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André
Petry
Coisa de gringos
"Para quem acha que eleição
não é lugar
para discutir sexo ou
ciência, convém dar
uma olhada na eleição nos
Estados Unidos"
O diabo é que estamos sempre
deixando passar o bonde da história. Agora mesmo, o Brasil
acaba de encerrar uma eleição em que votaram 100 milhões
de eleitores e não se deu mais do que um pio sobre temas
como o casamento homossexual, o direito ao aborto ou as pesquisas
de células-tronco. Para quem acha que eleição
não é lugar para discutir sexo ou ciência, convém
dar uma olhada na eleição nos Estados Unidos.
No pleito em que aplicaram uma
saborosa derrota ao bushismo, os eleitores de alguns estados também
votaram em plebiscitos versando sobre casamento gay, aborto, pesquisa
científica e surgiram resultados sugerindo que o fundamentalismo
religioso pode estar começando a sofrer fissuras.
Em oito estados, os eleitores
foram convidados a definir se o casamento é uma união
apenas entre um homem e uma mulher ou se também pode ser
a união entre pessoas do mesmo sexo. A questão é
recorrente em plebiscitos regionais no país mas, desta
vez, conseguiu seu primeiro triunfo num estado: os eleitores do
Arizona disseram que, para eles, casamento é a união
entre duas pessoas, não importa o sexo. Ponto para o Arizona.
"É o começo da virada", festejou Matt Foreman, diretor
de um grupo de defesa de gays e lésbicas.
Em Dakota do Sul, os eleitores
votaram sobre uma lei que restringia o direito ao aborto apenas
a casos em que há ameaça à vida da gestante.
Não abria exceção nem para os casos de gravidez
resultante de estupro ou incesto! Houve campanha de verdade, com
comerciais na televisão, com pastores fazendo sermões
dominicais, com placas espetadas nos gramados residenciais. E campanha
civilizada, na qual os conservadores não recorreram à
apelação demagógica de exibir fetos sangrando
ao som de guinchos suínos... Os eleitores de Dakota do Sul
fizeram o certo: mantiveram a lei atual, que garante o amplo direito
ao aborto.
No Missouri, o plebiscito era
sobre uma lei favorável à ampliação
das pesquisas de células-tronco. Também houve campanha
acirrada, virou o assunto principal na disputa entre os que concorriam
à cadeira de senador pelo estado. Os defensores da ciência
exibiram um comercial de televisão que emocionou o eleitorado.
Nele, o ator Michael J. Fox, há quinze anos vítima
da doença de Parkinson, defende a ampliação
das pesquisas dizendo que a ciência livre pode mexer com a
vida de milhões de americanos. "Americanos como eu", diz
o ator, enquanto seu corpo oscila para a frente e para os lados
como se estivesse navegando num mar turbulento. O Missouri votou
a favor das pesquisas de células-tronco. A luz venceu as
trevas.
No Brasil, os casais de gays
não existem oficialmente e precisam recorrer à Justiça
em busca de direitos elementares. As pesquisas de células-tronco
embrionárias são limitadas ao estoque atual de óvulos
descartados das clínicas de fertilização, enquanto
a proibição ao aborto ceifa a dignidade das mulheres
das pobres, é claro. Que, quando enfrentam problemas
decorrentes de um aborto malfeito e procuram ajuda num hospital,
ainda são denunciadas pelos médicos à polícia,
em um instantâneo do nosso tribalismo recôndito.
Mas no Brasil, ao que parece,
nada disso precisa ser discutido em uma eleição. Tudo
o que temos a fazer é deixar o homem trabalhar... Quanta
pobreza!
Esta cena vai se repetir?
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