|
|
|
![]() |
|
|||||||||||
|
||||||||||||
A semana passada foi a pior e mais assustadora dos onze meses de governo do presidente argentino Fernando de la Rúa. Os empréstimos entre bancos tiveram os juros elevados de 13% para 23% a taxa mais alta dos últimos sete anos. O governo vendeu 1,1 bilhão de dólares em letras do Tesouro e foi forçado a pagar 4 pontos porcentuais de juros acima do que havia oferecido vinte dias atrás, para encontrar quem se dispusesse a ficar com eles. Durante quatro dias, o secretário do Tesouro, Mario Vicens, esteve em negociação com o Fundo Monetário Internacional, em Washington, em busca de um novo pacote de socorro internacional. Piquetes de desempregados paralisaram estradas em vários pontos do interior do país, um conflito social que causou choques da polícia com manifestantes e a morte de um motorista de ônibus que estava sem salário havia dez meses. Sexta-feira à noite, De la Rúa era esperado em cadeia nacional de televisão para anunciar mais um plano econômico, o quarto desde que assumiu o cargo. Tamanha movimentação deixou a Argentina sem fôlego. As mais diferentes parcelas da população andam temerosas de que o governo não consiga encontrar o caminho para acertar as contas e tirar o país do atoleiro. O orçamento de 2001 ainda não foi aprovado e é muito provável que os governadores peronistas não concordem com o corte de 700 milhões de dólares em aposentadorias, subsídios a combustíveis, energia e outros gastos. Resultado dessa equação: os juros no overnight dispararam, sinal de que muita gente está querendo tirar seu dinheirinho rapidamente do país. O governo decidiu tomar as primeiras providências para enfrentar a tempestade na quarta-feira. Tornou mais flexíveis as normas que obrigavam os bancos a depositar diariamente 20% do dinheiro que recolhiam no mercado, para que os juros nos empréstimos entre os bancos caíssem. Essa medida parece tímida, mas, sozinha, deverá injetar na economia 1,5 bilhão de dólares. O pacote preparado para sexta-feira previa elevar a idade de aposentadoria das mulheres, de 60 para 65 anos, liberar os planos de saúde da tutela dos sindicatos e acabar com o imposto sobre juros de empréstimos. Conseguir
o apoio necessário para enfrentar a crise é tarefa
monumental, a começar pelo fato de que os políticos
da coligação que apóia o governo vivem brigando
publicamente. Não dá descanso, por exemplo, o ex-presidente
Raúl Alfonsín, ainda o maior líder da União
Cívica Radical (UCR), partido do presidente, ao sugerir o
fim da conversibilidade da moeda ou a moratória na dívida
externa. Há boatos insistentes de que o ministro da Economia,
José Luís Machinea, deixará o posto antes do
fim do ano. Especula-se que até o ex-ministro Domingo Cavallo,
pai do plano de estabilização econômica do país,
poderia voltar à Pasta. Cavallo é um líder
carismático, o que é uma vantagem diante da postura
burocrática de Machinea, mas poucos acreditam que a aliança
política que apóia o governo permita que ele volte
ao poder. Em apenas onze meses de governo, o presidente De la Rúa
registra um índice de popularidade de apenas 25%. Em janeiro
deste ano estava em 71%. No plano externo, também não
há refresco a falta de confiança dos investidores
estrangeiros fez com que a avaliação do risco de investimentos
no país piorasse.
Sobre o que acontecerá no país, no futuro bem próximo, os economistas, de maneira geral, constroem quatro cenários diferentes. No primeiro, com a obtenção de um pacote de ajuda do governo americano e do FMI, avaliado em cerca de 10 bilhões de dólares, a Argentina pode ir rolando sua crise para a frente. O segundo admite a possibilidade da desvalorização cambial e provocaria reações negativas em todas as camadas do povo argentino, hipótese considerada uma espécie de mergulho no desconhecido. Como a desvalorização do peso seria de pelo menos 50%, de um momento para outro as dívidas das pessoas, das empresas e do governo dobrariam. Na Argentina, 70% da dívida privada está contratada em dólar. O terceiro cenário é o da dolarização uma experiência semelhante à do Equador, só que a Argentina é um país muito maior e de economia muito mais complexa. O problema imediato seria que os dois países vivem momentos opostos no que diz respeito às necessidades estratégicas os Estados Unidos têm crescido demais e precisam de juros elevados para esfriar a economia; os argentinos precisam crescer e, portanto, de juros baixos. Conclusão: a dolarização é uma aposta muito complicada. Resta a alternativa, vista como o mais viável e mais promissor dos cenários: a reestruturação da dívida do país. Considerando que os cofres argentinos estão vazios, e que é impossível saldar os débitos, o governo deverá negociar com o FMI e com bancos privados um novo contrato, com prazo mais elástico e juros mais baixos. A dívida argentina soma 140 bilhões de dólares, dos quais 19,5 bilhões terão de ser pagos no ano que vem. A situação é crítica e exige a renegociação. Se der tudo certo, o país poderá ganhar um tempo a mais para promover as reformas que ainda precisam ser feitas para que o país se torne viável. Mas a saída do lamaçal em que a nação se meteu, em qualquer hipótese, não será sem dor.
|
||||||||||||
| Copyright
2000 Editora Abril S.A. |
VEJA
on-line | Veja
São Paulo | Veja
Rio | Veja
Recife | Guias
Regionais Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco |