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Internacional
Reprovado
Enfim, os americanos entenderam o que todo mundo sabia: o bushismo se esgotou.
O que a derrota eleitoral do Partido Republicano significa para a economia
mundial, para o Brasil e para uma armadilha chamada Iraque
 Diogo
Schelp Kevin
Lamarque/Reuters
 | A
SOLIDÃO DO PRESIDENTE Bush ao final da entrevista
coletiva em que anunciou novas diretrizes de governo após a derrota republicana
no Congresso: um presidente diminuído |
Os americanos entenderam, finalmente,
o que o resto do planeta sabia havia bastante tempo: George W. Bush está
errado. O massacre eleitoral do Partido Republicano, na semana passada, teve o
impacto de um Tomahawk junto à Casa Branca. O foguete trouxe a mensagem
de que os americanos querem mudanças de curso no governo, sobretudo na
condução da guerra no Iraque. Em uma reação instintiva,
o presidente demitiu o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, arquiteto
do fiasco iraquiano. Bush não é agora apenas um pato manco
como os americanos definem seus presidentes fracos sem direito a disputar outros
mandatos , mas também um pato depenado. Minoritário no Senado
e na Câmara dos Deputados, Bush agora vai governar de mãos dadas
com seus inimigos, os democratas. Não pode haver pior cenário para
alguém que parecia exercer um poder dinástico. Agora George W. Bush,
filho de George (ex-presidente dos Estados Unidos) e irmão de Jeb (governador
da Flórida), terá de aceitar a coabitação com a gentinha
que ele até a semana passada desprezava.
David
Hume Kennerly/Pool/AP
 | O
PAI DE TODOS OS FIASCOS Donald Rumsfeld, o arquiteto
da desastrada guerra no Iraque: demissão sumária para atender à vontade das urnas
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O sistema bipartidário
força os americanos a se dividir em dois campos opostos e não,
como ocorre no Brasil, entre meia dúzia de partidos principais. Há
momentos em que forças poderosas e figuras carismáticas mudam o
cenário e unem o país em torno de um propósito maior. Franklin
D. Roosevelt e seu governo de consenso são um bom exemplo. Bush não
chega aos calcanhares de Roosevelt em nenhum grau de grandeza. Mas usufruiu um
voto de confiança concedido por uma nação ultrajada por um
ataque covarde. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, a popularidade
do presidente, somada à subserviência da oposição democrata,
adquiriu os contornos de uma carta-branca. O que o presidente e seus companheiros
neoconservadores fizeram, como sintetizou o Wall Street Journal, foi desperdiçar
a chance de uma vida. O grupelho de lunáticos reunido em torno de Bush,
ao estilo de um politburo soviético, transformou o que deveria ser a cruzada
mundial contra o inimigo comum da civilização, o terrorismo, numa
inacreditável tentativa de virar de cabeça para baixo a geopolítica
no Oriente Médio.
Kevin
Lamarque/Reuters
 | ENTRE
INIMIGOS Bush recebe na Casa Branca a democrata
Nancy Pelosi, a nova presidente da Câmara: na campanha, ela disse que, pego
em mentiras, o "rei está nu" |
A guerra no Iraque, como escreve Roberto Pompeu de Toledo em sua coluna nesta
edição de VEJA, é uma criação tão própria,
assinalada de modo tão inconfundível pela grife do bushismo, com
suas inerentes características de prepotência e auto-engano, que
não dá para acreditar que outro presidente americano seguiria a
mesma linha. Bush atolou o país em uma aventura militar no Iraque, isolou
os Estados Unidos de seus aliados tradicionais e criou campos de concentração
que envergonham a tradição libertária americana. Não
fez nenhuma tentativa séria de encontrar fontes alternativas de energia
para diminuir a dependência em relação ao petróleo
e ajudar a enfrentar o aquecimento global ao contrário, opôs-se
ao Tratado de Kioto, para o controle de emissão de poluentes. Na economia,
de forma inesperada para republicanos, pôs-se a gastar com a discrição
de marinheiros bêbados. Nada disso é passado, é bom que se
diga. Bush ainda será presidente pelos próximos dois anos e o que
ele (e os democratas) fizer nesse período terá ainda enorme impacto
nos Estados Unidos, no Brasil e no mundo. Mas uma derrota completa, com claros
sinais de desaprovação da maioria, terá conseqüências.
