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Edição 2082

15 de outubro de 2008
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Especial | ROBERT J. SHILLER
"Deixemos de lado as mitologias de esquerda e direita"

No início do ano 2000, o economista americano Robert Shiller, professor da Universidade Yale, publicou um estudo para não-especialistas sobre as bolhas financeiras. Logo em seguida veio o colapso do mercado de ações da internet, e transformou-se em best-seller seu livro Exuberância Irracional, expressão cuja paternidade ele divide com Alan Greenspan, ex-presidente do banco central americano. Semanas atrás, Shiller mostrou de novo sua sintonia com o mundo. Seu novo livro, The Subprime Solution (algo como O Remédio para as Hipotecas Podres), foi lançado dias antes da escalada da presente crise, que, de americana, se tornou global. A obra aponta as causas e as possíveis soluções para a bolha imobiliária que deu origem ao atual descarrilamento econômico-financeiro que começa a ameaçar a economia real. "A solução de curto prazo é um programa de resgate como o que está sendo implementado pelas autoridades econômicas", diz o economista. As soluções de longo prazo põem em evidência a disposição mental que deu a Robert Shiller o apelido de "gestor de riscos do povo". A seguir, os principais pontos de sua entrevista ao editor executivo Carlos Graieb.

A CONCENTRAÇÃO DOS INVESTIMENTOS

A crise atual mostra o que acontece quando se deixam de usar os princípios das finanças – sobretudo quando se deixa de implementar de maneira adequada o gerenciamento de risco. Um grande número de americanos está em apuros porque, em vez de diversificar seus investimentos, tinha tudo concentrado em um único ativo arriscado – a saber, suas casas. Eis aí o primeiro princípio quebrado, o da diversificação. Além disso, esses mesmos americanos haviam assumido empréstimos altíssimos para investir nos imóveis. Se o pensamento financeiro fosse mais disseminado, esse tipo de gestão irresponsável de riscos, com impacto tão terrível sobre a vida dessas pessoas e de sua família, não teria se tornado quase um padrão. Mas até entre os profissionais se deixou de lado o que a teoria manda. Fannie Mae e Freddie Mac, os dois gigantes do crédito hipotecário americano, expuseram-se de maneira amadorística a uma situação na qual a queda súbita do preço dos imóveis ensejaria conseqüências desastrosas – como de fato ocorreu. Os gestores agiram conforme a "intuição", esquecendo pelo caminho as diretrizes que poderiam afastá-los do desastre.

LEIS PARA O CAPITALISMO, E NÃO CONTRA

É preciso criar salvaguardas para impedir que as pessoas cometam tolices. Em 2006, o Fed publicou diretrizes requerendo mais cautela na concessão de hipotecas – o impulso estava certo, mas veio tarde demais. Também é preciso desencorajar as más ações e puni-las em alguns casos. Como todas as bolhas, a que acaba de estourar trouxe várias oportunidades para os inescrupulosos, muitas vezes ocultos sob o véu de respeitabilidade de grandes corporações. É fundamental, contudo, que a regulamentação não seja inimiga do capitalismo. A chave para o sucesso econômico de longo prazo é a confiança no funcionamento dos mercados. Os legisladores têm de nutrir simpatia pelo empreendedorismo, têm de compartilhar dos sentimentos e aspirações de quem deseja produzir, para que as regras ajudem, em vez de sufocar. Um dos aspectos lamentáveis dessa crise é que ela aumentou a percepção de atrito entre ricos e pobres nos Estados Unidos. Uma das vantagens dos americanos sempre foi a admiração pelo sucesso alheio. O fato de o Congresso quase ter derrubado o pacote de resgate financeiro do governo, e de ter imposto limites à remuneração dos banqueiros, é um sinal da bile que passou a correr na superfície. O perigo é que esse jogo de acusações desvie a atenção do que precisa ser feito.

