Lily Safra
entre o esplendor
e a tragédia
A
fabulosa história da brasileira filha
de
imigrantes russos que se tornou uma
das mulheres mais ricas do mundo
Eliana
Giannella Simonetti
O
jornalista americano Dominick Dunne é uma rara combinação
de colunista social com repórter investigativo. Ele circula
entre a elite bilionária da Europa e dos Estados Unidos.
Sua mercadoria são as fofocas. Mas só as pesadas.
Muito pesadas. Atualmente, ele investiga duas mortes que os conhecidos
do grand monde lhe sopram considerar suspeitíssimas.
Uma é o suicídio de uma adolescente da nobreza européia
herdeira de uma fortuna em jóias e propriedades. O outro
caso que ocupou a vida profissional de Dunne durante os últimos
dez meses foi a morte do multibilionário banqueiro Edmond
Safra, irmão dos donos do Banco Safra brasileiro. Edmond
morreu há cerca de um ano num incêndio que devastou
a luxuosa cobertura em que morava com a mulher, a brasileira Lily
Safra, em Mônaco. "Não existem duas centenas de pessoas
no mundo que vivem no alto nível em que Edmond e Lily Safra
viviam", escreveu Dunne na reportagem de catorze páginas
que publicou na revista Vanity Fair analisando as inconsistências
da investigação policial sobre a morte de Safra. "O
caso tem muitas pontas soltas. Não encontrei, por exemplo,
explicações satisfatórias para o fato de que
nenhum dos onze guarda-costas dele estava trabalhando no dia da
morte", escreveu o jornalista.
Durante
um ano ele entrevistou bilionários conhecidos dos Safra nos
Estados Unidos e na Europa e conversou longamente com a mulher do
enfermeiro americano Ted Maher, o único preso até
agora por envolvimento na morte do banqueiro. O jornalista levanta
dúvidas sobre a versão oficial da morte de Safra.
As autoridades de Mônaco concluíram que o fogo começou
numa lata de lixo e teria sido ateado propositadamente por Maher.
O objetivo do enfermeiro, metido numa disputa de ego com seus superiores,
seria simplesmente chamar a atenção. Detido em flagrante,
Maher está preso em Mônaco, onde aguarda julgamento.
As informações levantadas pelo jornalista Dunne vão
numa direção diferente das da investigação
oficial. Elas atiçam uma teoria conspiratória clássica,
daquelas costuradas com as dúvidas deixadas pela apuração,
como as que cercam a morte de John Kennedy, Marilyn Monroe ou PC
Farias, o tesoureiro de Fernando Collor.
"Os
amigos de Safra não gostam de comentar o assunto, mas dão
a entender que não acreditam na versão oficial", escreveu
Dunne. Uma das questões que mais chamaram a atenção
do jornalista foi o fato de a polícia monegasca não
ter investigado a sério a hipótese de o apartamento
de Safra ter sofrido um ataque de um incendiário profissional.
Ele tentou conversar com as duas pessoas que poderiam ajudar a esclarecer
as circunstâncias da morte de Safra. Uma delas, o enfermeiro
Maher, está incomunicável na cadeia. Só fala
com a mulher, vinte minutos por semana, por telefone. Ele admitiu
ter começado o incêndio, mas Dunne acha que a confissão
lhe foi arrancada à força. A mulher do enfermeiro
sustenta a mesma coisa. A outra pessoa-chave que Dunne também
não conseguiu entrevistar foi Lily Safra. As amigas de Lily,
segundo Dunne, contam que em reuniões sociais ela fala sem
rodeios da existência de um segundo foco de incêndio
na cobertura naquele dia, mas nunca conseguiu que a polícia
investigasse com seriedade a possibilidade.
"Lily
Safra é, de longe, a figura mais interessante de toda essa
história", escreveu Dunne. Constatação fácil
de atingir. Radiante, aos 68 anos, Lily tem tido uma vida marcada
por doses abundantes de esplendor e tragédia. Herdou de Safra
uma fortuna que passa dos 3 bilhões de dólares, mas
também carregará para sempre os dramáticos
momentos que custaram a vida ao marido. Consta do inquérito
que Lily pediu aos bombeiros que repousassem o corpo carbonizado
do marido pela última vez na cama dela antes que o levassem.
Pouca gente conhece a brasileira Lily Safra, nascida Watkins. Filha
de judeus russos que migraram para o Brasil no início do
século XX, ela é uma das mulheres mais ricas do mundo.
Vive entre a Suíça, a França, a Inglaterra,
Mônaco e os Estados Unidos, freqüenta os mais requintados
salões e convive com toda espécie de potentados. É
considerada uma das maiores colecionadoras de antiguidades do planeta
e autoridade suprema no mobiliário europeu do século
XVIII.
Lily
nasceu no Rio Grande do Sul. Tem dois irmãos. A família
vivia com dificuldade, mas não poupava com a educação
da garota bonita, esperta e charmosa. Menina, ela aprendeu a falar
inglês e francês. Vestia-se com apuro e freqüentava
festas. Numa delas, conheceu o homem que viria a ser seu primeiro
marido. Tinha 19 anos quando se casou com Mario Cohen, um argentino
milionário fabricante de meias de náilon. O casal
morou no Brasil, no Uruguai e na Argentina e teve três filhos:
Adriana, Eduardo e Cláudio. Lily, nessa época, já
mandava mesadas para sustentar seus irmãos, que vivem até
hoje no Rio de Janeiro. O casamento com Cohen não durou muito.
Numa festa, Lily conheceu Alfredo Monteverde, dono das lojas Ponto
Frio. Monteverde era um homem muito rico, querido por empresários
e amigos, alegre e conversador. Apaixonou-se perdidamente por Lily.
