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Roberto
Pompeu de Toledo
A dureza da
morte
sem narração
Onde
se tenta uma explicação
para
os bilhetes desesperados dos homens
do submarino russo
O
livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de
Machado de Assis, desenvolve-se, como o leitor sabe, e se não
sabe ficará sabendo agora, de trás para a frente.
Quer dizer, o narrador, que como o título indica já
está morto, num prodígio que os ficcionistas, como
sócios dos bruxos, têm plena licença para perpetrar,
começa a contar a história de sua vida não
pelo começo, mas pelo fim e conta a morte, e o enterro,
e quem foi ao enterro. Conta até, numa das páginas
mais célebres da literatura brasileira, o delírio
que teve antes de morrer. No dorso de um hipopótamo, em desatinada
correria, ele foi conduzido até um lugar frio, branco e vazio,
onde se dá a origem dos séculos. Ali lhe foi dado
assistir ao desfile da história humana, com "todas as paixões,
o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios",
os "flagelos e as delícias". Assim segue o delírio
até que o hipopótamo começa a diminuir de tamanho,
e diminuir, e acaba por virar um gato. Brás Cubas vê-se
de volta à lucidez e ao quarto de doente. Ali, num canto,
brinca com uma bola de papel seu gato "Sultão".
O
gato, a origem dos séculos e a correria do hipopótamo
nos conduzem ao Kursk, o submarino russo em cujo interior
morreram todos os 118 tripulantes. Na semana passada o vice-primeiro-ministro
da Rússia, Ilia Klebanov, informou que um segundo bilhete
foi encontrado no bolso de um dos mortos. "Estamos todos nos sentindo
mal, intoxicados de monóxido de carbono", dizia. "Não
agüentaremos mais de 24 horas." Antes havia sido divulgado
um bilhete do capitão Kolesnikov à mulher, pelo qual
se ficou sabendo que nem todos os tripulantes morreram na hora em
que houve uma explosão no submarino. Vinte e três,
trancafiados num compartimento isolado, sobreviveram por mais algumas
horas. Kolesnikov, assim como o autor do segundo bilhete, aproveitaram
esse momento de sobrevida, ainda que terrível, ainda que
sem esperança, para escrever suas mensagens.
Este
é o ponto que, na trilha de um artigo do jornalista americano
Roger Rosenblatt, na revista Time (edição de
6 de novembro de 2000), se quer abordar aqui. Rosenblatt fixou sua
atenção no fato de, numa hora dessas, e numa situação
dessas, ainda se pensar em escrever bilhetes. Que moveria alguém
a proceder desse modo? Escrever mensagens uns aos outros, avança,
a título de resposta, é o que os seres humanos sempre
fizeram. "Somos de uma espécie narradora", afirma. "Existimos
por força de contar histórias, de relatar nossa situação."
Isso explica uma parte da questão. Prestar testemunho de
seu tempo e condição, seja na forma de altas criações
artísticas, seja na de singelos bilhetes, é um imperativo
do ser humano. Mas, no caso da narrativa in extremis, como
a dos dois tripulantes do Kursk, talvez se esteja diante
de um fenômeno mais específico, que responde a mecanismos
próprios.
Tal
comportamento não é incomum. Na crônica das
guerras, multiplicam-se os casos de soldados que, na iminência
do definitivo ataque inimigo, escrevem cartas aos familiares. Na
história dos desastres de aviação, conhecem-se
casos de passageiros que, entre a pane e a queda, rabiscam mensagens
aos parentes. Com isso, como que cumprem uma obrigação.
O problema é que se vêem em face não só
da morte, mas de um tipo especial de morte aquela em que não
sobra ninguém para contar a história. Então
assumem eles mesmos a tarefa. Além da angústia da
morte, aflige-os imaginar que os outros não saberão
como ocorreu. Vale dizer que os aflige a perspectiva de uma morte
sem narração. E à morte em que falta a narração
falta algo fundamental. É quase tão desesperante quanto
aquela em que falta o corpo para sepultar, como é o caso
de tantos que morrem no mar, ou perdidos na selva.
Com
isso voltamos a Brás Cubas. Ao narrar a própria morte
chegando à minúcia de incluir o delírio que
a precedeu, ele preenchia, no caso até com sobras, uma básica
exigência humana. "Como foi?" "Morreu como?" Estas são
perguntas inevitáveis, ao se ter notícia de uma morte.
É preciso saber, é uma informação que
se precisa ter, para melhor amortecer o choque, e acomodar a mente
à situação de uma ausência irremediável
dali para a frente. O desejo de poupar os outros de semelhante lacuna
originaria o impulso de escrever bilhetes, na hora extrema, e com
isso chegamos a uma conclusão, para o caso do Kursk.
Mas, já que fomos de Brás Cubas ao submarino russo,
aproveitemos a carona, no dorso do hipopótamo, para esticar
viagem até os porões do DOI-Codi, o organismo onde
se torturava e matava, na ditadura militar. Ao negacear as informações,
esconder os cadáveres ou relegar as vítimas às
colunas dos desaparecidos, não apenas se praticava a infâmia
de não dar um corpo às famílias e de impedir-lhes
que realizassem o sepultamento. Também se acrescentava o
requinte de crueldade que era roubar-lhes a narração
da morte. Como foi? Morreu como? Essas perguntas, ressoando sem
resposta, acrescentam um enigma suplementar ao enigma inelutável
que já é a morte, ela mesma.
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