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Edição 2082

15 de outubro de 2008
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Cinema
É preciso ser esperta

Como uma coelhinha de Playboy jogada da noite
para o dia no mundo real, a comediante Anna Faris
mostra quanto de inteligência vai em interpretar
uma loira de burrice genuína


Isabela Boscov

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Aos 31 anos e aparentando uma década menos, Anna Faris está presa em uma contradição: é uma comediante excelente que vive de fazer filmes que, digamos, estão longe de ser bons. Veterana de séries como Todo Mundo em Pânico e de outras comédias que erram ou acertam conforme Deus manda, em todos os seus filmes Anna interpreta a loira burra e avoada (até em Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, em que fazia com grande efeito uma starlet tontinha). Em nenhum deles, porém, conta piadas ou faz caretas: sua arte é nem sequer dar sinal de que sabe estar numa situação cômica. Suas personagens existem num estado puro de inocência e ignorância, alheias ao mundo como ele é, e tão felizes e íntegras nessa alienação que é impossível não se encantar com elas. Graças a esse talento, Anna é superior ao material com o qual trabalha. Caso em questão: A Casa das Coelhinhas (The House Bunny, Estados Unidos, 2008), uma comédia adolescente fraquinha, quase anêmica, que vibra e respira por causa de sua protagonista.

No filme que está desde sexta-feira em cartaz no país, Anna é a órfã Shelley. Lindinha e adorável, mas com um QI que não chega à medida de sua cintura, Shelley acha que passou os últimos nove anos vivendo com sua verdadeira família – as outras coelhinhas, como ela própria, da Mansão de Playboy. Mas eis que, ao completar 27 anos, ela é expulsa de seu paraíso (porque, em anos de coelhinhas, 27 equivalem a 59). Shelley terá então de enfrentar o mundo real. Não que ela vá chegar ao fim do enredo ciente do que seja isso. Adotada por um grupo de estudantes para as quais nenhum menino olha duas vezes, a não ser para horrorizar-se, ela tentará ensinar às novas amigas seus truques (basicamente, expor o máximo de pele e manter o bate-papo tão profundo quanto um dedal), com grande sucesso. Elas, em troca, tentarão ajudar Shelley a encontrar alguma fratura em sua estupidez para assim conquistar um rapaz que – espanto! – gosta de conversar. Aí o sucesso será bem menos estrondoso: Shelley tem aquela burrice que é o artigo genuíno. Nenhum pensamento maldoso cruza sua cabecinha (e, se o fizesse, morreria de solidão), nenhuma ironia a atinge, nenhuma informação se associa a outra para produzir uma idéia. Interpretar um papel como este de forma cativante exige o oposto do que se vê na superfície: inteligência, espírito crítico, técnica e afinação. Qualidades que Anna, em ascensão na carreira, ainda vai mostrar em projetos menos tolinhos que este.

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