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Montagem de Sérgio Britto para Morte Acidental de um Anarquista (1980): provocação a partir de episódio real |
| Foto: Amiccuci Gallo |
Um Nobel de
Literatura é sempre uma surpresa, em todos os sentidos,
mas o anúncio na última quinta-feira pela Academia
Sueca superou qualquer expectativa. Em vez de apontar ao
mundo escritores de imenso talento que ninguém conhece
porque escrevem em línguas de países pobres, como o
egípcio Naguib Mahfuz, Nobel de 1988, por exemplo, a
academia fez uma estréia espetacular num ramo que nunca
foi o seu
o da arte popular. Dario Fo, de 7l
anos, o sexto italiano a ganhar o prêmio e integrante da
minoria de dezesseis dramaturgos numa lista de 79 poetas,
romancistas e ensaístas já laureados, é imensamente
aplaudido em vários países através das quase setenta
peças que escreveu, dirigiu e interpretou. Teve seu
momento de sucesso com Morte Acidental de um
Anarquista, sucesso de público inclusive no Brasil
mas que nem seus admiradores mais fanáticos são capazes
de classificar de obra-prima de valor universal. Dario Fo
é um bom artista das boas causas, tem uma folha
irreparável de bons serviços prestados ao progresso da
humanidade
mas ocupa na literatura
italiana o lugar digno de um Gianfrancesco Guarnieri, e
não de um gigante de estatura maior.
Numa outra inovação, a academia afirmou sem meias palavras que entregava a Fo a honraria e a quantia de 1 milhão de dólares porque ele ressuscitou a grande tradição dos saltimbancos medievais. E mais: "Se existe alguém que mereça o epíteto de jogral na verdadeira acepção do termo, ele é Dario Fo. Mesclando o riso e a gravidade, fez com que muitos tivessem consciência da seriedade dos abusos e das injustiças da vida social", diz uma nota distribuída para justificar o prêmio.
"Estou
boquiaberto", boquiabriu-se Fo, num daqueles
sorrisos irônicos de clown italiano. Depois, mais
sério, disse: "Acho que ganhei o prêmio pelo
trabalho de toda uma vida, pela minha coerência".
Foi um deus-nos-acuda, também em todos os sentidos. O
jornal do Vaticano L'Osservatore Romano saiu na
frente puxando o cordão dos revoltados. "Um prêmio
desses é algo que vai além da imaginação",
escreveu. Outros ganhadores do Nobel mostraram cruamente
que não têm nenhuma solidariedade. O romancista-poeta
americano de origem polonesa Czeslaw Milosz, premiado em
1980, disse que "este senhor me é totalmente
desconhecido"
faltou acrescentar que,
se essa é mesmo uma questão relevante, mesmo após o
prêmio, para a maioria das pessoas o nome Czeslaw Milosz
segue mais parecendo marca de antibiótico do que nome de
poeta. A poetisa Wislawa Szymborska, ganhadora do ano
passado, não só conhecia o novo colega como afirmou que
o premiado de l997 ridiculariza a academia, a ela
própria e a todos os demais laureados.
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| Foto: Jose Antonio |
| Fagundes: verve |
Estupro e
glória
Dario Fo, primeiro dos três filhos
de um ferroviário socialista que era também ator
amador, nasceu em Sangiano, uma vila de pescadores do
norte da Itália. Ainda pequenos, ele e os irmãos
construíam bonecos e encenavam farsas com eles. Fo
participou da Resistência italiana e passou quatro anos
ajudando prisioneiros aliados a escapar para a Suíça
pelos Alpes. Com o fim da guerra, estudou arquitetura,
desenhou cenários de teatro e passou a representar, numa
trajetória comum em um país de tantos saltimbancos e
bufões.
Sua companhia, a Dario Fo-Franca Rame, nome da atriz com quem se casou em 1954, ganhou fama ao satirizar a burocracia e os maus costumes da sociedade italiana. Os dois eram ligados ao Partido Comunista, foram perseguidos por vários governos e ficaram proibidos de aparecer na televisão. Eles só receberam visto de entrada para os Estados Unidos em 1984, no dia seguinte em que Ronald Reagan foi reeleito, e Fo saudou "o gesto de solidariedade para com dois de seus colegas". Nos anos difíceis da caça ao terrorismo na Itália, eles defenderam os presos políticos e, em um episódio dramático, Franca Rame foi seqüestrada e estuprada por uma gangue neofascista.
Esquerdistas e inimigos do chamado sistema chegaram a ficar desconfiados do sucesso excessivo. "Percebemos que a classe média saía de nossos espetáculos sentindo-se aliviada, orgulhosa e até democrática. Tínhamos virado o antiácido da burguesia italiana", disseram em coro. Foram então procurar estádios, fábricas e igrejas em busca de outro público.
A essa platéia serve um misto de pastelão, humor escatológico, sarcasmo, crítica ao comportamento cotidiano e uma amargura subjacente a tudo isso. "Teatro popular é falar do dia-a-dia. Por isso o teatro italiano é tão ruim, afastado da realidade, velho, cansado. Meu teatro é popular-progressista, mas politicamente considero-me neutro", diz Fo, que adora exibir bom humor em suas entrevistas.
