus,
moreno e de cabelos crespos, é muito diversa da iconografia a seu respeito e também
da face que aparece no Santo Sudário. À direita, uma reconstituição da
crucificação do jovem judeu Yehohanan, cujo esqueleto é o único encontrado até
hoje em Jerusalém de alguém submetido a esse tipo de execução |
O Natal é uma data cristã em que a tradição menos
se harmoniza com a história. Jesus não nasceu no ano que dá
início à sua era, mas sim algo como seis anos antes culpa
de uma confusão entre os calendários romano e cristão. O
local de nascimento de Jesus também é fonte de questionamentos.
Ignora-se por que seus pais, Maria e José, que moravam em Nazaré,
estariam em Belém no momento do parto. A explicação tradicional,
de que teriam retornado à cidade natal de José para um censo, esbarra
na falta de registros de alguma grande convocação desse tipo nesses
anos. Os romanos, que dominavam a região, faziam censos em seu império
para recolher tributos e a lógica sugere que eles registravam seus
contribuintes nos locais em que trabalhavam e residiam. Os Evangelhos de Lucas
e Mateus, com pequenas discrepâncias, fazem narração semelhante
do nascimento. Até o século XVIII, não havia a preocupação
de procurar fatos que comprovassem os Evangelhos. Isso mudou. Diz o teólogo
espanhol Julián Carrón: "Desde o início, a Igreja Católica
acreditou que os Evangelhos tivessem origem na figura histórica de Jesus,
e sempre os considerou testemunhos de fatos acontecidos. Apesar disso, a partir
do iluminismo alguns estudiosos começaram a achar que os Evangelhos não
tinham valor histórico e que era preciso encontrar outro tipo de correspondência
entre eles e os fatos". Os especialistas discutem
livremente a função de proselitismo dos Evangelhos. A própria
narração do Natal é interpretada como sendo uma espécie
de esforço de propaganda. Belém era a cidade do rei Davi, uma ótima
maneira de reforçar, a posteriori, a afirmação de que Jesus
era o Messias: ele seria, assim, descendente pela linha paterna de um dos fundadores
do judaísmo, e teria nascido na mesma cidade que ele. A estrela de Belém,
citada apenas por Mateus, é outro mistério. Nascer no leste, aparecer
sobre Jerusalém e então virar-se para o sul, na direção
de Belém, como descreve o evangelista, é um comportamento no mínimo
estranho para uma estrela. O enigma astronômico há séculos
intriga os cientistas. Uma primeira resposta foi aventada em 1604, pelo astrônomo
alemão Johannes Kepler. Ao observar uma conjunção de Júpiter,
Saturno e Marte, ele calculou que o fenômeno teria ocorrido também
em 6 a.C. o possível ano do nascimento de Jesus , produzindo
impressão semelhante àquela descrita por Mateus. Outros estudiosos
acreditam que o evangelista ficou tão encantado com a passagem do cometa
Halley, em 66 d.C., que o teria incluído em sua narrativa. E há
os que acham que a estrela de Belém não passa de um símbolo,
lendário do começo ao fim, da chegada de um rei. "Os astrônomos
nunca vão encontrar a verdadeira estrela de Belém, porque ela é
produto da nossa imaginação: é a luz que brilha sobre o Cristo
criança", diz A.N. Wilson, autor de Jesus: A Life. Atribui-se, ainda,
à imaginação dos artistas (e ao eurocentrismo) o aspecto
físico com que Jesus passou à história. Os longos cabelos
castanho-aloirados, os traços esculpidos e os olhos claros são incongruentes
com o biotipo de um palestino do século I. O mais provável é
que ele fosse moreno, com olhos escuros e cabelos crespos bem diferente,
portanto, não só do Jesus da iconografia, como da imagem impressa
no Sudário que está exposto em Turim, na Itália.
A busca pelo Jesus histórico como de resto
da maioria das investigações materiais da Antiguidade produz
mais dúvidas do que respostas. Nem a morte do Nazareno na cruz, uma das
poucas certezas da história, deixa de suscitar interrogações.
No mundo greco-romano, não havia desonra maior do que a morte sem sepultura.
