Montagem sobre fotos de Ana Araújo
 |
 |

Policarpo
Junior, de Brasília
Há
algo de subterrâneo no 4º andar do Palácio do
Planalto. Ali, no gabinete do ministro Alberto Cardoso, um general
de 60 anos que responde pelo Gabinete de Segurança Institucional,
têm chegado relatórios secretos cujo conteúdo
é constrangedor para a organização que os produz.
Os papéis mostram que os agentes secretos do governo
são 900 em todo o país andam espionando o que
não deveriam. Um governador de Estado, que se opõe
a quase tudo o que o governo faz, é objeto da atenção
dos espiões. Um procurador da República, que vive
de olho em deslizes do governo, também foi investigado durante
sete meses. Um jornalista, que apurava o envolvimento do governo
no escândalo do TRT paulista, teve até ficha ideológica
levantada. Em pelo menos três oportunidades, os agentes se
meteram a xeretar casos de corrupção, um assunto do
qual, pelo menos oficialmente, não se devem ocupar.
Há
três meses, chegou às mãos do general Alberto
Cardoso, no Palácio do Planalto, um relatório contando
detalhes de um encontro mantido pelo governador Itamar Franco, de
Minas Gerais. Informava que o governador estivera reunido com correligionários
em Brasília, na residência privada de um deles. O papel
trazia até transcrição de diálogos,
numa forte sugestão de que a casa onde o encontro foi realizado
recebera a discreta presença de microfones. O general leu
o documento e jogou-o no triturador, uma máquina que picota
papel de modo que não possa ser reconstituído. Criada
em dezembro do ano passado, a Agência Brasileira de Inteligência
(Abin) é comandada pelo general Alberto Cardoso, suas atividades
são disciplinadas por uma lei com quinze artigos e sua finalidade
é servir ao Estado, embora as evidências indiquem que
está servindo a interesses cuja natureza não se conhece
muito bem. O diretor-geral da Abin, coronel Ariel De Cunto, que
levou o relatório sobre a reunião de Itamar ao general,
afirma que seus espiões nada fizeram de errado.
"Aquilo
não foi coisa daqui. Alguém da agência recebeu
o documento, eu o levei ao general. Não era nada de relevante.
Como não tinha origem, era uma denúncia anônima,
o papel foi para o triturador", diz o coronel. VEJA ouviu quatro
agentes da Abin, que pedem para não ser identificados, pois
estão fazendo uma inconfidência. Eles contam que há
três equipes da Abin no encalço de Itamar. Uma em Belo
Horizonte e duas em Brasília, que são acionadas toda
vez que o governador chega à capital. E não é
de hoje: seus passos são rastreados desde março de
1998, quando tentou sair candidato a presidente por seu partido
na época, o PMDB. De lá para cá, a Abin chegou
a produzir até relatórios sobre as dívidas
pessoais de Itamar e três de seus auxiliares: Henrique Hargreaves,
Alexandre Dupeyrat e José Aparecido.
Reprodução Paulo Pinto/ Ag. Estado
 |
Juiz
Nicolau
No
auge do escândalo do desvio de 169 milhões de reais do Tribunal
Regional do Trabalho em São Paulo, a Abin também tentou descobrir
o paradeiro do juiz Nicolau dos Santos Neto. "Não fizemos muita
coisa", diz o diretor-geral da agência de inteligência |
Novo monstro A criação da Abin foi precedida
por dois anos de debate no Congresso Nacional. Travava-se, na época,
uma discussão duplamente complexa. De um lado, a intenção
era evitar uma reencarnação do temido SNI, serviço
de inteligência da ditadura militar que se transformou num
dos pilares do terrorismo de Estado. De outro, pretendia-se estabelecer
limites muito claros para as atividades da Abin, de tal modo que
o novo serviço de inteligência não acabasse
degenerando num monstro de espionagem, como foi o SNI, na definição
de seu próprio criador, o general Golbery do Couto e Silva.
Felipe Barra
 |
Andrei
Meirelles
O
jornalista Andrei Meirelles, que fez sete reportagens sobre
o eventual envolvimento do governo no caso do TRT: a Abin achou
necessário levantar até sua ficha ideológica. "Me espanta que
isso seja do interesse do governo", diz ele |
No papel, os agentes da Abin não usam métodos ilegais,
como grampeamento de telefone, não investigam políticos,
não entram em casos de corrupção. "Corrupção
é para polícia investigar", diz o coronel Ariel De
Cunto. Pela lei, a Abin só trabalha em casos que envolvem
o interesse nacional, a defesa do Estado, como o avanço do
narcotráfico ou a devastação da Amazônia.
