Em
Mandela Luta pela Liberdade, o que importa não é
quanto o líder sul-africano respeitou seu carcereiro, e sim quanto
o carcereiro aprendeu a admirar Mandela
Isabela
Boscov
Divulgação
NOS
PAPÉIS DO APARTHEID Fiennes, como
o carcereiro Gregory, e Haysbert (à esq.), como Mandela: em duas
décadas de convivência, do desprezo à razão
Sobram suspeitas
de que James Gregory, carcereiro do líder sul-africano
Nelson Mandela por um período que se estendeu de 1968
até sua libertação, em 1990, enfeitou
um bocado o relato dessa convivência em sua autobiografia,
Goodbye Bafana. Se for esse o caso, o oficial penitenciário,
morto em 2003, não terá sido o primeiro, tampouco
será o último, a tentar tomar para si um pouco
da grandeza da figura de Mandela. Que se tenha então
como metafórica, mais do que como verídica,
a adaptação das memórias de Gregory em
Mandela Luta pela Liberdade (Goodbye
Bafana, África do Sul/Alemanha/Bélgica,
2007), e a questão de quanto esse relacionamento foi
de fato próximo se torna imaterial. O que é
relevante é que, entre o dia em que chegou como encarregado
da censura à prisão da Ilha Robben e o dia em
que se despediu de seu prisioneiro, aí já em
confinamento domiciliar, algo aconteceu com o carcereiro
e, ainda que não pelos mesmos motivos, também
com o seu país.
DA
PRISÃO AO PALANQUE Mandela em
campanha: em 27 anos de encarceramento, uma liderança que não definhou
No drama dirigido pelo dinamarquês
Bille August, desde sexta-feira em cartaz no país, Gregory
(Joseph Fiennes) assume seu posto na penitenciária de
segurança máxima em que Mandela (Dennis Haysbert)
está detido como um produto típico da África
do Sul do apartheid: um homem que acredita que o desejo da população
africana é exterminar os sul-africanos brancos, como
ele; que a selvageria é inerente aos negros; e que Mandela
e seus companheiros do Congresso Nacional Africano são
terroristas repugnantes. Mas Gregory ganha o cargo de censor
porque cresceu entre negros, numa fazenda, e fala xosa, o que
o habilita a interceptar mensagens clandestinas. Esse é
o pivô, previsível mas correto, em torno do qual
gira o filme: a idéia de que o protagonista já
soube, e procurou esquecer, que o apartheid é uma abominação;
e que o impacto de uma personalidade como a de Mandela sobre
esse terreno propício pode ser transformador. Num outro
plano, August trata de como transformações, em
regimes que não as toleram, podem ser penosas. Assim
que sua admiração pelo prisioneiro é detectada,
Gregory é posto de escanteio, indispõe-se com
a mulher (a alemã Diane Kruger, muito bem) e, à
medida que a pressão internacional faz a África
do Sul se tornar volátil, recebe seguidas ameaças
de morte. Numa boa atuação, porém, Joseph
Fiennes desvia essa trajetória do seu rumo habitual no
cinema o de mostrar a tomada de consciência de
um branco na África como um processo heróico e
de iluminação. Na maneira como ele interpreta
o carcereiro, esta é uma história de como um homem
começou a sentir vergonha. Com motivo.