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Entrevista: Raymond Kurzweil
Seremos todos cyborgs
O cientista americano prevê que,
no futuro, homens e máquinas se
fundirão, expandindo nossa inteligência

Bel Moherdaui
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"Por volta de 2030, um computador
comum será mil vezes mais poderoso que o cérebro
humano"
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Divulgação
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Raymond Kurzweil acredita que estará
vivo para presenciar o "momento metamórfico", quando computadores
superarão a inteligência humana. É verdade que,
aos 58 anos, talvez tenha de viver outro meio século ou mais
mas já está cuidando disso, com seu próprio
método de longevidade. Nesse futuro não muito distante,
robôs microscópicos percorrerão as veias humanas
até chegar ao cérebro. Ali, serão capazes de
ligar e desligar os cinco sentidos, conectar-se à internet
e fazer download de novas habilidades. O mais incrível é
que as previsões desse cientista e inventor americano, gênio
profissional desde a infância, estão sendo ou possivelmente
ainda serão confirmadas pelos fatos. Como uma espécie
de Professor Pardal moderno, Kurzweil dedica mais da metade do seu
tempo a prever o futuro da tecnologia e a criar máquinas
a partir desses avanços. Na semana passada, fez uma apresentação
em São Paulo diretamente de Dallas, no Texas: a "pessoa"
que discorreu sobre tecnologia do futuro e conversou com a platéia
era sua imagem virtual projetada no palco com grande realismo. Aqui
ele fala sobre esse e outros prodígios.
Veja Como foi
sua apresentação virtual no Brasil?
Kurzweil Eu apareci para a platéia em
tamanho natural e em três dimensões. É uma imagem
muito realista. Em outras apresentações que fiz com
essa tecnologia, as pessoas pensaram que eu estava presente de verdade.
Um espectador até veio ao palco me entregar um papel.
Veja Alguma
semelhança com o pedido de socorro da Princesa Leia no primeiro
Guerra nas Estrelas?
Kurzweil É outra tecnologia. A aparição
dela, uma holografia, era um pouco embaçada, parecia ter
baixa resolução. A minha tem alta resolução.
Veja O senhor
apostou 10.000 dólares que até 2029 um computador
será capaz de responder a uma série de perguntas como
se fosse humano. Como isso será possível?
Kurzweil Os computadores vão atingir inteligência
equivalente à humana, tanto no campo do hardware (a máquina)
quanto no do software (o programa). A máquina precisa ter
capacidade de cálculo e memória suficientes para simular
todas as diferentes áreas do cérebro, e acredito que
isso será alcançado por um supercomputador até
2010 e por um computador pessoal comum até 2020. Já
na parte do software, o caminho é a engenharia reversa, método
que consiste em desmontar um equipamento para ver como ele funciona,
aplicada ao cérebro humano. Os conhecimentos nessa área
têm evoluído exponencialmente. A quantidade de informações
que possuímos sobre o cérebro humano dobra a cada
ano, e acho que vamos terminar de modelar e simular todas as suas
áreas, inclusive aquela na qual processamos o pensamento
abstrato, em cerca de vinte anos. Até 2029, teremos tudo
pronto.
Veja O senhor
já mudou de idéia a respeito de alguma de suas muitas
previsões?
Kurzweil Até agora, não. No meu primeiro
livro, The Age of Intelligent Machines, escrito há
vinte anos, previ o surgimento de uma rede de comunicação
internacional em meados dos anos 90. Previ que um computador venceria
um campeonato de xadrez em 1998 (aconteceu em 1997). Previ que em
2013 um supercomputador conseguiria fazer os cálculos necessários
para um computador alcançar a inteligência humana e,
logo depois que publiquei o livro, o Japão anunciou o projeto
de um supercomputador que atingiria essa marca em 2010. Minhas projeções
na verdade são bem conservadoras. Eu me esforço para
fazê-las assim, embora as pessoas as considerem exageradamente
otimistas.
Veja Como
o senhor faz suas projeções?
Kurzweil Eu percebi, há trinta anos, que a
chave para o sucesso de projetos tecnológicos é o
timing. Muitas invenções fracassaram não porque
não funcionavam, mas porque não dispunham de todos
os fatores necessários para dar certo. Passei a estudar tendências,
acumulei dados sobre a evolução da tecnologia e desenvolvi
modelos que funcionam bem. É verdade que não se pode
prever o futuro, mas a forma como conteúdos e processos de
tecnologia se desenvolvem é bem previsível. Veja o
seqüenciamento genético: a quantidade de informação
genética dobra todo ano. Não é um cálculo
aproximado. É exatamente isso.
Veja Por
que a tecnologia evolui dessa forma?
Kurzweil Basicamente porque ela desenvolve certa capacidade
e usa essa capacidade para chegar ao degrau seguinte. Os primeiros
computadores levaram anos para ser criados porque foram feitos a
partir de papel, caneta, fios e chave de fenda. Agora utilizamos
computadores para criar as próximas gerações
em questão de horas. Estamos sempre empregando a última
tecnologia para desenvolver a próxima, e ela vai ficando
mais e mais poderosa.
