Brasil
O
trator Kassab
Gilberto Kassab cresce
em São Paulo, fica a um
passo da reeleição e deve se
tornar o principal
cabo eleitoral de José Serra em provável
candidatura à sucessão do presidente Lula

Fábio
Portela
Fotos
Marcos Arcoverde/AE e Marcio Fernandes/AE
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Um
chapéu no PT Um dos prefeitos
mais bem avaliados de São Paulo, Kassab desnorteia os marqueteiros petistas
com sua popularidade. Nem Serra (à esq.) poderia imaginar... |
O
atual prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, do DEM, foi o político
mais votado do Brasil no primeiro turno das eleições municipais.
Com uma montanha de votos 2 140 423, para ser exato ,
ele deixou para trás a ex-prefeita Marta Suplicy, do PT, que aparecia na
frente em todas as pesquisas, e chegou à reta final do primeiro turno na
posição de líder. A vantagem do democrata sobre a petista,
de 0,8 ponto porcentual, foi pequena, mas premonitória. Quatro dias depois
da abertura das urnas, o Datafolha aferiu que Kassab ostentava uma dianteira confortável:
54% das intenções de voto no segundo turno, contra 37% de Marta.
Agora, caminha a passos largos, larguíssimos, para ser reeleito no próximo
dia 26. Seu desempenho prova que, embora desconhecido, Kassab nunca foi um azarão.
Mesmo antes de o horário político começar, quando ainda aparecia
na rabeira das pesquisas, ele já reunia condições para atrair
eleitores. Afinal de contas, sua administração é aprovada
por 61% dos eleitores, um dos índices mais altos do país, e sua
imagem está associada à do governador José Serra, do PSDB,
o principal líder político do estado hoje. Junte-se a isso uma estratégia
de propaganda matadora e eis que Kassab se transformou num trator pronto
para terraplenar o PT em São Paulo.
No
início da campanha, a equipe de marketing de Kassab acertou na escolha
do alvo. Com o maior tempo disponível no rádio e na TV, o democrata
ignorou o candidato tucano, Geraldo Alckmin, segundo colocado nas pesquisas. Dirigiu
seus ataques (civilizados) a Marta, a primeira colocada. A petista engoliu a isca
e passou a contra-atacar (não tão civilizadamente). Foi o suficiente
para que Kassab tirasse de Alckmin a condição de candidato anti-PT.
Fora de foco, o tucano perdeu primeiro os holofotes. Depois, os votos. A equipe
de Kassab reviu sua estratégia para o segundo turno. Abandonará
os ataques a Marta e à sua gestão na prefeitura, de 2001 a 2004.
A intenção é ignorar completamente a petista. Se possível,
deixá-la falando sozinha. Com isso, pretende passar à população
a idéia de que ela está fora do páreo. Nas próximas
semanas, Kassab só agradecerá os votos que recebeu e pedirá
apoio para dar seguimento a seus programas sociais.
Ninguém
está mais interessado na vitória de Kassab além do
próprio, é claro do que o governador Serra. Os dois se conheceram
há apenas quatro anos, durante a eleição municipal de 2004.
No início, Serra tinha restrições a Kassab, indicado pelo
DEM para seu vice. O democrata conquistou-o com demonstrações inequívocas
de lealdade e de envolvimento em seu projeto presidencial. Em 2006, o tucano deixou
o cargo para assumir o governo estadual. Kassab herdou a prefeitura, mas continuou
a tratar Serra como chefe. Em processo de simbiose, cogitou até em mudar
para o PSDB, a fim de cerrar fileiras com o governador. Serra passou a considerar
que a aprovação da gestão de Kassab e sua reeleição
eram pressupostos para a sua candidatura à Presidência. Por isso,
não só manteve sua equipe em postos-chave da prefeitura como também
ajudou a traçar o plano que poderia levar Kassab a conquistar mais um mandato.
A estratégia está dando certo, mas nem Serra esperava que a popularidade
de seu novo aliado aumentasse tão rapidamente.
Logo
que Kassab assumiu o cargo de prefeito, ele e sua equipe perceberam que a reeleição
dependeria de uma boa aprovação não só na área
central, mas também na periferia paulistana, que concentra 40% dos votos
da cidade e tradicionalmente dava sustentação ao PT. Para isso,
era necessário fazer um programa de obras nessa região e reforçar
aquelas que Marta Suplicy havia começado. Assim como o PT se apropriou
de bandeiras do ex-presidente Fernando Henrique no governo federal, como o Bolsa
Escola e a estabilidade da moeda, Kassab tomou para si iniciativas da gestão
petista. Um exemplo disso foi o incremento na construção de CEUs,
escolas multiuso, com piscina, ginásio e cinema. As obras e o discurso
de cunho social evitaram que Marta nocauteasse Kassab na periferia, como antes
ocorria com os candidatos tucanos. Segundo o Datafolha, a vantagem da petista
nessas áreas mais pobres as únicas onde ela está na
frente é de, no máximo, 9 pontos porcentuais.
Tiago
Queiroz/AE
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Pastel
de vento Marta tem comido muito durante
a campanha, mas não engordou seu eleitorado |
Além
da aprovação extraordinária a seu adversário, Marta
enfrenta outro problema: o eleitorado do PT em São Paulo está envelhecendo.
No primeiro turno, o partido contabilizou exatamente a mesma votação
de oito anos atrás, quando Marta se sagrou prefeita. Como o número
de eleitores paulistanos cresceu de 7,1 milhões para 8,2 milhões,
o peso do PT na cidade caiu. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia
estabelecido a conquista de São Paulo como principal objetivo petista nestas
eleições. Duas semanas antes da primeira votação,
quando Marta ainda estava na frente, conclamou o PT a se esforçar para
liquidar a fatura ainda no primeiro turno. Surpreendido pelo resultado das urnas,
Lula pediu explicações ao marqueteiro de Marta, João Santana,
e despachou seu chefe-de-gabinete, Gilberto Carvalho, para ajudar na campanha.
Não foi o bastante. Na quinta-feira, a candidata fez um apelo ao presidente
para que ele fosse pessoalmente a São Paulo. Lula topou, mas deve agir
com mais cautela nas próximas semanas, para evitar que uma derrota de Marta
seja interpretada como um sinal de fraqueza sua e da força de Serra (veja
reportagem). Com o governo estadual nas mãos e um aliado fortalecido
na prefeitura da capital paulista, o governador constrói uma base poderosa
para sua investida ao Palácio do Planalto. O quadro favorável a
Serra se completa com a derrapagem sofrida pelo governador de Minas Gerais, Aécio
Neves, seu principal adversário dentro do PSDB na disputa presidencial
(veja reportagem). Nesse contexto, a candidatura
de Serra sai do plano do provável para o do quase certo.