A dívida da nação
para com os cariocas

Pelo seu inconformismo e apego às liberdades
democráticas, o Rio sofreu guerra aberta
do governo federal durante três décadas

Luiza Ruberti

Quem atravessa o centro do Rio de Janeiro depois de não ter passado por ali durante alguns anos vislumbra de um só golpe o massacre arquitetônico e urbanístico perpetrado nas últimas décadas. Nas margens da Guanabara poluída, cercada por monstrengos de concreto, casarões maltratados, camadas de asfalto, viadutos e pela onipresença da sujeira, agoniza a paisagem citadina da corte imperial, da capital da República. Quem era mais pobre subiu os morros, quem era mais rico desceu para a Barra. Uns e outros deram as costas à "cidade". À capital que exerceu, durante um século e meio, uma supremacia cultural, política e econômica que nenhuma outra cidade brasileira jamais virá a ter.

O Império e a República capricharam para arrumar o Rio. Para fazer da capital a vitrina e a sala de aula da nação. Era nas ruas cariocas que o político maranhense, o romancista cearense, a cozinheira baiana, o jornalista mineiro, o militar gaúcho e o imigrante português aprendiam a brasilidade. Se o Brasil não se desmilingüir no meio dessa globalização que vem aí pela frente, será por causa do sentimento nacional que fermentou no Rio por um século e meio. Agora, a cidade histórica está ameaçada.

Poder-se-ia falar da má sina destruidora que ronda as antigas capitais americanas, alcançando a Cidade do México e até Washington. Daria para lembrar também o problema mais geral das inner cities que esquartejam os grandes centros tradicionais, formando enclaves de luxo para cidadãos privilegiados. Zonas de shopping centers, residências de guarita, escritórios conectados com o resto do mundo e apartados da cidade em que se situam. Seria ainda o caso de assinalar o fenômeno do cocooning, o encasulamento que bateu nos enricados do Ocidente, depois do crash da Bolsa de Nova York em 1987. Diante da incerteza e da hostilidade do mundo exterior, o indivíduo se encasula em sua casa, instala computadores, Internet, home-theatre, transforma o lar em lugar de descanso, trabalho e lazer. Para moradores das inner cities ou para os defensores do cocooning, pouco importa que o centro histórico de sua cidade vá para o brejo, que os cinemas acabem em depósitos e os bares virem inferninhos.

Mas há mais coisa no azar do Rio. Há o fato, indiscutível, de que a cidade sofreu guerra larvada e guerra aberta do governo federal durante três décadas. Desde a eleição de Negrão de Lima ao governo do então Estado da Guanabara, em 1965, até o final do último mandato de Leonel Brizola, em 1994, o Rio de Janeiro, como cidade-Estado, ou como capital fluminense, sofreu porque fazia oposição ao governo instalado em Brasília. Está certo que esses governadores, passando por Chagas Freitas e Moreira Franco, não foram sempre grandes varões republicanos. Mas o eleitorado carioca fez o que pôde, com quem se apresentava nas eleições, e acabou sendo punido pelo que tinha de bom: pelo seu inconformismo e seu apego às liberdades democráticas. Sem ser consultado, o carioca recebeu o Estado do Rio em 1975. Arrombou-se o orçamento estadual unificado, foram surrupiados três postos de senador e nenhuma ajuda veio do governo federal. Muito pelo contrário.

Hoje em dia, o Brasil democrático está consertando como pode as injustiças cometidas pela ditadura. O governo federal, tirando as conseqüências práticas das decisões da Justiça e da anistia votada pelo Congresso, indeniza as famílias dos desaparecidos políticos. Talvez fosse oportuno criar um fundo federal para indenizar a cidade do Rio dos desmandos do autoritarismo. A nação reconhecida aplaudiria.




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