Um corpo exposto ao tempo, aos olhares de estranhos, às feras e às
aves era um insulto público, e significava também a destruição
da identidade um fim sem epitáfio e portanto sem posteridade, uma
preocupação suprema da Antiguidade. Por isso, para acrescentar injúria
à tortura, os romanos crucificavam os escravos desobedientes e os presos
políticos. Mesmo após o condenado expirar, os soldados continuavam
a montar guarda: baixar um morto da cruz era um privilégio que exigia súplica,
influência ou propina, ou todas as três coisas. Não é
de estranhar que, dentre os milhares de pessoas que se calcula terem sido crucificadas
nos arredores de Jerusalém durante o domínio romano, um único
esqueleto tenha sido encontrado o de um judeu de seus 20 anos de idade
chamado Yehohanan, filho de Hagkol, como consta da inscrição em
seu ossuário.
AP  |
| O arqueólogo Shimon Gibson mostra a caverna
(abaixo, à esq., sua entrada), localizada num kibutz próximo a Jerusalém,
que João Batista pode ter usado para ungir seus seguidores. O óleo e a água do
sacramento escorreriam por uma abertura na pedra (à dir., abaixo) |
AP  | AFP
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A análise da ossada de Yehohanan, localizada
em 1968, revela que suas mãos não foram pregadas à cruz:
provavelmente, seus braços foram amarrados à trave, enquanto seus
pés foram dispostos lateralmente à viga e atravessados por trás,
na altura do calcanhar, por um pino de ferro. Como o pino entortou, não
foi possível despregar o pé direito de Yehohanan, e sua família
teve de enterrá-lo com um pedaço da cruz preso ao osso. Na suposição
de o jovem judeu preservado no ossuário servir de modelo para a morte de
Jesus Cristo e ele é o único de que se dispõe ,
ele levanta duas questões relevantes. A primeira é que é,
sim, possível que Jesus tenha ganho uma sepultura, apesar de não
ser esse o costume. A outra é que, se as mãos e os pés de
Jesus não foram perfurados por cravos, as chagas com que ele é descrito
nos Evangelhos e habitualmente representado não correspondem aos seus ferimentos
reais. Essas são meras suposições, claro, e é quase
certo que nunca será possível prová-las ou desprová-las.
Na tentativa de retraçar os passos de Jesus, historiadores e arqueólogos
esbarram continuamente em dilemas semelhantes: as evidências concretas são
ínfimas, e por isso mesmo nem se pode descartá-las, nem tomá-las
como indícios seguros. A procura por traços
concretos da existência de Jesus é relativamente recente. Começou
com os movimentos racionalistas da virada do século XVII para o XVIII,
quando ganhou força a idéia de que qualquer dúvida ou mistério
poderiam ser desfeitos pela ciência e, no espírito da época,
o objetivo era menos verificar a existência de Jesus e mais negá-la
como um mito comparável a tantos outros presentes na Bíblia.
Hoje, não há mais como pôr em disputa o fato de que Jesus
existiu. Ele é citado, ainda que de passagem, por dois cronistas não-cristãos
do período, o judeu Josefo e o romano Tácito. As fontes mais aceitas
sobre a trajetória de Jesus os Evangelhos Sinópticos, de
Mateus, Lucas e Marcos são consistentes com o que se sabe sobre
a Palestina do século I, de forma que a chance de serem fruto da imaginação
de seus autores é desprezível. Muitas informações
podem ser tiradas também das Cartas de Paulo (anteriores aos Evangelhos
em sua forma escrita), o mais instruído dos discípulos, e de fontes
não-canônicas, especialmente do Evangelho de Tomé, cujo texto
integral foi descoberto em 1945 e desde então vem sendo objeto de grande
atenção. Ainda que os consensos sobre a trajetória de Jesus
sejam frágeis, os historiadores acreditam ser fato que ele tenha sido batizado
no Rio Jordão pelo profeta João Batista, que tenha escolhido doze
apóstolos, que tenha pregado pela Galiléia talvez numa missão
muito curta, de menos de um ano , e que tenha sido crucificado, muito provavelmente
durante uma Páscoa. Essas certezas, porém, só tornam ainda
mais instigante aquilo que não se conhece sobre Jesus, e que vai
do prosaico, como a sua aparência física, ao absolutamente cifrado
de que forma ele teria passado os anos de sua adolescência e juventude,
sobre os quais nenhuma pista confiável sobreviveu.
