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A residência do embaixador americano em Brasília, onde Clinton vai dormir: obsessão de segurança constrange |
| Foto: Ricardo Stuckert |
Com essa disputa na
mesa, a visita de Clinton já registraria considerável
nível de tensão, potencializado pelas jogadas
americanas que pretendem, até agora com sucesso,
manipular a Argentina do presidente Carlos Menem como um
terceiro elemento do triângulo, destinado a manter o
Brasil em permanente estado de nervos. De qualquer
maneira, a diplomacia brasileira esperava que a empatia
entre Clinton e FHC, dois homens de bem com a vida,
consigo mesmos e com seus interlocutores, funcionasse. Os
dois trocariam gestos amistosos e, entre sorrisos,
concordariam em continuar discordando. Escorregões
diplomáticos, cevados na arrogância americana, no
entanto, acabaram azedando o clima da visita de maneira
surpreendente. Com a sutileza de um marine em dia de
invasão, o embaixador Melvyn Levitsky desatou a falar
bobagens. "O grande prêmio da Alca para o Brasil é
a entrada na economia americana", disse ele, como se
tratasse com um bando de parvos, ignorantes dos riscos da
entrada em massa e sem peias dos americanos na economia
brasileira. "O governo brasileiro tem a obrigação
de participar da Alca porque assinou a Declaração de
Miami", emendou. É fato
hoje lamentado nos mais altos escalões
que o Brasil, durante o governo de Itamar Franco, aderiu
ao compromisso genérico de criar a Alca a partir de
2005. Mas o governo brasileiro já disse e repete sem
parar que quer empurrar a coisa bem mais para adiante e
tem todo o direito de fazê-lo.
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Helicóptero chega de avião: comitiva de 1100 pessoas e briga por causa de bazucas |
| Foto: Ricardo Stuckert |
Go home
Aos desaforos do embaixador, atribuídos a uma
personalidade rude, pelo menos no tocante à forma,
somou-se outra encrenca: a menção à "corrupção
endêmica" existente no Brasil, feita de passagem
num documento de 158 páginas preparado pela mesma
embaixada do senhor Levitsky e destinado a empresários
americanos interessados em conhecer o país. Fora de
contexto, a divulgação de um relatório informativo
falando vagamente em corrupção talvez fosse rapidamente
assimilada. Ainda mais porque o documento da diplomacia
americana atesta que o Brasil vem melhorando sua
posição no ranking mundial da safadeza pública, que é
publicado anualmente pela Universidade de Goettingen, na
Alemanha
embora não cite que os Estados
Unidos vêm piorando (em 36º lugar na lista
deste ano, o Brasil melhorou quatro posições em
relação a 1996, e os Estados Unidos, em 16º, pioraram
uma). Com o pano de fundo de uma visita do presidente
americano ao Brasil, na qual se discute uma disputa
comercial séria, o relatório remexeu o caldeirão de
sentimentos antagônicos que se julgava sepultado e fez
reaparecer um clima de yankees go home, em que
até as exigências da segurança de Clinton foram
magnificadas como expressão do imperialismo do Grande
Irmão do Norte. Num repente de resistência foquista à
invasão dos gringos, o presidente do Supremo Tribunal
Federal foi para a linha de frente: avisou que não iria
ao jantar oferecido por FHC a Clinton nesta
segunda-feira.
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Embaixador Levitsky: sutileza de marine e recuo nos palpites infelizes sobre o país |
| Foto: Ana Araujo |
Levitsky passou o resto da semana tentando consertar o estrago causado pela agressividade insensata, justamente em relação ao governo de um presidente brasileiro que vê os Estados Unidos com a maior simpatia, sentimento este amparado em contratos zilionários para a indústria americana, como o do Sivam, e numa conta comercial favorável aos Estados Unidos já batendo na casa dos 5 bilhões de dólares. Primeiro, o embaixador mandou retirar a palavra "endêmica" do documento. Pela nova versão, a corrupção no Brasil seria apenas "persistente". Na sexta-feira, como o rufar dos tambores só aumentava, o embaixador baixou a guarda e qualificou o relatório de "inoportuno". A semana acabou com a sensação forte de que mais um pouco de ousadia e Levitsky acabaria admitindo que "inoportuno", sim, é falar de corrupção agora, não no Brasil, mas nos Estados Unidos. Nada mais fácil. Clinton e sua mulher, Hillary, têm no momento catorze amigos, associados, ex-sócios ou aliados políticos recolhidos em penitenciárias, sendo processados ou em liberdade vigiada, por envolvimento numa obscura transação imobiliária e financeira no tempo em que o presidente governava o Estado de Arkansas. No campo mais pantanoso ainda das contribuições de campanha, ele e o vice, Al Gore, são suspeitos de ilegalidades. No episódio mais recente e comprometedor, o presidente é acusado de obstruir a Justiça por não ter entregue a tempo fitas de vídeo com cenas da caça ao dinheiro em plena Casa Branca.