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| Foto: Fernando Ferreira | |
| Como diretor de ópera, Fo deu sua visão para O Barbeiro de Sevilha (à esquerda). À direita, Osmar Prado em cena de O Fabuloso Obsceno: desafio para os colegas | |
Um
ator único
Ele produz textos que nascem de uma
tradição de todos os países, o do contador de
histórias. Servem-se de italianismos e arcaísmos
difíceis de entender na sua própria terra. Às vezes
esbarram no surrealismo e no terror. Entre as peças
conhecidas do público brasileiro, História da
Tigresa, dirigida e interpretada em 1985 por Maurice
Vaneau, dá ao ator a chance de virar fera: um soldado
chinês ferido refugia-se na caverna de um tigre,
interpretando depois o próprio animal e seu filhote. Um
Orgasmo Adulto Escapa do Zoológico foi encenada em
1984. A peça mostra cinco mulheres, todas revoltadas
uma operária preocupada com as tarefas caseiras, uma
dona de casa presa em um apartamento pelo marido
ciumento, uma prostituta internada no hospício, uma
jovem mãe que conta uma história à filha e a
terrorista alemã Ulrike Meinholf
,
e foi representada com apenas dois atores, Denise Stoklos
e Miguel Magno, de travesti. O Fabuloso Obsceno,
interpretado por Osmar Prado em 1995 e 1996, exigiu do
ator sete meses de estudo de técnicas circenses.
"No palco trabalhamos com o mínimo de recurso e o
máximo de comunicação. Fo propõe outra espécie de
valor, enfatizando a ternura e a comunicação",
comenta Osmar Prado.
Não é fácil encarnar os personagens de Dario Fo. Sérgio Britto, que interpretou Morte Acidental de um Anarquista no Rio de Janeiro, em 1980, sentiu isso na carne: "O grande problema de suas peças é que ele é um ator tão bom que ninguém interpreta seus personagens tão bem quanto ele". Na peça mais conhecida de Fo, escrita em 1970 e baseada em um fato real, ocorrido em Nova York em 1921, um louco entra em uma delegacia, vive dezenas de personagens e acaba por desmascarar um crime da polícia contra um anarquista inocente. O bobo da corte transforma-se aos poucos em justiceiro. Antonio Abujamra, que dirigiu Orgasmo e a versão de Morte em São Paulo, com Antonio Fagundes, longo sucesso entre 1982 e 1984, comenta: "Fizemos a Morte numa época em que o artista tinha a obrigação de atuar dentro da sociedade brasileira. Graças ao talento de Fagundes, o público se envolvia de forma surpreendente, manifestando sua indignação contra o governo militar do modo mais espontâneo que se possa imaginar. As palavras de Fo podem não ter um peso dos grandes clássicos, mas conseguem atingir uma liberdade criadora completa". Esse foi o trabalho que a academia sueca premiou. Não um insuperável artesão da linguagem, o artista que mata o público de emoção e os rivais de inveja, mas aquele autor eficaz e competente, capaz de escrever peças que viajam de um país para outro, de uma época para outra, e sempre se encaixam numa situação de opressão.
Uma nova
era
Sem o gabarito de outros notáveis da ribalta,
premiáveis por outros critérios, como os ingleses Tom
Stoppard e Harold Pinter ou o americano Edward Albee, o
texto de Fo tem um horizonte social sempre definido, um
mapa político evidente
e
se apóia num artesão que conhece seu trabalho como
poucos. Quando ele esteve em São Paulo, em 1989, para
dirigir a ópera O Barbeiro de Sevilha, o crítico
Décio de Almeida Prado foi assistir a uma conferência
sua sobre a commedia dell'arte e saiu impressionado.
"Nunca vi coisa igual", lembra. "Ele
demonstrou o que dizia com um domínio corporal e
recursos de voz fora do comum." Outro crítico,
Sábato Magaldi, vai além do que chama de "verve
farsesca fora do comum" de Fo. "Ele dá tiros
para todos os lados e o que diz parece irrespondível. O
que Fo fustiga realmente é para ser fustigado. Defende o
que deve ser defendido, não digo nem que está do lado
do homem comum pobre, mas da própria existência
humana."
Felizmente essa
alquimia tão rara entre estética e ética não
despertou apenas reclamações
mas entusiasmo. O escritor americano Henry Taylor,
possuidor de um prêmio Pulitzer, comentou com
mordacidade: "Nunca ouvi falar de Fo, mas com
certeza deve ser muito melhor do que Pearl Buck" (a
sua conterrânea premiada em 1938, numa das tantas bolas
fora da academia). Franco Zeffirelli, que transita pelo
teatro, pelo cinema e pela ópera, gostou e, com alguma
perversidade, afirmou que "ruim seria se apenas
tivessem sorteado um italiano para este ano e escolhessem
Umberto Eco".
Na verdade, o
prêmio a Dario Fo apenas lembra à humanidade que o
Nobel talvez já não seja mais o mesmo. Assim como a
literatura se modificou desde sua criação, em 1901, os
escritores mudaram e o público também. Como saudou o
jornal sueco Dagens, a premiação de Fo pode ser
o prenúncio de uma nova era da instituição, alargando
enormemente o campo de grandes artistas nunca
recompensados, principalmente cineastas e cantores.
"Desde já lançamos nossos candidatos: Ingmar
Bergman e Bob Dylan", escreveu em editorial. Não é
preciso esperar. O Nobel da Paz, anunciado no dia
seguinte, foi para a campanha contra as minas de guerra
estrelada pela princesa Diana.
Copyright © 1997, Abril
S.A. |