Mesmo o local mais sagrado da religião a que Jesus deu origem, a Igreja
do Santo Sepulcro erigida sobre a caverna em que o corpo de Jesus teria
sido colocado por José de Arimatéia , não está
a salvo de incertezas. A igreja foi consagrada em 335, a mando do imperador Constantino
(que instaurou o cristianismo como religião oficial do Império Romano),
quando uma tumba que se acredita ser a de Cristo foi descoberta sob um templo
pagão. Se sua descrição e localização conferem
com os Evangelhos e a crônica do período, não há, por
outro lado, provas arqueológicas que confirmem ser essa a sepultura de
Jesus. Muito mais tênue ainda é a ligação que se pretende
estabelecer entre Jesus e a seita dos essênios, cujos célebres Manuscritos
do Mar Morto foram encontrados no fim da década de 40. Praticantes de um
judaísmo ascético e radical, os essênios pareciam ter, conforme
os documentos que legaram, muito em comum com o pensamento de Jesus daí
a hipótese de que Cristo tenha passado a juventude com eles. A teoria tem
muitos adeptos, e outros tantos detratores. Itzhak Magen e Yuval Peleg, dois arqueólogos
israelenses ligados aos órgãos históricos de seu país,
argumentaram que um exame mais detido das cavernas de Qumran, onde estavam os
manuscritos, sugere que elas funcionavam não como um refúgio de
ermitãos, mas talvez como olaria, e que os pergaminhos foram simplesmente
levados da biblioteca do templo de Jerusalém para lá, para sua proteção.
Não seria, portanto, um lugar de estudo onde um jovem fosse se iniciar.
São remotas as chances de que, algum dia,
venham a surgir as evidências diretas que tanto se buscam sobre Jesus. A
Palestina era uma província menor, que interessava ao Império Romano
apenas na medida em que se situava entre o Egito e a Síria. Menos importância
equivale a menos documentos e monumentos a primeira dificuldade no caminho
da arqueologia. O ossuário do sumo sacerdote judeu Caifás, que entregou
Jesus ao governador romano Pôncio Pilatos e exigiu sua execução,
é dado como genuíno. Mas só há poucas décadas
se encontrou uma laje com a inscrição do nome de Pôncio Pilatos.
Até autenticar-se esse fragmento de pedra, o nome do governador romano
existia apenas na literatura. Escavar em Jerusalém e arredores é,
além disso, uma proposição delicada. A cidade vive uma divisão
conflituosa entre as três religiões para as quais é sagrada
o cristianismo, o judaísmo e o islamismo , e expedir uma autorização
é uma questão que exige sensatez política e diplomática.
Em anos recentes, com o recrudescimento das hostilidades entre israelenses e palestinos,
a situação se agravou: das quase cinqüenta grandes escavações
em andamento em Israel, apenas quatro continuam em atividade. Não há
como garantir a segurança das demais. Finalmente, a região é
o paraíso dos caçadores de troféus, que retiram peças
de seu contexto para vendê-las e, assim, eliminam quase todo o seu
valor científico , e dos arqueólogos ambiciosos, que anunciam
descobertas bombásticas antes que elas possam ser analisadas por seus pares.
Em agosto deste ano, por exemplo, o arqueólogo britânico Shimon Gibson
anunciou com grande alarde ter encontrado a suposta caverna de João Batista,
localizada no que é hoje um pequeno kibutz. Há indícios de
que seguidores de João, ao menos, tenham usado o local, que conta com o
que se julga ser uma pia batismal por onde escorreriam o óleo e a água
empregados na unção. Qualquer outra hipótese, porém
como a de que João ou mesmo Jesus tenham administrado batismos ali,
conforme especula Gibson , é prematura.
