Como
uma coelhinha de Playboy jogada da noite para o dia no mundo real,
a comediante Anna Faris mostra quanto de inteligência vai em interpretar
uma loira de burrice genuína
Aos 31 anos e aparentando
uma década menos, Anna Faris está presa em uma
contradição: é uma comediante excelente
que vive de fazer filmes que, digamos, estão longe
de ser bons. Veterana de séries como Todo Mundo
em Pânico e de outras comédias que erram
ou acertam conforme Deus manda, em todos os seus filmes Anna
interpreta a loira burra e avoada (até em Encontros
e Desencontros, de Sofia Coppola, em que fazia com grande
efeito uma starlet tontinha). Em nenhum deles, porém,
conta piadas ou faz caretas: sua arte é nem sequer
dar sinal de que sabe estar numa situação cômica.
Suas personagens existem num estado puro de inocência
e ignorância, alheias ao mundo como ele é, e
tão felizes e íntegras nessa alienação
que é impossível não se encantar com
elas. Graças a esse talento, Anna é superior
ao material com o qual trabalha. Caso em questão: A
Casa das Coelhinhas(The House Bunny, Estados
Unidos, 2008), uma comédia adolescente fraquinha, quase
anêmica, que vibra e respira por causa de sua protagonista.
No filme que está desde
sexta-feira em cartaz no país, Anna é a órfã
Shelley. Lindinha e adorável, mas com um QI que não
chega à medida de sua cintura, Shelley acha que passou
os últimos nove anos vivendo com sua verdadeira família
as outras coelhinhas, como ela própria, da Mansão
de Playboy. Mas eis que, ao completar 27 anos, ela é
expulsa de seu paraíso (porque, em anos de coelhinhas,
27 equivalem a 59). Shelley terá então de enfrentar
o mundo real. Não que ela vá chegar ao fim do
enredo ciente do que seja isso. Adotada por um grupo de estudantes
para as quais nenhum menino olha duas vezes, a não ser
para horrorizar-se, ela tentará ensinar às novas
amigas seus truques (basicamente, expor o máximo de pele
e manter o bate-papo tão profundo quanto um dedal), com
grande sucesso. Elas, em troca, tentarão ajudar Shelley
a encontrar alguma fratura em sua estupidez para assim conquistar
um rapaz que espanto! gosta de conversar. Aí
o sucesso será bem menos estrondoso: Shelley tem aquela
burrice que é o artigo genuíno. Nenhum pensamento
maldoso cruza sua cabecinha (e, se o fizesse, morreria de solidão),
nenhuma ironia a atinge, nenhuma informação se
associa a outra para produzir uma idéia. Interpretar
um papel como este de forma cativante exige o oposto do que
se vê na superfície: inteligência, espírito
crítico, técnica e afinação. Qualidades
que Anna, em ascensão na carreira, ainda vai mostrar
em projetos menos tolinhos que este.