A direção da riqueza
A
idéia de atribuir o clima azedo à inabilidade de um
embaixador, no entanto, não teve aceitação
incondicional. "Não acredito que tenha acontecido
um descuido, pois a diplomacia americana é profissional
e cuidadosa", diz Paulo Cunha, presidente do grupo
Ultra e amigo de jantares freqüentes com o presidente
Fernando Henrique. "O que se fez foi deixar o nosso
presidente constrangido por motivos políticos numa hora
em que é preciso ser firme, pois se trata de debater
questões comerciais." Esse, evidentemente, é o
verdadeiro debate
um problema real, sério,
de grandes implicações para a vida e o bolso dos
brasileiros. Um projeto aparentemente sonhador da
diplomacia pan-americana que começou a ser arquitetado
há três anos, a Alca até hoje gerou apenas conversas
inflamadas, contra e a favor, de ambos os lados da linha
do Equador.
Em sua concepção original, a Alca derrubaria as barreiras comerciais entre os países do continente, do Canadá à Argentina. Produtos e serviços fluiriam entre as fronteiras dos países americanos sem restrições nem impostos. Como conseqüência quase imediata, os preços internos cairiam e economias hoje subjugadas pela inoperância e pela falta de opções, como as do Paraguai, da Bolívia e da Colômbia, receberiam um impulso novo e teriam chance de escapar da estagnação. Se o projeto for para a frente, a Alca criará o que se chama de um "bloco econômico", mais ou menos como o que brevemente unirá de vez os países europeus e semelhante ao que está sendo montado pelas economias asiáticas. O bloco da Alca teria mais de 700 milhões de consumidores e abarcaria uma riqueza da ordem de 9 trilhões de dólares. Seria tão grande quanto o bloco asiático e muito maior do que a União Européia. "Há países que assinariam qualquer coisa no dia seguinte, como os da América Central ou a Colômbia, que só têm a ganhar no mercado americano", diz Roberto Teixeira da Costa, presidente do Conselho de Empresários da América Latina, Ceal.
As Américas, porém, abrigam países mais consolidados, ricos e complexos, como Brasil, Argentina e Chile, que têm enormes dúvidas sobre em que direção a riqueza vai correr quando o soro da economia americana for enfiado em suas veias. Os Estados Unidos querem iniciar a transfusão já. O Brasil acha que só pode começar a aderir a partir do ano 2005, quando o acordo regional do Mercosul que une Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai e Bolívia estiver consolidado. Isso se tudo der certo. Do contrário, o Brasil pode saltar fora. "Se durante as negociações para a Alca o Brasil não ficar satisfeito com os resultados, se as conversações não levarem a uma melhoria efetiva do nosso acesso aos mercados mais desenvolvidos do continente, não iremos entrar", declarou na sexta-feira passada o ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, avançando um passo mais ousado em relação à estratégia protelatória vigente até agora. Lampreia explica as bases do raciocínio. O Brasil já tem um relacionamento comercial intenso com a Europa e o Mercosul e não pretende sacrificá-lo em benefício da Alca. Com a ampliação desse relacionamento multilateral, prevista em uma nova rodada de negociações no âmbito da Organização Mundial do Comércio, em 1999, o mercadão continental ficaria esvaziado. "Se seguirmos em uma negociação ampla, com vários países, as conversações sobre a Alca perdem sentido", diz o chanceler.
