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Música
O novo mapa do jazz
Uma grande transformação está
em curso
no jazz: entre os dez jovens jazzistas mais
importantes de hoje, só dois são americanos

Sérgio Martins
Antes de iniciar a leitura desta
matéria, preste atenção no mapa abaixo. Ele
mostra os principais talentos do jazz atual, segundo uma enquete
realizada por VEJA com uma dezena de especialistas músicos,
críticos e produtores brasileiros, europeus e americanos.
O que o mapa revela é uma grande transformação
nos rumos do jazz. Os Estados Unidos, onde o ritmo nasceu, têm
só dois representantes o pianista Brad Mehldau, tido
como um gênio em seu instrumento, e o trompetista Roy Hargrove,
cujos trabalhos trafegam nas searas do jazz tradicional e do funk.
Os outros são oriundos da Europa (o pianista sueco Esbjörn
Svensson, o gaitista suíço Grégoire Maret e
o trombonista italiano Gianluca Petrella), da África (o baixista
camaronês Richard Bona e o guitarrista beninense Lionel Loueke),
do Oriente Médio (o baixista israelense Avishai Cohen), da
Ásia (o pianista indiano Vijay Iyer) e da América
Latina (a cantora brasileira Luciana Souza). Eles não apenas
se destacam em meio a milhares de americanos que fazem jazz como
também representam o que existe de mais vivo no gênero.
Durante décadas, músicos
e jornalistas americanos trataram os jazzistas estrangeiros com
a condescendência com que os brasileiros assistem ao desfile
de uma escola de samba do Japão. Essa fase passou. Foi substituída
pelo sentimento de que os sopros de inovação no jazz
têm vindo de fora já que no cenário interno
eles são abafados por fatores culturais e de mercado. Um
dos entraves é a força quase hegemônica da escola
tradicionalista encabeçada pelo trompetista Wynton Marsalis.
Ele considera que o jazz autêntico foi produzido até
meados dos anos 60. Defende um regime espartano, calcado na repetição
de standards e na imitação das técnicas de
instrumentistas como Duke Ellington e Louis Armstrong. Outro elemento
que contribuiu para a decadência do jazz americano foi o fenômeno
dos cantores "ecléticos", que vendem milhões de cópias
ao dar um verniz jazzístico a canções pop.
São casos como os de Norah Jones (18 milhões de CDs
vendidos do álbum Come Away with Me, de 2002) e do
enjoativo canadense Michael Bublé.
O que os jazzistas internacionais
têm feito, em primeiro lugar, é ampliar o repertório
do gênero. Mas não é só isso que eles
propõem. Virtuoses em seus instrumentos, eles têm executado
aquela manobra essencial do jazz a improvisação
incorporando a ela elementos de suas próprias linhagens
musicais. Já em 1953, num dos ensaios mais cortantes jamais
escritos sobre o tema, o filósofo alemão Theodor Adorno
sentenciava que, "diante das enormes possibilidades de invenção
e de tratamento do material musical, o jazz apresenta-se em um estado
de completa indigência". Os novos jazzistas respondem a esse
veredicto rabugento. Não com aquela manjada fusão
do jazz com ritmos "étnicos" e regionais, mas com subversões
menos espetaculosas, e no entanto mais efetivas, da tradição
musical.
Um caso emblemático é
o do pianista Vijay Iyer. Ele nasceu em Nova York mas é descendente
de indianos. "Se você perguntasse minhas influências,
eu diria que são as obras do americano Thelonious Monk. Mas
os genes musicais da minha família estão em cada nota
que toco", diz. Outro exemplo é o da cantora paulista Luciana
Souza. Ela mal tinha iniciado sua carreira, nos anos 90, quando
foi contratada por um selo de jazz dos Estados Unidos. Mudou-se
para Nova York e equilibrou o trabalho de intérprete com
o de professora de canto da respeitada Berklee College of Music,
de Boston. A carreira de Luciana Souza é modesta em termos
de vendas, porém bastante respeitável. Críticos
como Ben Ratliff, do New York Times, são fãs
de seus vocais treinados e do repertório rico que
incorpora Hermeto Pascoal e Luiz Gonzaga. Por três vezes ela
concorreu ao Grammy de melhor disco de jazz. Não levou o
prêmio, mas ganhou visibilidade. Seu próximo álbum
terá produção de Larry Klein, que trabalhou
com a cantora e compositora canadense Joni Mitchell.
As companhias de disco americanas
têm se mantido atentas à movimentação
do jazz internacional. O camaronês Richard Bona saiu de um
pequeno selo francês para a Verve, gravadora que lançou
discos clássicos de John Coltrane e Billie Holiday. O próximo
trabalho do baixista israelense Avishai Cohen será um disco
ao vivo, gravado no lendário Blue Note, de Nova York. Enquanto
isso, o pianista americano Brad Mehldau procura emular não
o conservadorismo de Wynton Marsalis, mas o espírito de Dizzy
Gillespie e John Coltrane, que nos anos 50 fizeram experiências
com a música cubana ou indiana. O próximo disco dele
e de sua mulher, a cantora Fleurine, deverá ter músicas
do compositor paulistano Chico Pinheiro. "Um dos melhores trabalhos
que ouvi em anos", declara Mehldau.
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