A seguir, VEJA analisa os impactos
globais da derrocada do bushismo. Scott
Peterson/Getty Images
 | O
PREÇO DA GUERRA Soldados americanos carregam
ferido em combate perto de Falluja, no Iraque: tentativa de Bush de reorganizar
a geopolítica do Oriente Médio acaba em atoleiro |
IRAQUE
O DESAFIO É SAIR SEM DEIXAR SÓ CAOS PARA TRÁS
Os americanos foram claros nas urnas: querem mudanças na condução
da guerra. Mas quais mudanças? Não há consenso a respeito
disso nem entre os democratas. Uma retirada precipitada das tropas poderia acabar
com o Iraque convertido numa colônia do Irã e num santuário
para terroristas. Apesar da derrota eleitoral, Bush dificilmente aceitará
uma solução desse tipo. Ex-diretor da CIA, Robert Gates, o novo
secretário de Defesa, é mais pragmático e menos ideológico
que Donald Rumsfeld. Mas tem poucas opções: 1) retirada imediata;
2) envio de mais tropas para tentar conter o caos; 3) estabelecer um cronograma
de retirada gradual. "O mais provável é uma saída gradativa
das tropas, depois de criada uma federação que divida o território
iraquiano e a receita do petróleo entre xiitas, sunitas e curdos", disse
a VEJA o sociólogo americano Larry Diamond, que foi assessor do governo
provisório em Bagdá no início de 2004.
BRASIL
O RETORNO DE UM VELHO FANTASMA, O PROTECIONISMO DOS DEMOCRATAS
Àprimeira vista, a vitória democrata pode dificultar
as negociações que envolvem a importação de produtos
brasileiros. "Os brasileiros tendem a simpatizar com os democratas, mas a verdade
é que tradicionalmente eles defendem mais barreiras às importações
do que os republicanos", diz Rubens Barbosa, ex-embaixador em Washington e Londres.
O novo Congresso é realmente mais protecionista. Muitos deputados defendem
os interesses dos produtores de laranja da Flórida e dos sindicatos em
geral. "Por outro lado, existe uma ótima química entre o presidente
Bush e Lula", acredita o embaixador José Botafogo Gonçalves, presidente
do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, no Rio de Janeiro.
"É difícil dizer como eles podem se comportar para beneficiar a
si próprios depois da vitória democrata, mas isso deve acontecer."
Os democratas também gostam de Lula. Nos Estados Unidos, o Brasil é
visto como uma força moderadora na América Latina. Ao lado da Argentina,
do Chile e do Peru, funciona como contraponto ao discurso antiamericano de Hugo
Chávez. Há algumas questões urgentes, como a votação
do Sistema Geral de Preferências (SGP). Trata-se da isenção
de tarifas de importação para uma lista específica de produtos
de países em desenvolvimento. O programa expira em 31 de dezembro e os
132 países favorecidos entre eles o Brasil torcem para que
os republicanos votem pela prorrogação antes da posse da maioria.
Os democratas, é quase certo, vão criar problemas na hora de votar.
Quanto à Alca, esqueça, o assunto está praticamente morto.
PROLIFERAÇÃO
NUCLEAR OS AIATOLÁS ATÔMICOS E O LOUCO NORTE-COREANO
CONTINUAM NA MIRA Em termos de
política externa, as eleições giraram em torno do Iraque
e do comércio internacional. O risco de o Irã e a Coréia
do Norte, dois Estados de maus bofes, possuírem armas nucleares preocupa
por igual republicanos e democratas. Os políticos americanos costumam ser
firmes em assuntos que consideram de interesse nacional e o eleitorado
igualmente nada tem de pacifista ou ambíguo diante de uma ameaça
direta. Bush tem a opção de manter a estratégia de pressionar
os aiatolás a desistir das ambições atômicas sob o
risco de sofrer sanções, ou de partir para a solução
militar, bombardeando os reatores do país. A segunda hipótese é
improvável, visto que não poderia se dar ao luxo de outro atoleiro
simultâneo ao do Iraque. "A política de pressão diplomática
tem a aprovação dos democratas, que gostam da forma multilateral
como a questão iraniana vem sendo tratada", diz a cientista política
americana Tamara Wittes, do Instituto Brookings, em Washington. Bush deve continuar
nessa linha, que conta também com o apoio da Europa, da China e da Rússia.
Oswaldo
Rivas/Reuters
 | CONTINENTE
PERDIDO Vitória de Ortega, um afilhado de Chávez,
na Nicarágua, na semana passada: Washington deu as costas à América Latina |
AMÉRICA
LATINA MAIS SIMPATIA. MAS O INTERESSE SERÁ O DE SEMPRE:
NENHUM Um tema de convergência
entre Bush e democratas é a necessidade de regularizar a situação
dos 12 milhões de imigrantes ilegais, na maioria latino-americanos. O presidente
não conseguiu avançar nesse assunto por oposição de
seu próprio partido, que prefere erguer muros nas fronteiras e realizar
expulsões sumárias. A questão é importante nas relações
com vários países, como o México. Mas nada tem a ver com
a questão básica: a negligência nas relações
com os vizinhos do sul. Isso se deve, em parte, ao foco excessivo da política
externa americana no Oriente Médio. O abandono deu espaço para a
expansão populista, com Hugo Chávez à frente da turma. Na
única eleição em que os Estados Unidos tomaram partido, na
Nicarágua, na semana passada, venceu um velho inimigo, o sandinista Daniel
Ortega, financiado por Chávez.