Na prática, as coisas são diferentes. No auge do escândalo
do desvio de verbas da obra do Tribunal Regional do Trabalho de
São Paulo, em que a quadrilha do juiz Nicolau dos Santos
Neto sumiu com 169 milhões de reais, os agentes da Abin foram
investigar jornalista em especial, quem fazia reportagens
sobre o eventual envolvimento nos desvios do ex-secretário-geral
do Palácio do Planalto Eduardo Jorge Caldas Pereira. Levantaram
a ficha de um deles, Andrei Meirelles, que apurava o caso para a
revista em que trabalha, a IstoÉ. A ficha, à
qual VEJA teve acesso, informa que o jornalista pertenceu ao Partido
Comunista Brasileiro, atuou no sindicato de jornalistas e participou
de um encontro sindical em Cuba. Investigou-se até que sua
ex-mulher era funcionária do governo federal. "Os dados são
até corretos. Tenho orgulho do meu passado, mas me espanta
que isso seja de interesse do governo num regime democrático",
afirma o jornalista, autor de sete reportagens sobre o assunto.
Por
que o serviço secreto do governo precisa da ficha ideológica
de um jornalista? Por que se interessa por um caso de corrupção
se, oficialmente, a agência não tem nada a ver com
isso? Na verdade, suspeitas de corrupção esse
assunto que "é para polícia investigar" costumam
atrair a atenção do serviço de inteligência.
Exemplos:
Os agentes da Abin foram acionados para apurar
o paradeiro do juiz Nicolau dos Santos Neto. A cúpula da
agência admite que o trabalho foi realizado, mas não
dá detalhes. "Não fizemos muita coisa", diz De Cunto.
"Apenas verificamos o nome de uma ou outra pessoa que poderia ter
ligações com o juiz."
Os arapongas também entraram no caso
do Dossiê Cayman, uma papelada comprovadamente falsa segundo
a qual os tucanos de maior plumagem do país, entre eles o
presidente da República, teriam contas bancárias recheadas
de dólares num paraíso fiscal. "Só fizemos
umas parcerias para saber se as contas existiam ou não. Não
se encontrou nenhum indício", diz De Cunto. Foi um pouco
mais que isso. O serviço secreto teve tal envolvimento na
história que chegou a contratar a empresa de um brasileiro
em Miami, na Flórida, para ajudar na apuração.
Oficialmente, a empresa negocia apenas com armas, mas seu trabalho
no caso do dossiê foi tão amplo que se estendeu até
a Ilha de Man, um paraíso fiscal inglês localizado
no Mar da Irlanda.
Ricardo Stuckert
 |
|
José
Serra
A
cúpula da Abin começou a "observar" que funcionários do Ministério
da Saúde, de José Serra, faziam viagens caras demais. Os arapongas
examinaram as contas e descobriram que até funcionários fantasmas
do ministério andavam "viajando" para o exterior
|
Até as movimentações
financeiras do Ministério da Saúde, comandado por
José Serra, foram examinadas. Os arapongas queriam conferir
a prestação de contas de passagens e diárias
de funcionários da Saúde. Estavam intrigados com a
quantidade de funcionários que, nas férias, faziam
viagens aparentemente incompatíveis com suas rendas. No relatório
da investigação, a que VEJA teve acesso, contam ter
descoberto que os funcionários estavam usando, em benefício
pessoal, os prêmios de milhagens obtidos em viagens oficiais.
O descontrole na emissão de bilhetes era tal que havia até
funcionários fantasmas viajando ao exterior. "Foi uma coisa
eventual", minimiza De Cunto. Ele diz que a apuração
teve início porque ele e o general Cardoso começaram
a "observar" que alguns funcionários viviam melhor do que
seus ganhos permitiam. Aparentemente, o Ministério da Saúde
não foi informado de nada. Na semana passada, Ailton de Lima
Ribeiro, o subsecretário de Assuntos Administrativos do ministério,
encarregado do setor que cuida de passagens e diárias, informou
que nunca houve investigação sobre o assunto. Ou não
quer dizer, ou nem ele sabia que os arapongas andaram por lá.
Anúncio
em jornal A dura experiência brasileira com o velho
SNI pode produzir a impressão de que serviços secretos
são coisa de ditaduras ou regimes totalitários. É
um engano. Todos os países razoavelmente estruturados têm
serviço de inteligência, cuja tarefa é municiar
o mandatário da nação com informações
capazes de ajudá-lo a tomar decisões. Serviços
de inteligência são um instrumento tradicional dos
governos, que não apenas os têm como precisam tê-los.