A fé, claro, não precisa de provas que a confirmem, ou não
levaria o nome de fé. Não precisa, mas, de alguma forma, sempre
as deseja. Os Evangelhos descrevem a relutância de Jesus em fazer milagres,
mas deixam entrever sua visão de que, ocasionalmente, esses sinais eram
necessários. Conta-se também como, após a Ressurreição,
Cristo deixou que o incrédulo São Tomé tocasse suas chagas
para comprovar que era ele mesmo, o Filho de Deus, quem estava ali. Desde que
o cristianismo começou a se espalhar e ele se alastrou como um rastilho
de pólvora pela Palestina e logo também por todo o mundo romano
em suas primeiras décadas , começaram a surgir também
as relíquias: fragmentos da Cruz Verdadeira (que, fossem todos eles autênticos,
teria dimensões descomunais), ossos de santos, frascos de sangue e toda
uma miríade de testemunhos físicos de que Cristo, seus apóstolos
e mártires caminharam sobre a Terra, gerando um culto que poderia muito
bem ser caracterizado como fetichismo ou superstição. Na Idade Média,
a Igreja muitas vezes se valeu da venda de relíquias e de indulgências
como fonte de renda um comércio que, durante uma visita a Roma,
horrorizou o padre Martinho Lutero e acabou servindo como um dos estopins para
a Reforma Protestante. Hoje o Vaticano desencoraja esse tipo de apego, ou, quando
muito, o tolera, e trata as descobertas de possíveis relíquias com
o máximo de circunspecção. Mesmo assim, elas ainda pipocam.
Quando se pensa no homem que fundou a maior religião
monoteísta do planeta, resistente a 2.000 anos
de sismos políticos e sociais, ao crescimento de outras religiões
e às cizânias em seu próprio interior, é natural imaginá-lo
voltado para nós, transmitindo para as gerações vindouras
sua mensagem. Esse Jesus, contudo, é o da teologia. De acordo com a historiadora
Paula Fredriksen, professora de escritura da Universidade de Boston, para encontrar
o Jesus histórico deve-se visualizá-lo de outra forma: de costas
para nós, e voltado para os seus contemporâneos e conterrâneos.
O problema imediato de Jesus era fazer-se entender por eles, e foi para pessoas
como ele próprio que Cristo elaborou seu discurso, ou que os evangelistas
escreveram seus relatos. É preciso, então, primeiro entender a Palestina
do século I e, em seguida, contrapor a ela os relatos dos Evangelhos
um exercício que pode render frutos surpreendentes.
Diz a máxima quase sempre verdadeira que quem escreve a história
são os vencedores. Os Evangelhos, porém, são a mais notável
exceção a essa regra. Tudo sugere que os relatos de Mateus, Lucas,
Marcos e João começaram a ganhar forma na segunda metade do século
I, quando o cristianismo ainda era um movimento marginal, que apenas começava
a ensaiar o seu passo decisivo o de transpor a esfera do judaísmo
para conquistar os gentios e se alastrar pelo mundo romano. Os Evangelhos estão
carregados de marcas dessa trajetória. Eles assinalam, por exemplo, a relutância
do romano Pôncio Pilatos em aceitar as acusações do sacerdote
judeu Caifás e condenar Jesus à morte. Nas menções
a Pilatos que sobreviveram na crônica política da época, contudo,
o governador é retratado como um oficial brutal, que se excedia no zelo
com que executava prisioneiros a ponto de incomodar Roma. Esse é um dos
pontos em que os estudiosos convergem: a maneira como os Evangelhos mitigam a
culpa de Pilatos, transferindo-a quase toda para o clero judaico, é uma
herança clara do momento que o cristianismo atravessava por volta dos anos
60 e 70, de tentar seduzir Roma e forjar laços com ela. Do ponto de vista
de um historiador, portanto, até em suas omissões ou contradições
os Evangelhos são um documento historiográfico riquíssimo,
repleto de pistas sobre as intenções de Jesus e sobre as tensões
políticas a que ele e seus seguidores estavam submetidos.
Essa tática a de estudar o que não
é dito é, segundo Paula Fredriksen, útil também
no caso do historiador judeu Josefo. O mais ativo cronista da região no
século I, Josefo forneceu descrições detalhadas dos acontecimentos
políticos e sociais. Mas não menciona fome, impostos escorchantes,
violações flagrantes da lei judaica (por parte de Herodes Antipas,
rei da Galiléia, ou dos oficiais romanos) nem forte presença de
tropas do invasor. Não relata, enfim, turbulências além do
normal. O retrato consensual que se tem da região no início do século
I é o de uma terra cultivada, muito populosa outro cronista diz
que nunca se andava um dia inteiro sem atravessar uma vila, uma aldeia ou uma
cidade , e que usufruía uma convivência não exatamente
harmoniosa, mas também não particularmente tensa, com o poder romano.
