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Levada por uma cigarra, a bactéria contamina o laranjal: frutos secos e folhas amareladas |
| Foto: Geraldo Hasse |
Especialistas das principais universidades e laboratórios do país estão sendo convocados para o primeiro megaprojeto 100% nacional na área de biologia molecular. Ao longo dos próximos dois anos, os cientistas estarão decifrando o código genético de um ser vivo que produz grande prejuízo para a lavoura, a Xylella fastidiosa, uma bactéria que ataca as culturas de laranja, provocando uma doença conhecida como amarelinho. O objetivo é conhecê-la a fundo para depois destruí-la. O que os especialistas estarão fazendo é analisar o DNA da bactéria para desvendar a lógica do seu funcionamento. O DNA da Xylella contém 2 milhões de informações diferentes. Ao final do estudo se conhecerá cada uma de suas características físicas e mecânicas, e também as reações químicas que ocorrem no organismo. O desafio é grande e o projeto, monstro, porque o máximo que os cientistas brasileiros conseguiram até hoje foi decifrar o conteúdo genético de um vírus com apenas 10000 informações.
Com 12 milhões de dólares de orçamento, o projeto ainda não tem nome, mas já é patrioticamente chamado de Genoma brasileiro. O Genoma é um projeto americano orçado em mais de 6 bilhões de dólares que está fazendo o mesmo trabalho, só que com o corpo humano. Iniciado há oito anos, o Genoma envolve os melhores cérebros da área de genética humana, inclusive alguns brasileiros, e promete estar concluído em 2004. Alguns desses grandes nomes estarão vindo ao Brasil para dar consultoria ao projeto da Xylella. "Já era tempo de o Brasil ter o seu próprio Genoma", orgulha-se José Fernando Perez, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, órgão que está financiando a pesquisa.
Para a comunidade científica nacional, o projeto é muito importante. Como não tem experiência em biologia molecular, o Brasil acaba ficando em segundo plano nas parcerias internacionais que assina. Quando vai estudar, juntamente com cientistas de outros países, a biodiversidade da Amazônia, por exemplo, resta aos brasileiros o papel de coletar os dados. A análise científica propriamente dita acaba ficando com os estrangeiros. O novo projeto pode melhorar a reputação da pesquisa brasileira na comunidade internacional.
Os Estados de São Paulo e Minas Gerais produzem mais da metade do suco concentrado de laranja consumido no mundo. A cultura desse cítrico rende ao país cerca de 5 bilhões de dólares. O prejuízo dos produtores com o amarelinho, só no ano passado, chegou a 100 milhões. Levada por uma cigarra, a bactéria contamina o laranjal que produz frutos sem sumo, que não servem para o comércio. Inseticidas, remédios e mesmo podas preventivas não são suficientes para detê-lo. A única esperança dos produtores é que a engenharia genética encontre uma saída para o problema, que é cada vez mais ameaçador. "Nossas pesquisas apontam que a próxima cultura a ser atacada pelo amarelinho é o café", diz Antonio Juliano Ayres, engenheiro agrônomo do Fundecitrus.
Valéria França
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