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| Javier
Marías: memorialismo à Proust |
Perplexo e
paralisado diante do cadáver, ele decide tomar uma
atitude drástica: não tomar atitude alguma. Em torno
dessa situação em que nada se consumou
nem o amor, nem a infidelidade, nem a traição
,
vão se avolumando as memórias do protagonista-narrador,
que se revela mais ordinário do que imaginava ser, mais
comum do que se pretendia, mais infeliz do que supunha.
De especial ele tem apenas o seu jocoso pecado, e a
idéia de dividi-lo lhe surge como o caminho para a
redenção. Começa, então, a seguir os familiares da
morta e deles se aproxima como uma sombra que busca o
corpo. Ao se por em contato com pai, irmão e tios da
morta
e nesse ponto o romance é
extraordinário
, a narrativa
transforma-se num impressionante jornal da vida cotidiana
da modernosa Espanha pós-franquismo.
Frases
rebuscadas
Embora este seja o seu segundo
romance publicado no país
o
primeiro foi Coração Tão Branco
,
Javier Marías ainda é uma novidade tanto para a
crítica quanto para o público brasileiros. Desde os
anos 80 seus romances são regularmente traduzidos na
Inglaterra, França, Itália, Holanda e Grécia. Mesmo
sendo um romancista de certa dificuldade
suas frases são caudalosas e rebuscadas
,
Javier Marías é desses escritores que fazem diferença.
É meio como Rubem Braga: tem o dom de nos encantar mesmo
quando escreve sobre coisa nenhuma, que é o caso de Amanhã,
na Batalha, Pensa em Mim. Esse título é
literalmente uma frase de Ricardo III, de Shakespeare,
coisa que o próprio autor explica no posfácio, não se
sabe se por compaixão pelos leitores ou se por
desconfiar da perspicácia dos críticos. Não importa. O
que importa é a semelhança do nosso cotidiano moderno
com a batalha do narrador Víctor Francés
uma batalha perdida, diga-se.
Hamilton dos Santos
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S.A. |