O problema é saber até onde podem ir em seu trabalho
sigiloso. Até mesmo nos países mais civilizados há
grampeamento de telefone e outras formas de investigação
inconfessáveis sobre cidadãos que deveriam ser protegidos
e não devassados pelos serviços de inteligência.
Na teoria, há uma distinção entre serviços
de inteligência e de espionagem. Grosso modo, o serviço
de espionagem faz a mesma coisa que o de inteligência, só
que por meios ilegais e clandestinos. A inteligência, portanto,
seria uma forma, igualmente secreta, de obter informações
valiosas, mas de acordo com parâmetros éticos e legais.
Na
prática, as coisas se misturam. A CIA, o serviço de
inteligência dos Estados Unidos, é o exemplo mais conhecido.
Deve respeitar leis e códigos, presta contas anualmente ao
Congresso americano, mas já se envolveu em todo tipo de atrocidade,
até mesmo complôs e assassinatos. Metade dos políticos
importantes dos EUA ficou de cabelo em pé quando morreu Edgar
Hoover, que dirigia com mão de ferro o FBI, a polícia
federal americana. Eles temiam que fossem divulgados os dossiês
que Hoover tinha de muitos deles eram produto de anos e anos
de escuta telefônica clandestina. Nesse campo, existe uma
sólida hipocrisia. Todos os governos têm agentes para
esse tipo de levantamento, mas isso só vira problema quando
são apanhados com a mão na massa.
"O
grande problema dos serviços de inteligência é
a definição dos limites. Quais são os limites?
Se você estabelecer, você restringe a capacidade de
atuação. Se não, cria um monstro", diz o ex-senador
Jarbas Passarinho, que foi ministro nos governos militares. Ele
acrescenta: "Um serviço de inteligência é absolutamente
necessário. Os limites devem se propor a estabelecer regras
de atuação no campo ético". Fazendo uma análise
em tese, sem saber dos casos em que os agentes da Abin se envolveram,
o ex-ministro diz: "Avaliar as ações e declarações
de um político e elaborar cenários é legítimo.
Agora, seguir uma pessoa, infiltrar agentes e produzir informações
de caráter ideológico extrapola qualquer limite".
O desafio é garantir que os agentes não se prevaleçam
da ausência de vigilância pública para fazer
o que bem entenderem risco que se corre em regimes mais abertos
ou mais fechados. Na ditadura do Peru, o chefe do serviço
secreto acaba de causar um abalo sísmico no governo de Alberto
Fujimori, com a descoberta de que pagou propina a parlamentar. Na
democracia da Argentina, o chefe do serviço secreto é
o pivô do maior escândalo dos últimos tempos,
suspeito de subornar parlamentares para aprovar uma lei.
Num
país como o Brasil, em que até o presidente da República
teve telefonemas grampeados, não chega a ser um espanto que
os arapongas do governo pulem a cerca. O duro é saber onde
fica a cerca. "O Congresso deu um cheque em branco ao governo com
a lei que criou a Abin", afirma o deputado José Genoíno,
do PT, que participou da comissão parlamentar que discutiu
o assunto. "Nem se pode dizer que essas ações da Abin
sejam ilegais. A lei é abrangente demais e se fundamenta
num conceito altamente subjetivo, o chamado interesse nacional."
O deputado apresentou várias emendas ao projeto da Abin.
Queria que a agência fosse legalmente proibida de se envolver
em assuntos referentes a movimentos sociais, políticos e
religiosos. Propôs até um artigo criando a "desobediência
devida", mecanismo pelo qual agentes teriam o direito de se recusar
a cumprir missões ilegais e denunciar seus chefes. As emendas
foram rejeitadas.
Ana Araújo

|
Luiz
Francisco
Quando
investigava o caso dos ministros que haviam usado jatinhos da
FAB em viagens pessoais, o procurador Luiz Francisco de Souza
despertou a atenção da Abin. Uma "andorinha" vigiou-o por sete
meses até que uma briga num motel acabou com a operação |
Mas nem o interesse nacional explica por que a Abin andou xeretando
a vida de um procurador da República, Luiz Francisco de Souza,
aquele que dá tanta dor de cabeça ao governo que chegou
a ser comparado aos mais atuantes procuradores americanos num perfil
recente publicado pelo jornal The New York Times. Durante
sete meses, o procurador foi vigiado por uma "andorinha", o apelido
que, no jargão dos arapongas, designa as espiãs que
se disfarçam de amante apaixonada para se aproximar de seu
alvo. Destacada para a missão, a soldado Cleonice de Nazaré
Caetano, que pertence ao quadro da Polícia Militar do Distrito
Federal, encarou sua tarefa com zelo. Na época, o procurador
estava investigando os ministros que usaram jatinhos da FAB para
viagens pessoais. Ela passou a ligar para o gabinete do procurador,
dizia que tinha informações relevantes e logo conseguiu
um encontro pessoal. Enquanto isso, a soldado fuxicava a vida de
seu alvo. Chegou até a falar com ex-colegas de faculdade
do procurador para saber de seu passado.
