Claudio
de Moura Castro
O fim do
vestibular?
"As
sociedades modernas premiam
cada vez mais
a qualidade da educação recebida,
aumentando a
competição para uma vaga no curso superior
e
requerendo maior esforço dos alunos que
disputam
vagas nas melhores escolas"
Ilustração Ale Setti
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Para começar a entender o vestibular, precisamos liquidar
o mito de que é possível acabar com ele. E, também,
entender que, quanto mais avançado o país, mais
furiosamente competitivo é o acesso às boas escolas,
pois passam a ser mais decisivas no futuro do candidato. Na passagem
do 2º para o 3º grau há um estreitamento (mesmo
nos países mais ricos). Ora, se há mais candidatos
do que vagas, como decidir? Duelos ou sorteios? Melhor escolher
os alunos mais bem preparados. Portanto, não há
como evitar algum critério meritocrático.
No Japão e na Coréia há uma horrenda concorrência
para entrar nas melhores escolas. Todos fazem cursinhos, desde
o jardim-de-infância. Na Coréia, os pais gastam tanto
nos cursinhos quanto o Estado em educação pública.
E estudantes se suicidam quando os resultados desapontam. Nos
Estados Unidos, em cada Estado há instituições
públicas obrigadas a aceitar qualquer aluno. Todavia, no
topo da pirâmide, nas supostamente melhores, a competição
é feroz e, de longe, mais árdua que no Brasil. Portanto,
mais vagas não resultam na eliminação da
concorrência. Mesmo no Brasil, existem muitos cursos com
mais vagas que candidatos.
Qual o critério mais justo e menos traumático? O
Brasil está à frente da maioria das nações,
pois, em um país de cartórios e afilhados, no ensino
superior não se entra por jeitinho, amizades ou suborno.
Na França e na Argentina há outro sistema: entram
todos os que têm diploma de 2º grau. Mas no primeiro
ano a metade é podada. Não é um método
melhor.
O vestibular é acusado de ser um momento único,
um tudo ou nada. Uma dor de barriga ou de cotovelo poria a perder
um ano de esforço. Exames "a prestações"
estão sendo tentados, com aparente sucesso. Mas é
preciso estar em uma escola participante para ir fazendo as provas.
Como solução única, peca pela falta de eqüidade,
pois prejudica os alunos de outros estabelecimentos. Usar as notas
do 2º grau não funciona, pois as escolas menos exigentes
são as que dão melhores notas.
Diferentemente do que se pensa, há ampla evidência
científica de que a sorte joga um papel modesto, mesmo
em uma prova única como o vestibular. O bem aprendido nos
muitos anos anteriores é o que determina as chances de
êxito. O defeito da prova única é menos introduzir
a sorte do que iludir os que julgam ser possível estudar
na última hora.
O vestibular convencional exerce duas funções: descobre
quem sabe mais e distribui os alunos pelas instituições
e carreiras, de acordo com as notas. A primeira função
é boa e indispensável. A segunda, mandona e dispensável.
Com o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), recém-criado
pelo MEC, mede-se o que sabe o aluno e cada instituição
usa esse resultado como quer, combinando-o com que outras provas
desejar. Fica-se com os benefícios de uma prova bem-feita
e eliminam-se os mecanismos centralizados de determinar quem vai
para onde.
O custo do Enem é compartilhado por muitos milhares de
candidatos. Isso permite fazer uma prova cara e cujo desenho busca
captar conhecimentos de ordem superior. Mudam-se as regras do
jogo. Já não é mais a decoreba, em que se
premia a memorização de fatos mais do que o aprender
a pensar como tendem a ser os vestibulares das nossas melhores
universidades. Nesse sentido, dá claras vantagens aos alunos
das escolas que ensinam melhor. Mas há um dilema aqui.
Ao medir os domínios mais nobres do conhecimento, pelo
menos inicialmente, pode dar ainda mais vantagens aos alunos das
escolas elitizadas. Contudo, a alternativa de manter uma prova
burra não parece convincente.
No fundo, o grande tema é um só: as sociedades modernas
premiam cada vez mais a qualidade da educação recebida,
tornando mais competitiva a entrada no curso superior e requerendo
mais esforço dos alunos que disputam vagas nas melhores
escolas. O resto é mecânica e detalhe, nada irrelevantes,
mas que apenas dão as regras de trânsito no momento
em que há mais candidatos que vagas.
Claudio
de Moura Castro é economista
(claudiomc@attglobal.net)