Ela largou o marido e mudou-se para o Rio. Mario Cohen caiu numa
depressão da qual nunca mais se recuperou. Lily entrou para
a alta sociedade carioca. Tornou-se vizinha de Carmen Mairink Veiga.
Passou a se chamar oficialmente Lily Monteverde. O casal parecia
muito feliz. Em 1969, Alfredo Monteverde foi encontrado em casa,
morto com um tiro no tórax. A conclusão da polícia
foi de que Monteverde se suicidou.
Lily
mudou-se para Londres e passou a viver dos rendimentos de sua participação
no Ponto Frio. Foi em Londres que conheceu Edmond Safra. Procurava
um administrador profissional para seu patrimônio. Edmond
ficou encantado com a beleza da brasileira. O banqueiro sempre fugira
de relacionamentos sérios por temor, confessado aos amigos,
de que as mulheres vissem nele apenas a fortuna. Lily não
despertou em Edmond a mesma aflição. Durante alguns
meses os dois namoraram. Judeu sefardim ortodoxo, Edmond era um
homem fechado, fanático por trabalho, pouco afeito a festas.
Lily gosta de estar cercada de gente o tempo todo. É liberal,
do ponto de vista religioso. Sua família, também judia,
é de origem asquenaze. Para alguém pouco familiarizado
com as liturgias e exigências religiosas do judaísmo,
tal diferença não faz muito sentido. Faz. Muita. Um
sefardim ortodoxo não se casa com uma asquenaze liberal sem
oposição familiar. Foi exatamente o que a união
de Edmond com Lily provocou na família Safra. Joseph e Moise,
os irmãos mais novos, foram os mais inconformados com a situação.
Resultado: a contragosto, Edmond acabou se afastando de Lily.
A
história entre os dois estava longe de terminar. O casamento
de Lily com o empresário inglês Samuel Bendahan, que
iria durar apenas um ano, acabou precipitando a volta dela aos braços
de Edmond. "Se ela teve a frieza de enfrentar um casamento de fachada
apenas para provocar uma ação de Edmond, como sustentam
alguns amigos, a manobra funcionou", diz Dunne. Bendahahn abriu
processo contra Lily. Ele queria 250.000
dólares de compensação pelo fim precoce do
casamento. A Justiça não acatou seu pedido. Lily voltou
a encontrar-se com Edmond e os dois quarentões se casaram
em 1976. Edmond cuidou de estabelecer com clareza as bases da união.
O contrato pré-nupcial tinha 600 páginas. Lily revelou-se
uma grande investidora em imóveis e encheu as casas e apartamentos
que comprou pelo mundo afora de obras de arte. Segundo o jornalista
Dominick Dunne, só a decoração de seu quarto
na mansão La Leopolda, na Riviera Francesa, custou 2 milhões
de dólares. Isso sem contar o preço das peças
antigas que adornam o aposento. O casamento se manteve por 23 anos,
durante os quais Lily e Edmond habitaram o rarefeito topo da alta
sociedade internacional.
Quando
o mal de Parkinson se agravou e Edmond perdeu a capacidade de atender
ao telefone, Lily Safra passou a mediar todas as suas ligações.
Os amigos dizem que ela impedia Joseph e Moise de falar com o marido.
Na cerimônia fúnebre em Mônaco, a frieza entre
Lily e os irmãos de Edmond se fez notar. Ela não lhes
reservou lugares na sinagoga. Joseph e Moise levaram as próprias
cadeiras para assistir à cerimônia porque não
havia assento marcado para eles. Lily não permitiu que o
marido fosse enterrado em Israel, como era desejo da família.
Sepultou-o em Genebra. Em outra cerimônia religiosa, numa
sinagoga de língua espanhola e portuguesa em Nova York, um
mês depois da morte de Edmond, mais uma vez a viúva
mostrou uma descortesia para com os parentes. Não os convidou
para a reunião que se seguiu, no apartamento da família.
Nos últimos meses, Lily doou 2 milhões de dólares
para a construção de uma fonte luminosa em Londres.
Também deu 30 milhões de dólares para uma universidade
israelita reformar seu campus. Comprou um novo apartamento em Nova
York e um casarão em Londres. Ela está vendendo suas
ações no grupo brasileiro Ponto Frio e as casas em
Mônaco e na Riviera Francesa. A Justiça de Mônaco
continua trabalhando no caso. O julgamento, prevê Dunne, será
eletrizante. Ele acha que se terá oportunidade de esclarecer
a origem do segundo foco de incêndio. O enfermeiro Ted Maher
também terá a chance de falar livremente. Pelo que
Dunne ouviu da mulher dele, Maher pode dar ao caso um contorno inesperado.
Os conhecidos e amigos de Edmond Safra, que teve uma vida extraordinária,
não se conformam com a versão oficial segundo a qual
ele teria tido uma morte ordinária.
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Uma
viúva bilionária
Segundo a revista EuroBusiness de julho último, Lily
Safra é dona de uma fortuna de 4,7 bilhões de
dólares. É a 11ª no ranking das mulheres
mais ricas do mundo. Entre outras riquezas, ela tem:
2,8 bilhões de dólares
recebidos pela venda do banco Republic, de Edmond Safra, dias
antes de sua morte
Ações da rede de lojas Ponto Frio, no Brasil,
no valor de 230 milhões de
dólares
Apartamento em Monte Carlo avaliado em 2
milhões de dólares
Mansão La Leopolda, na Riviera Francesa, cujo valor
é calculado entre 90 e 150
milhões de dólares
Apartamentos e casas em Londres, Paris, Genebra e Nova York
e uma das maiores coleções privadas de obras
de arte e antiguidades do mundo, de valor incalculável
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