"Uma
vez, ela me ligou dizendo que era uma pessoa sozinha, sem amigas,
e pediu para se encontrar comigo", conta a professora Elisa Alves,
uma das ex-colegas do procurador de quem a "andorinha" tentou se
aproximar. "Eu achei a conversa estranha, principalmente quando
perguntei como tinha meu telefone. Eu havia acabado de trocá-lo
e nem meus amigos sabiam o novo número." Elisa Alves se limitou
a dizer que o procurador era homem dedicado ao trabalho e à
leitura, que gostava de ler sobre direito e filosofia. Daí
a "andorinha" parece ter tirado a idéia de presentear seu
alvo com a coleção completa de Os Pensadores, títulos
que tratam das idéias de grandes filósofos. Luiz Francisco
diz que sempre desconfiou da intenção da soldado,
que perguntava demais sobre seu trabalho e dava sinais de querer
saber muito de sua vida. "Ela conhecia até um sítio
que minha avó tem nos arredores de Brasília", relembra
ele. A certa altura, a soldado confessou que era agente da Abin,
mas simulou que estava revoltada com o trabalho.
A
"relação" só acabou na noite de 22 de janeiro
deste ano, numa briga num quarto de motel. Por precaução,
o procurador nunca dizia antecipadamente para onde iriam nas saídas
noturnas e não permitia que ela atendesse às ligações
telefônicas enquanto estavam juntos. Nesse dia, porém,
o celular da "andorinha" tocou no quarto do motel, o procurador
tentou impedi-la de falar e começou um empurra-empurra. Luiz
Francisco, com receio de algum escândalo, tentou ligar para
a portaria do motel. Mas a soldado arrancou os fios do telefone
do quarto. Como ela ameaçava denunciá-lo à
polícia por lesões corporais, o procurador, para se
precaver, tentou levá-la a uma delegacia. A soldado se recusou
a ir. No dia seguinte, sozinha, foi à polícia, carregando
três atestados médicos, dando conta de escoriações
leves. Registrou a queixa, mas mais tarde acabou desistindo de levar
a denúncia à frente. Deu-se, então, o caso
por encerrado.
Selmy Yassuda
 |
|
O araponga Temílson Resende, conhecido como Telmo: agente da
Abin no Rio, é o principal suspeito de grampear telefones do
BNDES |
Um dos aspectos peculiares da arapongagem é que tudo aquilo
que se fisga nas andanças clandestinas nunca acaba no lixo.
Mais cedo ou mais tarde, vem à luz. Foi o que aconteceu no
escândalo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social (BNDES), que derrubou alguns dos principais auxiliares
do presidente Fernando Henrique. Até hoje, a Polícia
Federal suspeita que o grampo telefônico no BNDES foi obra
da Abin, embora as gravações tenham ficado guardadas
por um bom tempo até que a imprensa revelasse sua existência.
O general Alberto Cardoso já negou essa versão mais
de um milhão de vezes, mas convive com dois incômodos.
Primeiro, o principal suspeito de ter instalado o grampo no BNDES
é um agente da Abin do Rio de Janeiro, Temílson Resende,
conhecido como Telmo. O segundo incômodo: o general Cardoso
sustenta que obteve cópia das fitas com as conversas grampeadas
porque um agente foi informado, por telefonema anônimo, que
elas estavam debaixo de um viaduto em Brasília uma
versão que ninguém leva a sério.
Pois,
tal como as fitas do BNDES, a briga do motel entre a "andorinha"
e o procurador também passou por uma hibernação
até voltar à vida. Em 5 de julho passado, a soldado
Cleonice de Nazaré Caetano, sem mais nem menos, resolveu
reabrir o caso e deu um extenso depoimento à polícia
acusando o procurador de tê-la agredido. Por pura coincidência,
seu depoimento serviu, no dia seguinte, para que o senador Luiz
Estevão, então cassado havia dias, prestasse um depoimento
à Justiça no qual chamou o procurador de "deformado"
e "espancador de mulheres", referindo-se ao caso do motel. Como
o ex-senador explica essa coincidência? "Alguém encaminhou
uma cópia daquele depoimento ao meu escritório", diz
ele. A história é um pouco diferente: o ex-senador
foi procurado por agentes da Abin que lhe ofereceram um longo relatório
sobre o procurador, incluindo o produto do trabalho da "andorinha",
que foi então convidada a desenterrar a pendenga do motel.
