Para ler e gostar

Um bom romance espanhol com tintas intimistas

A literatura espanhola nunca foi pródiga em dramas psicológicos: de Cervantes a Vázquez Montalbán, é fortemente marcada pela face idealista e aventureira do espírito humano. Em Amanhã, na Batalha, Pensa em Mim (tradução de Eduardo Brandão; Martins Fontes; 377 páginas; 34,50 reais), o romancista madrileno Javier Marías rompe com essa tradição, aproximando-se de Marcel Proust, que levou a literatura para atrás da maçaneta, para o espaço fechado.
Javier Marías:
memorialismo à Proust
A escrita de Marías é igualmente obcecada pelo memorialismo infinitesimal, clichê que a crítica inventou para dizer que o francês tirava leite de pedra. No caso de Amanhã, na Batalha, o leite é o virtuosismo literário com o qual o autor cerca a bizarra situação em que se mete o protagonista Víctor Francés. Escritor medíocre, metido a roteirista na verdade é um ghost writer que quebra galhos de empresários e políticos imbecis , Francés vai jantar na casa de uma certa Marta Téllez, cujo marido acaba de viajar a negócios para Londres. Mal digerem a paella e lá vão os dois para o quarto, dispostos a preencher com sexo o tédio de uma noite de inverno. Quando o leitor pensa que está mergulhando em mais uma daquelas deliciosas aventuras eróticas da atual produção literária espanhola, a mulher cai morta nos braços de Francés.

Perplexo e paralisado diante do cadáver, ele decide tomar uma atitude drástica: não tomar atitude alguma. Em torno dessa situação em que nada se consumou nem o amor, nem a infidelidade, nem a traição , vão se avolumando as memórias do protagonista-narrador, que se revela mais ordinário do que imaginava ser, mais comum do que se pretendia, mais infeliz do que supunha. De especial ele tem apenas o seu jocoso pecado, e a idéia de dividi-lo lhe surge como o caminho para a redenção. Começa, então, a seguir os familiares da morta e deles se aproxima como uma sombra que busca o corpo. Ao se por em contato com pai, irmão e tios da morta e nesse ponto o romance é extraordinário , a narrativa transforma-se num impressionante jornal da vida cotidiana da modernosa Espanha pós-franquismo.

Frases rebuscadas Embora este seja o seu segundo romance publicado no país o primeiro foi Coração Tão Branco , Javier Marías ainda é uma novidade tanto para a crítica quanto para o público brasileiros. Desde os anos 80 seus romances são regularmente traduzidos na Inglaterra, França, Itália, Holanda e Grécia. Mesmo sendo um romancista de certa dificuldade suas frases são caudalosas e rebuscadas , Javier Marías é desses escritores que fazem diferença. É meio como Rubem Braga: tem o dom de nos encantar mesmo quando escreve sobre coisa nenhuma, que é o caso de Amanhã, na Batalha, Pensa em Mim. Esse título é literalmente uma frase de Ricardo III, de Shakespeare, coisa que o próprio autor explica no posfácio, não se sabe se por compaixão pelos leitores ou se por desconfiar da perspicácia dos críticos. Não importa. O que importa é a semelhança do nosso cotidiano moderno com a batalha do narrador Víctor Francés uma batalha perdida, diga-se.

Hamilton dos Santos




Copyright © 1997, Abril S.A.

Abril Online