Veja O
senhor afirma que chegará o momento em que as máquinas
vão superar a inteligência humana. Como será
isso?
Kurzweil Com a engenharia reversa, seremos capazes
de reproduzir todas as áreas do cérebro humano. Vamos
entender como funciona a inteligência humana e utilizar esses
métodos em computadores. Aí, combinando as formas
em que a inteligência humana é superior com as formas
em que as máquinas são superiores, teremos um poder
muito grande: as habilidades da máquina, como velocidade
e memória, combinadas com o reconhecimento de padrões
da inteligência humana. Por volta de 2030, um computador comum
será mil vezes mais poderoso que o cérebro humano.
Veja Alguns
pesquisadores temem o que pode acontecer com a humanidade quando
os computadores se tornarem inteligentes demais. O senhor tem algum
receio?
Kurzweil Nenhum. As máquinas inteligentes
serão parte da nossa civilização. Vamos ficar
cada vez mais próximos delas. Vamos carregá-las no
bolso, elas estarão na nossa roupa até no nosso
corpo, expandindo a nossa própria inteligência.
Veja Dentro
do corpo?
Kurzweil Falo dos nanobots, robôs do tamanho
das células do sangue. Já estão sendo testados
com sucesso em animais e devem estar bem sofisticados em 2020. Os
nanobots chegarão ao cérebro pelas veias e poderão
interagir com nossos neurônios biológicos, tornando-nos
mais inteligentes, melhorando nosso bem-estar físico e aumentando
a longevidade.
Veja O
senhor acha que poderá testemunhar essas extraordinárias
mudanças?
Kurzweil Estou me preparando para isso. No livro A
Medicina da Imortalidade, que assino com Terry Grossman, falamos
das três pontes que levarão à extensão
da vida. A primeira é a que pessoas como eu já estão
trilhando, fazendo uso do conhecimento existente para se manter
em boa forma, envelhecendo o menos possível. Só assim
poderemos cruzar a segunda ponte, que será a reprogramação
da biologia, resultado da revolução da biotecnologia.
Descobrimos recentemente que podemos ligar ou desligar genes, adicionar
novos, ligar enzimas e reprogramar a biologia, de modo a evitar
doenças e envelhecimento. Isso também está
avançando exponencialmente. Em dez ou quinze anos vamos ter
as ferramentas para superar o processo de envelhecimento e de muitas
doenças. Eu mesmo envelheci bem pouco nos últimos
dezoito anos. Quando tinha 40, minha idade biológica era
38. Agora tenho 58 e minha idade biológica é 40 anos.
Portanto, envelheci dois anos em dezoito. Em 25 anos, espero continuar
com idade biológica de 40. E até lá teremos
ferramentas ainda mais poderosas.
Veja E
qual seria a terceira ponte?
Kurzweil Os nanobots, que serão colocados no
corpo e nos manterão saudáveis de dentro para fora.
Parece ficção científica, mas muito disso já
está sendo desenvolvido e demonstrado em animais. Um cientista
já curou o diabetes tipo 1 em ratos com microrrobôs
que controlaram a produção de insulina internamente.
Outro, do MIT, fez uma conexão entre os nanobots e células
cancerígenas e conseguiu destruí-las. Levando-se em
consideração a impressionante evolução
dessa tecnologia, o cenário que prevejo é bastante
realista. As pessoas da minha idade poderão realmente continuar
vivas e saudáveis por muito mais tempo.
Veja O
que o senhor faz para cuidar da sua saúde?
Kurzweil Eu tomo suplementos e sigo uma dieta especial.
Para cada aspecto do envelhecimento do cérebro, do
olho, da pele, do sistema digestivo , sigo um programa baseado
em suplementos e aspectos nutricionais. Também monitoro a
saúde, vigiando cerca de cinqüenta fatores do sangue.
Acho que vou indo muito bem.
Veja Programas
de inteligência artificial já são usados na
leitura de eletrocardiogramas, para decolar e aterrissar aviões,
para guiar armas inteligentes e até para tomar decisões
sobre investimentos. O que mais farão no futuro próximo?
Kurzweil Vamos ver a inteligência artificial
lidar com a linguagem humana com muito mais habilidade. As ferramentas
de busca, em vez de procurarem uma palavra isolada, sem entender
o que significa, vão compreender o que lêem e poderão
buscar conceitos. Vamos interagir com agentes virtuais, na web,
no telefone, em linguagem natural. As traduções automáticas
serão muito mais aperfeiçoadas. Minha empresa acaba
de introduzir no mercado um equipamento portátil para cegos,
que lê qualquer material impresso: outdoor, instruções
numa caixa, a tela do monitor no caixa automático, cardápio.