O coronel De Cunto diz que a "andorinha" não era mais da
Abin quando investigou o procurador embora, na delegacia,
ela tenha informado aos policiais que trabalhava na "Presidência
da República", jargão usado por arapongas para ocultar
o verdadeiro local de trabalho.
Para
elaborar esta reportagem, VEJA ouviu, nas últimas oito semanas,
quinze fontes da "comunidade de informação". Foram
oito funcionários da Abin, todos de médio escalão
para cima, e sete que pertenceram à agência e hoje
estão oficialmente afastados. No total, somaram-se mais de
trinta horas de conversa. A pedido das fontes, VEJA não revelou
suas identidades. Todas as histórias foram checadas com pelo
menos três fontes, em contatos individuais. Mas, levando-se
em conta as explicações oficiais do serviço
secreto, fica combinado assim: a investigação do procurador
foi iniciativa pessoal de uma soldado, as fitas do BNDES apareceram
num viaduto, o relato detalhado de uma reunião do governador
Itamar Franco foi denúncia de um anônimo, as buscas
atrás do juiz Lalau não foram "muita coisa", as investigações
do Dossiê Cayman resultaram só em "umas parcerias"
e o exame nas contas do ministério de José Serra não
passou de "uma coisa eventual".
|
O
que chega até o presidente
Nelio Rodrigues
 |
| O
Palácio do Planalto: resenha diária e confidencial
|
A
Agência Brasileira de Inteligência foi criada
para dar subsídios ao presidente da República
e ajudá-lo a tomar decisões. Fernando Henrique
Cardoso, portanto, deveria ser informado sobre o resultado
das missões dos arapongas. Na sexta-feira passada,
o presidente disse a VEJA que jamais soube que a Abin vigia
os passos do governador Itamar Franco, que montou o perfil
ideológico de um jornalista ou bisbilhotou a vida de
um procurador. Fernando Henrique informou que, de todos os
casos relatados nesta reportagem, sabia apenas que os arapongas
trataram do tal Dossiê Cayman, o papelório falso
que lhe atribuía a propriedade de contas bancárias
num paraíso fiscal. O presidente também afirmou
que na quinta-feira, um dia antes de falar com VEJA, fora
informado pelo general Alberto Cardoso, o comandante da Abin,
sobre a investigação da emissão de passagens
e diárias do Ministério da Saúde, um
assunto que até então ignorava. A investigação,
que o general só levou ao conhecimento do presidente
na semana passada, ocorreu há praticamente um ano.
Quando assumiu para cumprir seu primeiro mandato, o presidente
Fernando Henrique entregou a direção do setor
de inteligência do governo a Eduardo Jorge Caldas Pereira,
ex-secretário-geral do Planalto. Mais tarde, sob a
denominação de Subsecretaria de Inteligência
(SSI), o órgão foi colocado sob o comando do
general Alberto Cardoso. Especialista na matéria, o
general é um conhecedor meticuloso da obra do filósofo
militar chinês Sun Tzu, autor do clássico A
Arte da Guerra, o primeiro tratado sobre ciência
militar e bélica a discorrer sobre a importância
capital da informação, que se celebrizou pelo
lema: "Conhece o inimigo e a ti próprio e poderás
lutar centenas de batalhas sem perigo de derrota". Com a criação
da Abin, o general Cardoso tornou-se o elo entre as informações
captadas pelos agentes do serviço de inteligência
e o presidente da República. "Nosso esforço
é para que haja uma consciência ética
no serviço de inteligência, com uma atuação
sem preocupações ideológicas ou políticas.
Mas descartar que alguém escape a essa regra é
utópico", afirma ele.
As informações que o general recebe são
transmitidas por dezessete escritórios e doze agências
do órgão no país, que reúnem 900
agentes num total de 1 700 funcionários. O material
vai para o Departamento de Inteligência, que destaca
tudo o que possa ser de interesse do presidente. Em seguida,
as informações são condensadas num relatório
dirigido ao diretor-geral da Abin, coronel Ariel De Cunto,
que o repassa ao general Cardoso, no Palácio do Planalto.
Todos os dias, no fim do expediente, o general se reúne
com o presidente e lhe apresenta o documento na verdade,
uma resenha sobre os mais variados assuntos. Seu conteúdo
é confidencial. Se informações como as
andanças do governador Itamar Franco, a vida privada
de um procurador ou a investigação nas contas
de um ministério não estão no documento
que o presidente recebe, fica a pergunta: por que os arapongas
perdem tempo com isso?
|
|