Chupa-cabras
Tudo indica que, fora uma desmunhecada inesperada de
Carlos Menem diante do charme americano, a Argentina
feche posição com o Brasil. Clinton encontrará em
Brasília e Buenos Aires o mesmo discurso contrário à
derrubada radical de tarifas. Até que se fortaleça a
união comercial do Mercosul e seu 1 trilhão de dólares
de PIB, a conclusão unânime no Brasil e na Argentina é
de que a Alca seria hoje uma sangria nas economias de
ambos os países. A maneira hábil como os Estados Unidos
têm manipulado o governo Menem, no entanto, deixava
espaço para um bocado de ansiedade a respeito de seu
comportamento face ao encanto e às benesses despejados
em ampla dose por Clinton. Na interpretação do alto
escalão do governo brasileiro, os americanos adoram ter
nas mãos um Menem fragilizado politicamente por
escândalos de corrupção, fortemente escorado na
"aliança especial" com os Estados Unidos e,
assim, suscetível a ser usado para enfraquecer a
posição do Brasil.
A diplomacia
brasileira apostava que prevaleceria, em Buenos Aires, o
interesse argentino em não apressar o mercadão. O pavor
da Alca tem duas frentes. A primeira é a de que a
simples erradicação das tarifas funcione como o
chupa-cabras nos setores mais frágeis. "Bancos,
escritórios de advocacia, correios, transportadoras não
teriam condições mínimas de enfrentar a concorrência
direta com seus similares americanos", diz o
advogado Durval Noronha De Goyos Junior, especialista no
comércio internacional. Setores como a indústria
automobilística, a siderurgia e mesmo a petroquímica
não resistiram ao embate com os produtos americanos
vendidos aqui sem tarifa. Para os consumidores seria uma
festa, talvez de vida curta. Para quem precisa dos
empregos gerados por esses setores seria um desastre, sem
sequer o acolchoado oferecido ao México, depois do
Nafta, pelas célebres maquiladoras
como vizinho do gigante americano, a distância não pesa
no preço final dos produtos vendidos nos Estados Unidos.
Guerra de
preços
A segunda onda de calafrios é
provocada pela prática americana de criar barreiras não
alfandegárias para os produtos importados, que poderia
perpetuar-se, com novos disfarces, mesmo com a Alca.
Calcula-se que o Brasil venha perdendo anualmente de 2,5
a 3 bilhões de dólares de divisas por conta dessas
barreiras. Elas funcionam sutilmente. Sob acusação de
que a carne brasileira tem aftosa, os americanos barram
sua entrada. A soja brasileira contém um grau de umidade
que eles consideram incompatível com seus padrões.
Nossa gasolina polui mais do que o permitido pelas leis
ambientais americanas. "Muitas dessas
barreiras são legais, o que não as impede de ser
tremendamente injustas", diz Marcus Vinicius Pratini
de Moraes, presidente da Associação de Comércio
Exterior do Brasil.
A política do
governo brasileiro de ir devagar com o andor da Alca
encontra uma impressionante aprovação. O coro é
unânime: o país precisa de tempo para ajustar a sua
economia, não dá para abrir tudo agora, muito menos em
tempos de déficit comercial nas alturas. E os Estados
Unidos, por que estão tão ansiosos? "A pressão e
a pressa americanas se devem ao fato de a indústria
deles estar numa fase exuberante. Eles precisam de
mercados", diz Bolívar Lamounier, cientista
político, diretor do Instituto de Estudos Econômicos e
Políticos de São Paulo. Existem outras razões. Os
americanos, em primeiro lugar, temem que o Mercosul se
torne um cliente preferencial da União Européia.
"A América Latina é um mercado natural para nós,
mas não podemos achar que ele já foi conquistado",
dizia na semana passada Thomas McLarty, assessor especial
de Clinton e interlocutor de Lampreia e de Fernando
Henrique, com quem foi acertado que não haveria um
comunicado conjunto ao fim dos encontros entre os
presidentes do Brasil e dos Estados Unidos, uma vez que
existem divergências de fundo na área mais importante.
