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Enquanto as ações
das bolsas de valores pareciam
Na manhã da última quarta-feira, seis dos principais bancos centrais do planeta executaram uma ação inédita. Liderados pelo Federal Reserve (o Fed, banco central americano), eles fizeram uma redução coordenada em suas taxas de juro. Foi o mais recente esforço dos Estados Unidos e da Europa na tentativa de reavivar os mercados financeiros e desbloquear as linhas de crédito entre os bancos, artérias fundamentais no sistema que irriga empréstimos em todo o planeta. Mais uma vez, no entanto, as intervenções cavalares não bastaram para restabelecer a confiança. Para muitas bolsas, foi a pior semana de todos os tempos caso da Bolsa de Nova York, cujo índice Dow Jones acumulou uma perda de 18%, a maior sangria em uma única semana nos 112 anos de sua história. No Brasil, coube ao presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, a missão de proteger o país dos efeitos mais nefastos da crise. Naquela mesma quarta-feira de pânico global, o mercado de câmbio brasileiro amanheceu travado. Na abertura dos negócios, às 9 horas, não havia nenhuma pessoa, empresa ou instituição financeira disposta a vender ou comprar dólares. Ninguém. A cotação da moeda começou a subir rapidamente e atingiu 2,48 reais, o valor mais elevado desde 2006. Para desemperrar o mercado, o Banco Central brasileiro determinou a venda de 4 bilhões de dólares no mercado à vista, por meio de três leilões realizados ao longo do dia. À tarde, enquanto o remédio começava a fazer efeito, Meirelles encontrava-se no gabinete da presidência do BC em São Paulo. Um interlocutor mostrou a ele uma folha de papel em que, separadas por uma linha horizontal, estavam escritas as palavras "céu" e "inferno". Instado a mostrar em que ponto naquela linha se situava a economia brasileira, se mais perto do céu ou do inferno, o presidente do BC desenhou um X na metade do caminho. Insatisfeito com a resposta, diplomática demais, o interlocutor perguntou, então, para que lado os ventos empurravam o Brasil. Meirelles desenhou uma flecha em direção ao inferno. Esperou alguns segundos. Desenhou, então, uma segunda flecha, em sentido oposto, em direção ao céu. E riu. Foi sua maneira de ilustrar o que já vem dizendo há tempos: ao contrário da ciclotimia dominante, a verdade é que a economia brasileira não está à beira de ser varrida pela crise externa e nem 100% blindada contra ela. Tudo vai depender do sucesso de como será usado todo o arsenal de medidas preventivas e, claro, da serenidade das autoridades monetárias.
Na tarde daquela quarta-feira, Meirelles fazia duas coisas ao mesmo tempo. Negociava a edição de uma nova medida provisória que lhe daria mais liberdade e agilidade para usar a munição necessária para enfrentar a crise. E acompanhava, em tempo real, o impacto das três intervenções que o BC fizera no mercado de câmbio. O dólar inicialmente cedeu. Em um segundo momento, voltou a subir. A alta, entretanto, não se sustentou. No início da tarde, o preço da moeda americana passou a cair com mais intensidade. Encerrou o dia valendo 2,28 reais. "Derrete, dólar!", disse Meirelles em tom de vitória. O desabafo, explicou o presidente do BC, tinha uma razão específica. Meirelles satisfez-se ao impedir que os grandes fundos internacionais aproveitassem a disparada do dólar para rapinar as empresas nacionais pegas de calças curtas com a mudança brusca do câmbio mais de 50% desde agosto. São muitas as companhias nessa situação. Elas fizeram apostas na estabilidade da moeda brasileira em alguns casos não apenas para se proteger da flutuação do câmbio, mas para ganhar dinheiro com a certeza de que o real ficaria ali por volta de 1,80 por dólar. Quando essa cotação foi pulverizada, as empresas entraram em pânico. Suas apostas são os chamados "derivativos", e eles exigem que alguém perca para que outro ganhe. Quando se está do lado perdedor caso das companhias brasileiras pegas nadando peladas quando baixou a maré do real e a aposta foi feita com dinheiro emprestado, é preciso cobrir o prejuízo diariamente. É uma sangria dolorosa, que obriga o empresário a bater à porta dos bancos à procura de mais e mais dinheiro. A intervenção do Banco Central no mercado havia baixado o preço do dólar e aliviado um pouco a romaria das empresas à banca. Foi isso que Henrique Meirelles comemorou em voz alta. Até pouco antes de a crise se agravar, em meados de setembro, empresas como Sadia, Aracruz e Votorantim viam como impossível a subida do dólar no Brasil, uma vez que, com a política monetária rigorosa adotada por Meirelles, a moeda nacional tendia a manter-se valorizada. Por quê? Porque investidores internacionais continuariam trazendo dinheiro tomado a juros menores no exterior para lucrar com os juros altos e as aplicações em bolsa no Brasil essas operações são chamadas no jargão financeiro de carry trade. Usando instrumentos financeiros complexos, apostaram que o dólar continuaria caindo até o fim do ano. Quando o dólar começou a subir, elas precisaram cobrir o prejuízo que tiveram com as apostas erradas até a semana passada, o buraco somava 5 bilhões de reais. Algumas empresas culpam o governo, em especial o Banco Central, por tê-las "induzido" a concluir que a cotação do real em relação ao dólar permaneceria estável. Os diretores do BC dizem que eles e o próprio presidente Meirelles se cansaram de avisá-las de que as circunstâncias mundiais estavam mudando para pior e logo o carry trade perderia sua atratividade, trazendo como conseqüência a perda de valor do real. "Como as organizações de empresários no Brasil preferem o lobby à análise macroeconômica confiável, eles não enxergaram os sinais de perigo e apostaram fortemente no real", diz um diretor do BC que não pode ser identificado.