A Galiléia era já muito romanizada, mas eram os judeus, e não
os romanos, que a governavam, frisa Paula Fredriksen. Ou seja, a julgar pelo que
narra Josefo, é muito mais lógico que Jesus tenha feito mais oposição
a preceitos judaicos do que à dominação romana o contrário
do que dizem, por exemplo, alguns teólogos ligados à Teologia da
Libertação, que gostam de ver em Jesus um proto-socialista.
O irlandês radicado nos Estados Unidos John Dominic
Crossan, professor de estudos bíblicos da Universidade DePaul de Chicago
e talvez o mais influente estudioso da área, vai mais fundo nesse panorama
da Palestina. Em O Jesus Histórico, Crossan se vale de numerosos
trabalhos de colegas seus para reconstruir um retrato minucioso dessa sociedade.
E duas características da Palestina assim como de toda a bacia do
Mediterrâneo são fundamentais para entender Jesus, diz ele.
A primeira delas é o código de honra e vergonha, que assegurava
à força a lealdade no interior das comunidades. Nesse sistema, famílias
e clãs se tornavam pequenos soberanos, com poder de vida e morte sobre
seus membros e ai de quem transgredisse suas regras. Outro traço
muito típico do Mediterrâneo, aponta o historiador, é o costume
do apadrinhamento: tudo nesse universo dependia de intercessão, de que
se pedisse um favor e alguém o concedesse.
Para as pessoas humildes que viviam espremidas entre os sistemas de honra e apadrinhamento,
imagina John Dominic Crossan, o desejo de escapar não devia ser pequeno.
Mas como alguém pode se subtrair à sociedade? Os cínicos
e a palavra aqui é derivada do grego para "canino", sem o sentido
atual filosofaram uma resposta a essa pergunta: segundo os partidários
dessa espécie de contracultura da Antiguidade (que achavam que se devia
"latir" contra as injustiças), a pobreza levava à liberdade, que
por sua vez levava à realeza a um homem que é senhor de si
mesmo. Não se tratava apenas de teoria. Os cínicos tinham diretrizes
práticas em relação à aparência (cabelo comprido,
manto e pés descalços), alimentação (tirada de um
alforje) e moradia (proporcionada por quem se dispusesse a dar abrigo ao rebelde
itinerante). No tempo de Cristo, os cínicos eram figuras comuns, e facilmente
reconhecíveis por suas vestimentas, seu cajado e suas atitudes. Não
eram benquistos pelas autoridades romanas, claro, porque enchiam de idéias
as classes menos favorecidas. De certa forma, Jesus se encaixaria no papel de
um cínico, diz Crossan exceto pelo fato de que ele foi bem além
da proposta do movimento. Jesus não pregava a auto-suficiência, como
os cínicos, mas sim a mais absoluta comensalidade, sem distinções
entre homens e mulheres, pobres e ricos, gentios ou judeus, poderosos ou párias.
Isso não desagradaria só aos romanos. Enfureceria acima de tudo
os adeptos da lei judaica, que nesse momento atravessava uma fase de sectarismo
pronunciado. E, como arrisca Crossan, mais desmoralizante e subversivo do que
combater uma regra é simplesmente ignorá-la.
Muito já se discutiu se Jesus estaria em continuidade com o judaísmo
ou em oposição aos padrões sociais e religiosos de sua época.