EUROPA ELA VENCEU JUNTO COM OS DEMOCRATAS
Muitos aliados tradicionais, afastados
pela arrogância e pelo unilateralismo de Bush, estão festejando os
resultados das eleições e esperam pelo retorno da sanidade nas relações
diplomáticas. "A atitude mais conciliadora, que já vinha sendo adotada
desde a reeleição de Bush, em 2004, deverá se aprofundar
nos últimos dois anos de mandato", diz a americana Kimberly Morgan, professora
de assuntos internacionais da Universidade George Washington, em Washington. O
reforço no esforço diplomático americano é urgente
porque muitos chefes de governo europeus, como o inglês Tony Blair, estão
sendo substituídos. Em geral, os novos são ainda mais reticentes
à política de George W. Bush. Mohammed
Salem/Reuters
 | ESQUECIDOS
POR BUSH Palestinos exibem criança morta em bombardeio
israelense, na semana passada: Bush foi à guerra no Iraque, mas ignorou o conflito
entre árabes e israelenses |
PALESTINA SAI O BUSH FALCÃO. FAZER
A PAZ SERIA SEU LEGADO HISTÓRICO
Engajar-se em uma solução para o conflito árabe-israelense
seria uma boa opção para Bush amenizar o fiasco de sua política
externa, marcada pela derrota no Iraque, pelo aumento do terrorismo global e pelas
ambições nucleares irrefreáveis de Irã e Coréia
do Norte. A história mostra que negociar a paz no Oriente Médio
é uma tarefa que demanda tempo e intenso esforço da diplomacia americana
talvez não reste a Bush tempo para tanto. Nos últimos seis
anos, o presidente deixou claro que a encrenca israelo-palestina não estava
entre suas prioridades. Preferiu assistir de longe ao aumento das tensões
e dar apoio diplomático a Israel, país que vê como um aliado
na guerra contra o terror, sempre que necessário. "Nos próximos
anos, a política externa americana deve continuar concentrada no Iraque,
porque os democratas tampouco têm um projeto definido para a questão
palestina", acredita a inglesa Rosemary Hollis, especialista em relações
internacionais da Chatham House, em Londres.
ECONOMIA MUNDIAL ESQUEÇA AS BRAVATAS
DOS DEPUTADOS. NINGUÉM FREIA O COLOSSO AMERICANO
Aeconomia americana é um colosso em moto-contínuo: ela se movimenta
por inércia. Não são as decisões isoladas de um governante
ou de algumas centenas de parlamentares que vão mudar de maneira radical
o seu rumo. O que move os Estados Unidos é a força da globalização,
com todo o seu intrincado mecanismo de causas e conseqüências. Os democratas
podem aprovar uma lei para aumentar o salário mínimo, mas a verdadeira
pressão para reduzir o valor do trabalho de um operário americano
com baixa qualificação é feita pela competição
com os produtos fabricados com a mão-de-obra barata da China, da Índia
e de outros países emergentes. Uma prova de que os políticos em
Washington já não são a maior força da economia do
país é que o valor das importações americanas está
quase alcançando o total anual da arrecadação do governo
com impostos. A mão invisível do mercado, como dizia Adam Smith,
é mais poderosa que a do presidente Bush ou dos congressistas basta
não ficar muito no caminho. Nem sempre foi assim. Até poucas décadas
atrás, podia-se manipular o crescimento econômico simplesmente com
a decisão do banco central americano de elevar ou baixar taxas de juro.
Hoje, bem mais relevante é como estão o desempenho econômico
e o fluxo de mercadorias e investimentos entre os principais parceiros comerciais
com a Ásia ou a Europa, por exemplo. Essa maior interdependência
da economia mundial serve para os dois sentidos: se os Estados Unidos vão
bem, o resto do mundo também vai, e vice-versa.
GUERRA AO TERROR
OS TERRORISTAS NÃO DEVEM ACHAR QUE ESTÃO GANHANDO
O maior risco no momento é os terroristas pensarem que estão ganhando
e que os Estados Unidos irão fraquejar. Não é nada disso.
O cerne da política externa de Bush continuará a ser a guerra ao
terror. Ele acredita que os atentados de 11 de setembro marcam o surgimento de
um novo mundo e que os terroristas preparam novos ataques aos Estados Unidos (no
que tem razão). O que esteve em julgamento nas eleições não
foi a guerra ao terror que os americanos apóiam , mas o conflito
no Iraque, que tirou as tropas do foco, que deveria ser a caçada a Bin
Laden e sua gente. Diz o cientista político americano David King, professor
da Universidade Harvard: "Nada deve mudar, porque os democratas, de olho nas eleições
presidenciais de 2008, não querem ser vistos como um partido que fraqueja
na luta contra o terrorismo". Com
reportagem de Denise Dweck, Duda Teixeira,
Thomaz Favaro e Gabriela Carelli |