Um novo templo

Universal do Reino de Deus inaugura
em Curitiba a primeira de dez megaigrejas

Daniel Nunes Gonçalves e Roberta Paixão

Catedral do Rio, que deve custar 30 milhões de reais, e a de Brasília: obra comandada por firma da casa

A Igreja Universal do Reino de Deus está mudando de estratégia. Na semana passada, sem fazer alarde, a igreja do bispo Edir Macedo inaugurou em Curitiba um templo zero bala, bonitão e bem-acabado, que promete ser o primeiro de uma série de dez megatemplos que serão erguidos até o ano 2000. A chamada Catedral da Fé de Curitiba possui berçário, estacionamento subterrâneo e sistema de isolamento acústico para não incomodar os vizinhos. Muito diferente dos outros 3.500 templos que a Universal tem no Brasil e no exterior, quase todos funcionando em cinemas falidos, galpões vazios, teatros velhos ou boates desativadas, o prédio do Paraná promete ser o início de uma nova era. Os dez prédios em projeto são construções luxuosas, com mármore e vidro fumê, iluminação controlada por computador e ar condicionado central. As três principais terão capacidade para cerca de 10.000 pessoas cada uma e representam investimento de 42 milhões de reais. "Não podemos ficar eternamente em cinemas poeirentos. Precisamos dar conforto aos fiéis", explica o bispo Carlos Rodrigues, coordenador político da Universal.

Templo de Curitiba:
com berçário
Foto: Jader Rocha  

O projeto dos templos chama a atenção. No Rio de Janeiro, a igreja está erguendo o maior deles, com capacidade para 10.000 pessoas sentadas em cadeiras estofadas. A nave principal terá a altura de um prédio de oito andares e área de 52.000 metros quadrados. A obra será cheia de referências bíblicas. No jardim haverá um caminho de pedras azuladas, uma alusão ao Rio Jordão. O muro imitará as Muralhas de Jericó. O revestimento do prédio será de pedra bege, como nas construções de Jerusalém. Para proteger os fiéis do calor do verão, haverá um sistema de ar condicionado automático que adaptará a temperatura ao tamanho do rebanho presente. Em volta do edifício será construído um pequeno shopping center. O preço final pode chegar a 30 milhões de reais.

Em São Paulo, a igreja construirá três templos, o primeiro dos quais a ser inaugurado no início de 1998. Diferentemente das igrejas comuns, ele terá estrutura apropriada para que os cultos possam ser transmitidos pela Rede Record, emissora da Universal. Nas paredes, como num estúdio de cinema, serão colocados trilhos para que as câmaras possam percorrer a igreja de um lado para o outro filmando. Em Brasília, quem presta atenção às linhas do projeto do novo templo, feito pela firma RR Roberto, vê que ele foi inspirado na Opera House, que fica em Sydney, na Austrália. O templo terá uma cúpula de 70 metros de envergadura, forrada de mármore branco. A nave principal ficará no subsolo, e, do lado de fora, a altura aparente será de apenas 15 metros. Na porta de entrada, o slogan "Jesus Cristo é o Senhor" será projetado permanentemente por um canhão laser sobre a placa com o nome da igreja. A obra é tão grande que os fiscais do Patrimônio Histórico de Brasília pediram modificações da planta, alegando que ela supera o tamanho permitido pelas leis municipais. Todos os templos terão estacionamento próprio, com a entrada de carros controlada por computador.

Firma da casa Desde o início do cristianismo, sabe-se que somar pedra sobre pedra, construindo grandes monumentos, é uma forma de dar ao seguidor a idéia de solidez e segurança. Nos Estados Unidos, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, dos mórmons, começou como uma seita rural que se reunia em modestas casinhas de madeira. Quando cresceu, construiu imensos templos de mármore, como sua sede, no Estado de Utah, nos Estados Unidos. "A Universal vive um momento de consolidação", admite o pastor Caio Fábio D'Araújo Filho, presidente da Associação Evangélica Brasileira e adversário histórico do bispo Macedo. "Ela quer adquirir o respeito da sociedade, erguendo construções imponentes", analisa o sociólogo Ricardo Mariano, da USP, estudioso das igrejas evangélicas.

Os novos templos são bem maiores que a média das igrejas católicas e evangélicas do país. O templo carioca comporta dez vezes mais gente que a Catedral da Sé, em São Paulo, ou duas vezes mais que a Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro, onde o papa João Paulo II foi recebido no início do mês. Mas o que chama a atenção mesmo é o luxo. Para fiscalizar as obras, Edir Macedo encarregou uma pessoa que é sua imagem e semelhança, o bispo Marcelo Crivela, seu sobrinho. Engenheiro, Crivela encomendou os projetos de arquitetura, pilotou a aquisição dos terrenos e contratou as empreiteiras. Fez isso por intermédio de uma empresa de engenharia de sua propriedade, a Unitemple. Estima-se que a Unitemple esteja administrando uma verba de cerca de 50 milhões de reais.




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