Mas o inglês Christopher Tuckett, professor de estudos do Novo Testamento
na Universidade de Oxford, levanta um argumento forte a favor do Jesus radical:
o ministério de Cristo se mostrou tão ofensivo para parte de seus
contemporâneos que eles o levaram à morte pelo método mais
cruel de execução já inventado. Sob essa luz, muito do que
Jesus pregou ganha um novo sentido. Tome-se, por exemplo, sua condenação
do divórcio. "Todo aquele que se divorciar de sua mulher e desposar outra
comete adultério contra a primeira", diz o Evangelho de Marcos. Ora, à
primeira vista essa parece ser uma posição conservadora. Mas é
preciso reparar que Jesus fala que um homem que toma uma segunda esposa
é um adúltero. Na lei judaica, só os homens, e não
as mulheres, podiam pedir o divórcio. Nivelando o direito feminino ao masculino,
Jesus desfere um golpe contra o androcentrismo, um dos pilares da tradição.
Nesse cenário, até o sacramento
do batismo adquire um sentido subversivo. Na época em que Cristo viveu,
o único local em que um judeu podia oferecer sacrifícios para purificar-se
era o Templo de Jerusalém caro chegar até lá, caro
custear a estada e caro comprar, à entrada do templo, os animais que seriam
sacrificados. Na prática, isso equivalia a excluir da redenção,
por critérios econômicos, uma parcela da população.
O batismo seria, assim, um atalho barato e viável para o poder divino:
bastava um banho para limpar-se dos pecados e bastava esse gesto para minar
o monopólio dos sacerdotes sobre a salvação.
Foi isso que o ministério de Jesus fez: solapar de forma sistemática
a hierarquia. Quase todas as suas alusões ao Reino de Deus deixam transparecer
essa preocupação. Um reino que é das crianças não
seria, na Antiguidade, propriamente um reino dos inocentes e sim daqueles
sem poder nem direito de opinião ou escolha. Numa tradução
mais correta do grego original, o reino dos pobres viraria o reino dos indigentes,
dos indesejados. Nada fala mais alto, entretanto, que a decisão de Jesus
de confiar ao seu apóstolo Pedro, e não ao seu irmão Tiago,
os rumos de sua Igreja. Num ambiente regrado pelo apadrinhamento, seria natural
que os familiares de Jesus se beneficiassem mais de seus dons, sua fama e seu
poder crescente. Jesus, porém, preferiu quebrar a espinha aos usos e costumes
de seu tempo. Seu reino, de certa forma, não estava no futuro: nesses termos,
era já muito presente. Por mais valioso
que seja conhecê-la, a dimensão política de Jesus, entretanto,
em nada ajuda a compreender a sua natureza essencial a divina. É
nesse ponto, em que fé e ciência colidem, que começam as questões
verdadeiramente insolúveis. A Ressurreição é a passagem
mais desafiadora dos Evangelhos para um historiador secular: ela é a chave
para o reconhecimento da divindade de Jesus, mas a que menos possibilidade oferece
de se encaixar numa perspectiva científica. Francis Watson, professor de
exegese do Novo Testamento na Universidade de Aberdeen, na Escócia, argumenta
que o problema de não ser possível provar os milagres e a ressurreição
de Jesus nem nunca ter sido possível provar fenômenos semelhantes
não é, em si só, prova em contrário
de que tais fatos tenham sucedido. A questão levantada por Francis não
é apenas técnica, ou um jogo de palavras. Qualquer tentativa de
contar a história de Jesus pondo de lado a confissão de que ele
é o Cristo enfim, o filho de Deus e o próprio Deus
seria equivocada, diz o professor: separar Jesus, a figura histórica, de
Cristo, a figura divina, significa desprezar exatamente o fator que confere a
ele sua importância absoluta e insuperável. Não importa se
se pensa que Jesus é o filho que integra a Santíssima Trindade,
que era um profeta como qualquer outro de seu tempo ou que era meramente um lunático
que se acreditava o Messias Jesus será sempre definido como sendo
o Cristo ou o não-Cristo. Será sempre definido, em suma, por uma
indagação. Assim foi durante sua vida, na Galiléia, quando
seus próprios familiares duvidaram de sua origem divina, ou quando os aldeões
que o viram expulsar os demônios do corpo de um homem o acusaram de ter
esse poder por meio de Belzebu. E assim é hoje: quanto mais se tenta chegar
ao Jesus "verdadeiro", mais fé e história se entrelaçam.
E mais o mistério se aprofunda. Mistério cuja chave Jesus mesmo
produziu, ao afirmar: "Meu reino não é deste mundo".
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