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Edição 2082

15 de outubro de 2008
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Nobel
Do micro ao macro


Sam Yeh/AFP


Neste ano, a Academia Sueca dedicou o Nobel de Química aos descobridores de uma proteína cuja importância para a ciência equivale à descoberta do microscópio. Na física, os laureados foram dois pesquisadores japoneses e um americano cujos estudos das estruturas subatômicas aproximam um pouco mais a humanidade da compreensão da composição do universo. O Nobel da Paz não deixou de ser também uma volta às origens: desta vez, da própria academia. Ao eleger um mediador de conflitos armados, ela retoma a idéia inicial do seu fundador, Alfred Nobel, de agraciar "os que lutam pela fraternidade entre as nações"

 

A proteína iluminada


Fotos AFP e Chip East/Reuters
QUÍMICA
Vencedores
Três pesquisadores dividiram o prêmio: o japonês Osamu Shimomura (à esq.) e os americanos Roger Tsien (no meio) e Martin Chalfie
Por que ganharam o prêmio
Shimomura descobriu uma proteína que deixa células fluorescentes, permitindo rastreá-las. As aplicações práticas que a dupla americana desenvolveu para ela fizeram com que a academia comparasse a sua descoberta com a invenção do microscópio

A descoberta da GFP, sigla em inglês para proteína verde fluorescente, revolucionou os estudos sobre o funcionamento dos organismos vivos. Ela é hoje um recurso indispensável para as pesquisas de bioquímicos, biólogos e médicos. Essa proteína possibilitou a observação dos mecanismos de doenças como câncer e Alzheimer. Quando exposta à luz ultravioleta, a GFP brilha, o que possibilita o rastreamento das células que se deseja observar. O Nobel de Química deste ano foi para o trio que descobriu e desenvolveu a GFP. Na década de 60, Osamu Shimomura identificou a proteína em águas-vivas encontradas na costa dos Estados Unidos. Três décadas mais tarde, Martin Chalfie mostrou que ela podia servir como marcador celular. Logo depois, Roger Tsien criou colorações diferentes para a GFP, o que ampliou seu uso, já que a variação de cores permite a observação de mais de um processo biológico ao mesmo tempo. Os três vão dividir um prêmio equivalente a 3 milhões de reais.

 

A paz como ela é


Lehtikuva/AFP
PAZ
Vencedor
O diplomata Martti Ahtisaari, 71 anos, presidente da Finlândia entre 1994 e 2000
Por que ganhou o prêmio
Em três décadas de negociações internacionais, mediou o fim de conflitos armados como os da Namíbia (1989), do Kosovo (1999) e de Aceh, na Indonésia (2005)

Quando Alfred Nobel criou o prêmio da Paz, em 1895, estipulou que ele deveria ser dado aos que lutam pela "fraternidade entre as nações" e pelo fim de conflitos armados. Paz, para Nobel, era a ausência de guerra. Desde então, o comitê norueguês que define os laureados ampliou o conceito. Em 2006, ele foi dado a um banqueiro que empresta dinheiro aos pobres e, no ano passado, a representantes da causa do aquecimento global. A premiação de Martti Ahtisaari – para quem a Presidência da Finlândia foi apenas um parêntese numa carreira diplomática de mais de trinta anos – resgata a idéia original de Nobel. Em seu currículo, figuram desde a supervisão do desarmamento do IRA, na Irlanda do Norte, até a mediação de conversas entre líderes xiitas e sunitas do Iraque. Ahtisaari costuma passar 200 dias por ano viajando. Depois do anúncio do prêmio, declarou que pretende se dedicar um pouco mais às suas próprias causas: "Quero ficar mais tempo com minha mulher".

 

Rastreadores do universo

FÍSICA
Vencedores
O americano Yoichiro Nambu (na foto) ficou com metade do prêmio. Os japoneses Makoto Kobayashi e Toshihide Maskawa dividiram a outra metade
Por que ganharam o prêmio
As teorias que desenvolveram ajudaram a explicar os fenômenos observados nas estruturas subatômicas e avançar nos estudos sobre a origem e a composição do universo

Nobel de Física foi dado ao japonês naturalizado americano Yoichiro Nambu, que o dividiu com os japoneses Makoto Kobayashi e Toshihide Maskawa. Eles explicaram como o Big Bang criou o universo. Explosões destroem. A do Big Bang deveria ter destruído a si própria pela anulação perfeita entre as partículas de matéria e antimatéria produzidas. Nambu mostrou que isso não ocorreu porque, para cada 10 bilhões de partículas de antimatéria, foram produzidos 10 bilhões de uma partícula suplementar de matéria – a "quebra espontânea de simetria". Isso desempatou o jogo a favor da matéria, e ela pôde se organizar em galáxias, estrelas e planetas. Kobayashi e Maskawa refinaram a proposição de Nambu ao mostrar que o desempate só ocorreu porque os quarks – tijolos que formam os nêutrons e prótons no núcleo dos átomos – são diferenciados entre si.

 

O fim da disputa


Gonzalo Fuentes/Reuters
MEDICINA
Vencedores
Os franceses Françoise Barré-Sinoussi e Luc Montagnier (acima) e o alemão Harald zur Hausen
Por que ganharam o prêmio
Montagnier e Françoise, pela descoberta do vírus da aids. Hausen, por ter relacionado o câncer de colo de útero ao HPV

Ao conferir o Nobel de Medicina aos franceses Luc Montagnier e Françoise Barré-Sinoussi, a Academia Sueca encerra uma das mais acirradas disputas da história da ciência moderna – pela primazia na descoberta do HIV, o vírus da aids. Em 1983, Montagnier e sua equipe identificaram o agente causador da síndrome. Sem recursos tecnológicos para aprofundarem as pesquisas, enviaram uma amostra do vírus para o virologista americano Robert Gallo. Um ano depois, Gallo anunciou a "descoberta" do HIV – sonegando a participação dos franceses. O Nobel é o reconhecimento oficial da comunidade acadêmica de que Montagnier e sua equipe são os descobridores do vírus da aids. O prêmio será dividido com o médico alemão Harald zur Hausen, de 72 anos. Hausen identificou, na década de 70, a relação do câncer de colo de útero com o vírus HPV.

 

Um francês pós-colonial


Oliver Laban-Mattei/AFP
LITERATURA
Vencedor
Jean-Marie Gustave Le Clézio
Por que ganhou o prêmio
O francês passou parte da infância na Nigéria e conviveu com índios da América Central, onde morou. Por incorporar essas influências, sua obra caiu no gosto multicultural da Academia Sueca

Apesar de nascido em Nice, na França, Jean-Marie Gustave Le Clézio, 68 anos, é um representante da chamada "literatura pós-colonial". Tem raízes familiares nas Ilhas Maurício, passou parte da infância na Nigéria e já viveu entre índios do Panamá. Sua obra dá voz aos indígenas da América Central e aos nativos de ilhas do Oceano Índico. De acordo com a Academia Sueca, o autor de O Africano e A Quarentena é um "explorador da humanidade além e abaixo da civilização dominante". De quebra, seus livros expressam preocupações ecológicas que encantaram os acadêmicos suecos, conhecidos por seus critérios politicamente corretos. Recentemente, o secretário da Academia Sueca, Horace Engdahl, qualificou a literatura americana (que, apesar de contar com um Philip Roth, talvez o maior romancista vivo hoje, não ganha o prêmio há quinze anos) como isolada e "insular". Para os suecos, só as Ilhas Maurício são cosmopolitas.



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