Em alguns anos vamos acrescentar a capacidade de descrever objetos
e ambientes.
Veja Computadores
e telefones celulares mudaram a vida da humanidade nos últimos
dez anos. No futuro próximo, alguma outra tecnologia terá
impacto semelhante?
Kurzweil Nós dois agora estamos em um espaço
de realidade virtual que incorpora um sentido, a audição,
pelo telefone. Nas próximas décadas, teremos imagens
projetadas diretamente na retina, através de óculos,
e poderemos criar ambientes completos de realidade virtual. Ou seja,
com a mesma facilidade com que você fez esta ligação,
nós poderemos estar sentados frente a frente no Taj Mahal,
numa praia do Mediterrâneo ou aí no seu trabalho, em
um ambiente totalmente criado. No futuro, teremos também
a realidade virtual sobreposta à realidade real, como uma
espécie de pop-up em uma camada acima da realidade real,
capaz de lembrar a pessoa de um nome, um aniversário, o que
for.
Veja A
essa altura, ninguém mais vai poder se isolar em uma praia
sem telefone, sem televisão, sem computador, desconectado
do mundo?
Kurzweil Isso será possível, sim. Mas,
com a realidade virtual ligada ao sistema nervoso, com nanobots
substituindo os sinais enviados pelos sentidos reais por sinais
de um ambiente virtual, a pessoa poderá ir para alguma praia
imaginária, que talvez seja muito melhor do que as praias
de verdade.
Veja Vamos chegar
ao ponto em que computadores farão tudo sozinhos, sem interferência
dos humanos?
Kurzweil No meu modo de ver, o homem vai se fundir
com a tecnologia. Teremos seres humanos com milhões de computadores
no cérebro, híbridos de inteligência biológica
e não-biológica. Esse tipo de cyborg ainda
se considerará humano. Eu também o considerarei humano.
Alguns já existem. Uma pessoa que tem a doença de
Parkinson pode implantar neurônios artificiais para substituir
aqueles que foram destruídos. No futuro, porém, isso
acontecerá de forma não invasiva. Não vamos
poder entrar numa sala e separar, de um lado, computadores e, de
outro, seres humanos. Será tudo misturado.
Veja O senhor
gosta de filmes de ficção científica?
Kurzweil Não muito. Fico irritado com o fato
de explorarem uma mudança e o resto continuar igual. Em Inteligência
Artificial, por exemplo, tirando os cyborgs semelhantes
aos humanos, nada mais mudava: a cafeteira era igual, os carros
eram iguais, não existia realidade virtual. É ridículo.
A maioria dos filmes sobre o futuro faz isso. Eles ainda tendem
a mostrar a tecnologia como uma coisa ruim, que causa destruição.
Eu não concordo, embora também não tenha uma
visão utópica. Acho que continuaremos a ter conflitos
humanos e a tecnologia será usada para o bem e para o mal.
Mas é inegável que ela mais ajuda do que prejudica.
Veja Como nasceu
Ramona, seu alter ego virtual?
Kurzweil Em uma conferência de tecnologia, entretenimento
e design, em 2001. Coloquei sensores magnéticos na minha
roupa, de forma que os computadores captassem todos os meus movimentos
e, em tempo real, formassem uma imagem bastante realista de uma
jovem, Ramona, roqueira de 25 anos de Nova Orleans. Ela basicamente
se movimentava como eu me movimentava. Minha voz foi transformada
na voz dela, usando outra tecnologia. A platéia me via e
também via Ramona, como se fosse ela que estivesse fazendo
a apresentação. Foi muito intrigante.
Veja Como era
se ver no corpo de outra, digamos, pessoa?
Kurzweil Conforme eu me olhava no monitor, era como
olhar no espelho, só que, em vez de ver a imagem de sempre,
eu via outra pessoa. Entrei mesmo no personagem e percebi que o
corpo que eu tenho é apenas uma forma de eu me expressar.
No futuro, teremos experiências como essa rotineiramente,
e de maneira muito mais realista.
Veja E
qual foi seu objetivo ao criar Ramona?
Kurzweil Mostrar que, em ambientes de realidade
virtual, podemos ser outra pessoa. Acompanhe meu raciocínio.
No fim da década de 2020, os nanobots instalados no cérebro
poderão desligar os sinais emitidos pelos sentidos reais
e substituí-los pelos sinais equivalentes vindos de um ambiente
virtual. Aí teremos a realidade virtual diretamente no sistema
nervoso e nos sentiremos realmente dentro do ambiente virtual, incorporando
todos os cinco sentidos. Aliás, o design de ambientes virtuais
será uma nova forma de arte. E a pessoa vai poder escolher
não só o ambiente como também seu corpo virtual.
Quando mexer a mão na frente do rosto, mexerá a mão
virtual, não a real. Uma professora poderá pedir ao
aluno que seja um personagem histórico, e não apenas
que se vista como um. Poderemos explorar várias facetas da
nossa personalidade.
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