A DEMOCRATIZAÇÃO DAS FINANÇAS

Garantir que todas as medidas de resgate necessárias sejam implementadas é o primeiro passo. Para isso, deixemos de lado as mitologias de esquerda e direita. O envolvimento dos governos com a economia é uma questão de medida, não de absolutos. Quando ocorre um colapso capitalista, o governo precisa atuar. Foi o que fez no passado, durante a Grande Depressão, é o que está fazendo agora, com o pacote de resgate, e é o que fará no futuro, se for necessário. Esgotadas as ações imediatas, temos de pensar em soluções de longo prazo: aprimorar nossas instituições de gerenciamento de risco e buscar a democratização das finanças. É preciso fazer com que o conhecimento acumulado sobre esse tema trabalhe em favor das pessoas comuns. Como costumo brincar, até os poetas precisam pensar em finanças. É necessário disseminar informação, proporcionar "alfabetização financeira" a quem não tem. Para dar um exemplo, a maioria das pessoas que adquiriram hipotecas subprime não sabia que as taxas eram reajustáveis – começavam muito baixas, mas depois podiam subir. A informação não chegou até elas. Ninguém lhes disse que seria difícil, dada a renda de que dispunham, continuar a pagar a hipoteca se as taxas aumentassem. Quem compra uma casa fala com um corretor de imóveis que só quer fechar o negócio. A meu ver, as pessoas deveriam poder contar com agências de aconselhamento financeiro – da mesma forma como quem passa mal pode obter atendimento gratuito em hospitais públicos. Outra tarefa da educação financeira é despertar o espírito empreendedor, mostrar às pessoas como iniciar novos negócios e como lidar com os riscos relacionados a eles, evitando os desnecessários e gerenciando os demais. O futuro de qualquer país depende de existirem empreendedores. As pessoas sentem-se mais motivadas quando sabem que há instrumentos para impedir que seus esforços sejam destruídos no primeiro solavanco.

MAIS INOVAÇÃO, E NÃO MENOS

As ferramentas financeiras são como os equipamentos de segurança de um avião. Elas são responsáveis pelo controle de riscos da atividade econômica. Os aviões mudaram para sempre, e para melhor, a nossa maneira de viver. Ninguém diz que devemos abandoná-los quando um deles cai por causa de uma pane. Da mesma forma, nosso arcabouço de teorias e práticas financeiras tem um papel crucial no desenvolvimento econômico. O mercado de capitais ajuda a fomentar negócios, ajuda a construir escolas e hospitais, permite que universidades banquem pesquisas inovadoras. Por isso, ao invés de barrar a inovação, devemos levá-la adiante. Devemos democratizar o acesso aos serviços e à informação financeira, aprimorar nossas instituições e inventar novos mercados. A despeito do que muitos crêem, o papel precípuo dos títulos derivativos não é servir de brinquedo para especuladores, mas dispersar os riscos inerentes à nossa vida econômica. Dou como exemplo o mercado de "futuros residenciais" implementado, desde 2006, na Bolsa Mercantil de Chicago, com base em pesquisas e índices feitos por mim e por alguns colegas. Nesse mercado, ainda incipiente, investidores podem manifestar sua percepção de que o valor dos imóveis vai subir ou cair – basta, para isso, comprar ou vender papéis que expressem essa cotação futura. Isso deve tornar mais difícil o surgimento de bolhas imobiliárias: com base nos índices, os construtores terão como ajustar seu nível de atividade, evitando a explosão da oferta de casas novas.

AS VANTAGENS DO ALUGUEL

Como sempre acontece nas bolhas, a principal causa da crise foi a crença irracional de que o valor de alguma coisa, neste caso os imóveis, havia entrado numa rota infinita de ascensão. As pessoas compraram o mito de que, por causa do crescimento populacional e econômico, ou da suposta falta de espaço nas cidades, nada deteria o aumento do preço das casas nos Estados Unidos. As hipotecas subprime foram produto de uma bolha que já estava inflada, uma ferramenta utilizada para que mais e mais pessoas, que estavam batendo à porta, pudessem entrar no mercado e investir seu dinheiro em imóveis. Depois se formou um mercado no qual conjuntos de títulos hipotecários, alguns com boa solvência, outros nem tanto, eram fatiados, recombinados, revendidos sucessivamente. O desenho desses títulos e desse mercado era ruim. Em vez de dispersarem e controlarem os riscos dos empréstimos hipotecários, eles ajudaram a inflar a bolha. Mas não foram a causa essencial do pandemônio. A ênfase excessiva em investimentos imobiliários é questionável. Há vantagens no aluguel. Ele permite que você diversifique os seus investimentos. Em vez de apostar tudo num apartamento, você pode dividir seu dinheiro em ações e outros tipos de aplicação, o que torna mais segura sua posição financeira. Nos Estados Unidos, é isso que vemos hoje. Com toda a turbulência, quem havia apostado tudo no mercado imobiliário tem perspectivas piores do que quem tinha dinheiro em fundos e ações.



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