Formalmente, o Banco Central não persegue metas para o câmbio. Seu compromisso é manter a inflação dentro do alvo. Mas ele intervém no mercado sempre que considera que há problemas de liquidez ou volatilidade excessiva. Ao mesmo tempo, cabe à instituição assegurar a solidez do sistema financeiro. Munição para atuar nessas diversas frentes não falta. Mas, desde que a turbulência entrou em um novo patamar de instabilidade, o crédito internacional secou. Meirelles precisou agir rapidamente para impedir que o colapso externo, sentido aqui nas linhas de financiamento à exportação, contaminasse os bancos do país. O BC colocou aproximadamente 70 bilhões de reais nos bancos para remediar a falta de dinheiro que vinha de fora. Essa estratégia ocorreu em duas frentes: na diminuição dos depósitos compulsórios que os bancos precisam deixar parados no BC e na venda de dólares nos mercados à vista e futuro. O governo anunciou também medidas de incentivo para que os grandes bancos comprem as carteiras de crédito das instituições pequenas, principalmente aquelas voltadas para o crédito consignado e para o financiamento do varejo.
Esse contra-ataque inicial surtiria algum efeito, mas não bastaria para suprir todo o crédito interbancário que se evaporou nas últimas semanas nem para atender plenamente às necessidades do financiamento à exportação (veja o quadro). Era preciso reforçar o ataque. Chegara o momento de utilizar, com mais inteligência, as reservas internacionais, a poupança em moeda forte que o país acumulou nos últimos cinco anos e que hoje supera 200 bilhões de dólares, além de aprimorar os mecanismos de defesa da solidez dos bancos nacionais. Na tarde de quinta-feira, durante uma reunião extraordinária do Conselho Monetário Nacional, foi regulamentada a Medida Provisória 442. Com essa legislação, o Banco Central ganhou mais poder de fogo. Um de seus dispositivos permite que o BC faça empréstimos em dólares para empresas brasileiras. O objetivo é auxiliar no desentupimento dos canais do crédito à exportação. Mas o alcance mais abrangente dessa MP está na possibilidade de o BC fazer empréstimos emergenciais para bancos que estejam em apuros. Como contrapartida, essas instituições terão de dar ao BC, como garantia, suas próprias carteiras de crédito. Esse tipo de operação existe há décadas em todo o mundo. No Brasil, é previsto desde 1964. Por que então a necessidade de fazer uma nova MP para dispor sobre o assunto? Os consultores jurídicos do governo consideravam que a lei existente era suficiente. Aí entrou a precaução de Meirelles, sabedor dos problemas jurídicos que atormentam até hoje a vida de ex-presidentes de bancos centrais. Um grupo de juristas externos foi chamado a lançar uma lupa na questão, e descobriu uma brecha: havia uma indefinição legal sobre o mecanismo para determinar o preço a ser atribuído a um ativo (no caso, as carteiras de crédito). Incrivelmente, o rascunho da MP existia já em janeiro deste ano, e desde então Meirelles tentava convencer seus colegas do governo da necessidade de aprová-la. "Sem a MP, eu não faço", dizia Meirelles, referindo-se ao resgate de bancos pequenos em dificuldades.
Esse reforço na artilharia chega em boa hora, mas, mais uma vez, pode não se mostrar suficiente. O nível de volatilidade nas bolsas mundiais atingiu os maiores valores jamais registrados. No fim de semana, os líderes das principais economias do planeta estariam reunidos em Washington, empenhados em discutir uma saída para esse túnel escuro e extenso que parece não ter fim. Até a sexta-feira passada, o pânico irracional era a única descrição cabível para o que se via nos mercados financeiros. Toda essa turbulência arrastará o mundo para a recessão? Os países emergentes, como a China e o Brasil, conseguirão permanecer de pé mesmo diante do colapso americano e europeu? Em um momento como esse, o meio do caminho entre o céu e o inferno pode ser um bom lugar para estacionar.
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