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Sérgio Abranches

O império dividido

"Como explicar que, com a economia
e a renda crescendo por quase uma
década, o candidato do governo não
empolgue o eleitorado?"


Ilustração Ale Setti


Os eleitores americanos ficaram divididos ao meio entre Al Gore e George W. Bush, isto é que conta. E só a metade deles se dividiu. A outra (48%) não quis sequer escolher entre eles. Simplesmente não participou da mais disputada eleição presidencial de sua História. E a divisão não foi só para presidente: a representação no Senado também ficou meio a meio e na Câmara a vantagem dos republicanos por dez cadeiras. Sociologicamente, a diversidade social dos Estados Unidos não está representada nem na Presidência nem no Congresso. A estabilidade política se deve à mais indireta tradução de votos em poder que a democracia permite. Por isso, a maior nação do mundo pôde ficar suspensa em uma diferença de menos de 2.000 votos, entre mais de 100 milhões de votantes, ou em 25 de 538 delegados. A transposição do voto popular em voto distrital, promovida pelo regime majoritário, espreme a diversidade político-social em estreitíssimo canal, do qual deve sempre sair uma maioria. Mesmo que o preço seja a representatividade do voto popular.

A divisão profunda de seu povo não é novidade nos Estados Unidos. Já deu em sangrenta guerra civil. O sistema político-eleitoral ganhou muita legitimidade, desde então, mas não sem gerar, como agora, perplexidade e dúvida sobre a justiça (fairness) de seus procedimentos. Em grande medida, os que não se sentem representados nesse sistema se alienam dele: 54% diziam ao Gallup, na boca da urna, estar pouco interessados na eleição e 48% de fato nem compareceram. O resultado líquido é a enorme estabilidade das forças – democratas e republicanas – do establishment do poder político, protegidas por inexpugnáveis barreiras distritais à entrada. Essa impermeabilidade do sistema político a novas forças sociais contrasta com o elevado grau de competitividade da economia e com a grande mobilidade social e demográfica. A tal ponto que já existem amplos setores afluentes negros e latinos que, nesta eleição mais que em outras, engordam os votos republicanos.

De qualquer forma, o voto traçou a geografia perfeita do cisma americano: de um lado, os grandes Estados, as grandes cidades, as mulheres, os negros e os latinos; de outro, o interior, os homens, os brancos.

Como explicar que, com a economia e a renda crescendo por quase uma década, o candidato do governo não empolgue o eleitorado? Os dois candidatos tinham pouco apelo. Gore impressionou a metade mais satisfeita que, é verdade, representa apenas um quarto dos americanos adultos. Bush, a outra. A relação entre voto e economia continua firme, mas não foi suficiente, na margem, para decidir a eleição.

Afinal, 77% dos entrevistados na pesquisa da Princeton Survey, para a revista Newsweek, responderam que dariam muita importância à questão da economia e dos empregos ao votar. Só educação (83%) e assistência médica (78%) preocupavam mais. Previdência empatava. Os eleitores também se mostram satisfeitos com a economia: 73% acham que ela vai bem – e 86% estão satisfeitos com o emprego (Gallup), 73% gostam do padrão de vida e 59% acham boa a renda familiar que têm (Princeton Survey). A maior parte dos que votaram em Gore, o fizeram por causa da economia.

Mas os eleitores acham que as responsáveis pela pujança econômica, mais que o governo, são as empresas americanas – 40%, em pesquisa da Rasmusen Research –, em particular a indústria de alta tecnologia – 26%, segundo o Los Angeles Times. Esse mérito não é atribuído nem a Clinton (16%, segundo a Rasmusen Research, ou 14%, segundo o LA Times) nem a Alan Greenspan (13% e 10%).

As questões extra-econômicas foram decisivas. A ambivalência dos americanos em relação a Clinton, a quem 58% desaprovam como pessoa, mas cujo governo é considerado bom por 62%, de acordo com pesquisa do Washington Post. Valores pessoais: 47% acham que Gore é honesto e confiável, e 60% assim avaliam Bush; 58% dizem que Gore tem forte caráter pessoal, e 69% pensam o mesmo de Bush. Afinidade de idéias: 54% têm com Gore e 48%, com Bush. Com o país assim partido, social e politicamente, é difícil imaginar um governo capaz de grandes façanhas. Tudo indica que será médio.

 

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)

 

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