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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Bush sem bushismo
É o que se
prenuncia, para alívio
do mundo, após a sova eleitoral
tomada pelo presidente americano
Do impressionante elenco de realizações
negativas do presidente George W. Bush constam:
Lançou
os Estados Unidos a uma guerra, no Iraque, que se converteu na segunda
mais desastrosa aventura militar da história americana (depois
do Vietnã), com possibilidade de virar a primeira, dependendo
do desfecho que vier a ter;
Mentiu seguidamente
ao povo americano e à comunidade internacional, na medida
em que improvisava sucessivas justificativas para a guerra
das armas de destruição em massa do Iraque (inexistentes)
ao apoio desse país ao terrorismo (inexistente) e à
instauração, ali, de um regime democrático
(impossível);
Reabilitou, por
meio de instruções aos militares às vezes claras,
às vezes ambíguas, o uso da tortura como política
de Estado, enquanto instaurava em Guantánamo um campo de
concentração onde não-pessoas são presas
sob não-acusações e condenadas, em não-julgamentos,
a suportar uma não-vida por um não-prazo;
Conseguiu que
uma política alegadamente voltada a proporcionar mais segurança
ao mundo e aos EUA resultasse no contrário, ao transformar
o Iraque em sementeira de terroristas, ao fracassar na desativação
da sementeira Afeganistão-Paquistão e ao proporcionar
considerável impulso ao ressentimento e ao ódio no
resto do mundo muçulmano;
Jogou na lona
o prestígio dos EUA no mundo.
A esses fatores, todos relacionados com a
guerra no Iraque, podem ser acrescentados desde o colossal déficit
de 1,5 trilhão de dólares nas contas públicas,
no acumulado de seis anos de bushismo, até o boicote das
políticas internacionais de proteção ao meio
ambiente, passando pelo obscurantismo religioso que inibiu o ensino
do evolucionismo nas escolas e atravancou as pesquisas sobre as
células-tronco. Mas fiquemos com a guerra do Iraque. Ela
é a suprema realização do atual governo de
Washington. Travaram-se principalmente em torno dela as eleições
que, na semana passada, premiaram Bush com estrondosa derrota. Duas
perguntas ressaltam, em relação a esse tema do Iraque.
A primeira é: seria diferente se outro presidente estivesse
no poder?
Calou tão fundo na alma americana,
e com todos os motivos do mundo, o ataque de 11 de setembro de 2001
que caberia supor os EUA inevitavelmente iriam em
seguida à guerra, fosse qual fosse o ocupante da Casa Branca.
Acresce que os EUA, nação guerreira, não costumam
hesitar em puxar o gatilho. O argumento da inevitabilidade de uma
reação bélica ao 11 de Setembro pode valer
para o Afeganistão do Talibã, que abrigava Osama bin
Laden, não para o Iraque. A guerra contra o Iraque já
era gestada, no círculo íntimo de Bush, dominado por
neoconservadores embriagados de certezas morais e de onipotência,
já antes do 11 de Setembro. Suas razões situavam-se
em algum lugar entre a necessidade de assegurar um petróleo
mais amigo e mais barato e um choque que poria de cabeça
para baixo a geopolítica do Oriente Médio. As marcas
da ideologia bushista estão aí fundamente impressas.
Não dá para acreditar que outro presidente seguiria
a mesma linha. Quanto ao instinto guerreiro dos EUA, o bushismo
exacerbou-o a ponto de criar o conceito de "guerra preventiva"
um castigo prévio, uma absurda pena aplicada antes de cometido
o delito. Não é qualquer presidente que iria tão
longe.
Se a guerra do Iraque é uma criação
tão própria, assinalada de modo inconfundível
pela grife do bushismo, com suas inerentes características
de prepotência e auto-engano, daí decorre a segunda
pergunta. Por que Bush contou, durante tanto tempo, com o apoio
dos americanos? A resposta é que eles estavam anestesiados.
John le Carré considerou que atravessavam um período
de doença histórica. Sejamos mais condescendentes:
estavam anestesiados. O 11 de Setembro pôs o país em
estado de choque, e a primeira reação foi o refúgio
no patriotismo. Ir contra o presidente era ir contra a nação.
Os EUA enrolaram-se na bandeira, e nesse movimento envolveram tanto
a oposição democrata quanto a imprensa. A oposição
dissolveu-se na sopa em que o governo, aproveitando-se da situação,
manipulava o patriotismo e o medo. A imprensa, tão vigilante
em outros momentos decisivos, como Watergate e a Guerra do Vietnã,
atravessou, dócil e boazinha, um de seus piores períodos.
Os olhos se foram abrindo aos poucos. E revelaram-se
despertos de vez na eleição da semana passada, quando
os republicanos de Bush perderam a maioria na Câmara e no
Senado e a maior parte dos governos estaduais. O grande derrotado,
sem remissão à vista, foi o bushismo. Bush vai continuar,
mesmo porque tem mais dois anos de mandato, mas sem bushismo. Não
mais se sustenta a ideologia que lhe revestia a Presidência,
vitimada pela própria arrogância e farisaísmo.
Ela já fora empurrada a um beco sem saída no Iraque.
Recebeu agora do eleitorado a sentença de morte. Não
que tudo vá mudar num passe de mágica. A herança
maldita é pesada e o Iraque é um problema que Bush
provavelmente legará ao sucessor. Mas o ambiente no mundo
já se desanuvia.
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