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Faltam ricos no Brasil

Ilustração Pepe Casals


Qualquer fotografia do senador Jader Barbalho retrata melhor o Brasil do que as fotografias de garimpeiros em Serra Pelada tiradas por Sebastião Salgado. Olhe suas gravatas. Olhe seus cabelos tingidos. Jader Barbalho, com seus 30 milhões de reais, é rico, mas não parece. O mesmo discurso vale para os demais ricos brasileiros: fazendeiros, industriais ou banqueiros. Somos ruins de gente rica. Nossos ricos são inverossímeis. Os pobres são muito melhores. Nada ficam a dever aos pobres do resto do mundo. Temos pobres para todos os gostos: com barriga-d'água, com esquistossomose, com elefantíase; temos pobres que roubam pobres e que matam pobres; crianças pobres brincam em esgotos a céu aberto enquanto outras vivem de recolher lixo; os pobres favelados morrem em desmoronamentos, e os pobres na cadeia morrem asfixiados depois de atear fogo a seus colchões. Estamos bem servidos em matéria de pobres. São iguaizinhos aos de Angola ou da Romênia.

Por isso a fotografia de um pobre brasileiro é menos representativa do que a de um rico: nossos ricos são únicos, exclusivos, muito diferentes dos ricos de fora. Na verdade, pode-se dizer que eles nem existem. Você não tem idéia, por exemplo, das dificuldades para encontrar um ator que interprete o papel de rico num filme. Ninguém sabe se comportar como rico. A culpa não é dos atores, mas dos próprios ricos, que também não sabem se comportar como ricos. Na literatura é a mesma coisa. Nossos escritores sempre fizeram bem os personagens pobres e se estreparam com os ricos. Tanto que o melhor personagem de rico brasileiro nem é de autoria de um brasileiro, mas do compositor francês Jacques Offenbach (1819-1880), em sua opereta La Vie Parisienne. Um nosso milionário, chegando a Paris, canta: Eu sou brasileiro, tenho ouro/ Acabo de chegar do Rio de Janeiro/ mais rico do que nunca/ Ó Paris, Paris!/ Voltei para que você possa roubar/ tudo o que eu roubei no Brasil.

Nenhum país pode viver sem ricos. Eles são insubstituíveis. Não servem apenas para ensinar boas maneiras à mesa, mas também para contrastar várias tendências deletérias da sociedade. Em primeiro lugar, rico não é consumista. Não fica comprando helicópteros para chegar mais cedo ao trabalho. Aliás, rico que é rico nem trabalha. Outra utilidade dos ricos é que eles preservam o patrimônio arquitetônico e natural. Se nossos ricos fossem realmente ricos, não teriam demolido seus casarões para erguer edifícios. E não teriam deixado que se construísse uma usina nuclear em Angra dos Reis, o trecho mais bonito da nossa costa e o maior reduto de milionários pátrios. Os ricos, além disso, têm a inestimável função de esnobar a indústria do entretenimento. Os ricos de Nova York não proibiram Madonna de comprar um apartamento em seu condomínio? Duvido que os brasileiros fizessem algo semelhante com Gugu. Os dois candidatos às últimas eleições a prefeito de São Paulo, Marta Suplicy e Paulo Maluf, são considerados ricos. Fizeram tantas plásticas no rosto que acabaram ficando idênticos. Só que rico não faz plástica. E, sobretudo, não entra em política – manda nos políticos.

Conclui-se que o maior problema do Brasil não é o excesso de pobres, mas a escassez de ricos.

 

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