Em segundo lugar, os americanos estão prevendo muitos
anos pela frente de dólar forte, uma conseqüência do
equilíbrio orçamentário que se propuseram fazer até o
ano 2002. Isso forçosamente diminui o poder de
competição dos produtos americanos nos mercados
tradicionais. Por isso, eles precisam urgentemente abrir
novas fronteiras e vender para países onde a guerra de
preços não chegou ainda
caso típico do Brasil e da Argentina. Numa era em que a
maior potência de todos os tempos não se vexa, ao
contrário, de ter seu presidente na condição de
camelô-mor, o Brasil vai precisar de muito fôlego para
resistir e defender os próprios interesses.
O Tio Sam e a nossa batucadaUm dos
riscos de Bill Clinton em sua passagem pelo
Brasil é ter os ouvidos, que já não andam
funcionando lá muito bem, afetados pelos
tambores tonitruantes do Didá, versão feminina
do Olodum convocada para tocar A obsessão
americana tem suas justificativas Silent
arrival
O chef francês Claude Troigros virá do Rio com um cardápio que procura conciliar formação clássica francesa, influência americana e ingredientes típicos do Brasil. A entrada é musse de kani kama e legumes com vinagrete de urucum. Como prato principal, um filé de pargo empanado com cubinhos de pão, berinjelas cozidas no mel, ketchup caseiro e maionese de ervas. A segunda opção de prato principal é carne de pombo com foie gras sobre um pão do tipo focaccia. "A carne fica por cima do pão e é moldada em forma de hambúrguer", explica Troigros, evocando o quitute favorito de Clinton. De sobremesa, torta de queijo (cheesecake) com calda de goiaba. Terminada a refeição, os convidados vão assistir à apresentação do grupo Didá e da cantora baiana Virginia Rodrigues. Às 10
horas de terça-feira, Clinton encontra-se com
Fernando Henrique no Palácio do Planalto. Trocam
presentes Daniela Pinheiro, de Brasília |
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Adivinhe quem vem para almoçar
Henry
Kissinger, 74 anos, dispensa apresentações.
Como homem forte da política externa americana
nos governos de Richard Nixon e Gerald Ford, ele
tem no currículo tanto os acordos de paz que
ajudaram a apressar o fim da guerra no Sudeste
Asiático, vencida pelo Vietnã, como a abertura
para a China. Como intelectual ele é autor de Diplomacia,
"uma das obras-primas do século
XX", no entender de outro intelectual, o
sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que o
conheceu há mais de vinte anos, nas lides
acadêmicas. Hoje, Kissinger é um lobista de
alto coturno. Dá palestras, conselhos,
entrevistas, faz análises estratégicas e
promove encontros, a preço de ouro Na terça,
Kissinger foi ao Rio para uma palestra
comemorativa dos 25 anos do banco Marka,
conhecido no Banco Central pelas operações de
fronteira. Falou duas horas e embolsou 40.000
dólares. Na quarta cedo já estava de volta à
capital para cumprir um programa preparado com a
ajuda de Sérgio Amaral, o porta-voz de Fernando
Henrique, que azeita os encontros do
ex-secretário de Estado com o governo
brasileiro. "Todo mundo sabe que a atividade
do Kissinger é fazer lobby, mas, se ele traz
investidores para o Brasil, isso é do nosso
interesse", diz Amaral. Na quarta-feira,
houve um encontro matinal no Itamaraty para
explicar aos empresários nipo-americano-europeus
a quantas anda a situação nacional. A abertura
foi feita por uma palestra do chanceler Luiz
Felipe Lampreia sobre Mercosul e Alca. O ministro
da Educação, Paulo Renato, relatou seus planos
para botar todas as crianças na escola. O da
Fazenda, Pedro Malan, falou sobre economia
brasileira. Depois, foram todos para o cinema do
Alvorada, onde o presidente mostrou slides e
estendeu por mais de meia hora uma conversa sobre
o seu plano de obras. Finíssimos, os
empresários disseram que estavam achando tudo
ótimo. Kissinger, nem tanto. Ele não deu sua
opinião. Mas, em artigos e palestras, vem
desenvolvendo o argumento de que os países
emergentes não são os Tigres Asiáticos. São a
China, a Índia e a Rússia Felipe Patury, de Brasília |
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