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Depois do Nobel

Saramago lança A Caverna, em que
o estilo
supera o esquematismo
ideológico. Como sempre

Flávio Moura

Desde que ganhou o Nobel de Literatura, em 1998, o português José Saramago perambula pelo mundo, proferindo palestras contra o capitalismo e recebendo condecorações – a maioria das vezes, diga-se, das mãos de defensores do capitalismo. Ainda assim, sobrou tempo para que ele escrevesse um novo e extenso romance: A Caverna (Companhia das Letras; 352 páginas; 31 reais). O livro narra os reveses de Cipriano Algor, um oleiro que entra em crise depois que o Centro, a gigantesca e labiríntica organização para a qual fornecia seus produtos, passa a usar plástico em vez de louça, deixando o comerciante à deriva.

A Caverna é um texto cheio de metáforas, parábolas e referências. A começar pelo título, que remete à famosa alegoria da caverna, criada pelo filósofo grego Platão. A presença mais forte, no entanto, é a de Kafka. Saramago já declarou inúmeras vezes que o autor checo é seu maior ídolo literário. No caso de A Caverna, a referência imediata é ao romance O Castelo, em que Kafka imagina uma construção misteriosa à qual o protagonista K. não consegue ter acesso, embora se valha de todos seus recursos para tanto. Desde que o livro foi lançado, na década de 20, centenas de intérpretes têm procurado encontrar um significado preciso para o castelo. Alguns fizeram leituras religiosas, associando a busca de K. à tentativa de encontrar Deus. Para outros, o castelo seria símbolo das grandes burocracias modernas, diante das quais o indivíduo é impotente. Não há consenso sobre o assunto – nem nunca haverá. O Centro desempenha no livro de Saramago papel semelhante ao do castelo de Kafka. No caso do autor português, porém, o espectro de interpretações possíveis é menos vasto. E isso porque as intenções políticas de Saramago aparecem de maneira clara. Comunista de carteirinha, ele não deixa dúvidas de que o edifício imponente e opressivo em torno do qual a história se desenvolve é um símbolo da economia neoliberal ou qualquer coisa que o valha. Nisso há uma boa dose de esquematismo – ou de simplismo intelectual –, defeito esse que não se observava nos romances anteriores do autor, nem mesmo em Todos os Nomes (1997), em que Saramago concebe uma repartição aos moldes kafkianos, a Conservatória Geral do Registro Civil, onde ficam guardadas as certidões de todos os vivos e mortos de um país sem nome.

Inspiração brasileira – Apesar desse problema, A Caverna tem diversas passagens brilhantes. Com seu estilo caudaloso, de pontuação peculiar, Saramago nunca foi um autor que se acomodasse ao ideário estético dos comunas de quaisquer latitudes, com sua preferência pelas obras "bem explicadinhas", prontas para ser degustadas pelas massas ignaras. "Eu reconheço a autoridade política e ideológica do partido, mas não a autoridade literária", já disse Saramago em várias ocasiões. Observador das pequenezas do cotidiano, o autor cria páginas de grande beleza ao descrever, por exemplo, o trabalho de Cipriano Algor em sua oficina de oleiro. Quando se volta para reflexões de caráter mais existencial, por assim dizer, ele também pode ser tocante. Na tentativa de continuar a vender seu trabalho para o Centro, Algor passa a produzir bonecos de barro – o que dá ensejo a digressões sobre a Criação: "Conta-se que em tempos antigos houve um deus que decidiu modelar um homem com o barro da terra que antes havia criado, e logo, para que ele tivesse respiração e vida, lhe deu um sopro nas narinas..." É curioso notar que o tema dos bonecos de barro – e a própria inspiração para que Saramago escrevesse A Caverna – veio à mente do autor durante uma viagem ao Brasil. Em seus volumosos diários, intitulados Cadernos de Lanzarote, ele registra o acontecimento. Tudo ocorreu durante uma visita à Casa do Pontal, museu de arte popular nos arredores do Rio de Janeiro, em 1997. "Foi neste museu, contemplando umas figuras de barro, que, de súbito, saltou na minha cabeça a centelha que andava a faltar-me para que a idéia de A Caverna venha (talvez) a concretizar-se em livro", anotou ele.

Concretizada a idéia, resta o quê? Resta um livro que não está à mesma altura de O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) ou de Ensaio sobre a Cegueira (1995), dois de seus textos mais impressionantes. Mas Saramago, embora não seja um luminar do pensamento político, ainda é um dos maiores estilistas da literatura contemporânea. As bruscas mudanças de tom, a busca pela palavra exata, o lirismo, a ironia, todas essas qualidades da prosa do autor português continuam afiadíssimas. Enfim, vale a pena atravessar A Caverna, porque é sempre bom ler um livro em bom português, prazer que anda cada vez mais difícil de ser proporcionado pelos autores brasileiros.

 

Conversa de oleiro

"Ah, bons dias, senhor Cipriano, disse ela, Venho cumprir o prometido, trazer-lhe seu cântaro, Muito obrigada, mas realmente não devia estar a incomodar-se, depois do que conversámos lá no cemitério pensei que não há grande diferença entre as coisas e as pessoas, têm a sua vida, duram um tempo, e em pouco acabam, como tudo no mundo, Ainda assim, se um cântaro pode substituir outro cântaro, sem termos de pensar no caso mais do que para deitar fora os cacos do velho e encher de água o novo, o mesmo não acontece com as pessoas, é como se no nascimento de cada uma se partisse o molde de que saiu, por isso é que as pessoas não se repetem, As pessoas não saem de dentro de moldes, mas acho que percebo o que quer dizer, Foi conversa de oleiro, não ligue importância, aqui o tem, e oxalá não caia a asa a este tão cedo."

Trecho de A Caverna

 

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