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Crise global O Brasil estaria
imune à crise se vivêssemos numa redoma, com
uma economia isolada e auto-suficiente, sem tomar conhecimento
do mundo exterior. Mas essa não é a realidade,
estamos muito mais inseridos na economia mundial do que dizem
as autoridades. Hoje, o espirro americano, o asiático
ou o da zona do euro atingem os mais recônditos países,
por insignificantes que sejam ("O inferno são
os outros", 8 de outubro). Um grito ecoa nos
céus de Wall Street: "Socorram os tubarões
do mercado imobiliário! Não deixem faltar o
seu principal alimento, que são os peixinhos incautos
e indefesos do tenebroso oceano do capital selvagem". A crise financeira
que agora acomete o mundo, tantas vezes negada por um obtuso
Lula da Silva, não explodirá no colo do "malvado
Jorgí Buxi", como acham os esquizofrênicos
ideológicos e analfabetos econômicos que insistem
que o problema "éduzamericanú". Vai
detonar, isto sim, como sempre, primeiro as economias européias
e convulsionar seus governos, uma vez que todos esses países
estão penduradíssimos em empréstimos
nos bancos americanos. É só a velha história
se repetindo de roupa nova. Quando os EUA ficam resfriados,
os europeus pegam gripe e o resto do mundo vai com pneumonia
para a UTI, de onde só sai graças a fortes doses
de FMI na veia. A presente crise
teve duas origens: a incúria do governo americano e
do Federal Reserve ao não frear a alavancagem dos bancos
americanos; e, ainda mais fundamental, o conservadorismo dos
detentores de reservas em dólares (China, Comunidade
Européia, países árabes) ao destinar
maciçamente suas aplicações em títulos
do Tesouro americano e em depósitos remunerados. Os
bancos americanos e as agências hipotecárias
entraram numa acirrada concorrência, movida pelo excesso
de liquidez, o que resultou em diminuição da
rentabilidade das operações, pela menor taxa
de juros, e em elevação dos limites de risco.
Se boa parte desse dinheiro tivesse como destino títulos
públicos, agências de desenvolvimento ou bancos
de países emergentes, certamente a crise que já
está se transformando de financeira em econômica
não teria existido. "Um buraco
negro foi criado, não pelo acelerador de partículas, como
previam alguns, mas pela irresponsabilidade de gestores incompetentes."
Constituição Cidadã Parabéns
a VEJA pela reportagem em homenagem aos vinte anos da Constituição
Federal de 1988 ("Constituição 20
anos", 8 de outubro). Pode-se dizer, sem medo de errar,
que durante os seus vinte anos de idade a Constituição
Cidadã jamais foi tão bem mapeada e historicamente
justificada como na matéria dos notáveis jornalistas
Fabio Portela e Diego Escosteguy. Lendo a reportagem, que
prima por trazer à baila as duas faces da moeda, o
leitor atento, ainda que leigo no assunto, pôde encontrar
respostas às perguntas que lhe vêm à mente
ao abrir o jornal. A justificativa histórica para o
tratamento constitucional dado às questões políticas,
sociais e econômicas que diariamente são mencionadas
pelos meios de comunicação foi abordada com
clareza, de maneira didática, acessível a qualquer
brasileiro disposto a aprender e compreender a nossa Carta
de Direitos. A comemoração
dos vinte anos da Constituição Federal é
também uma celebração da estabilidade
política a partir da restauração democrática.
Nunca antes na história republicana os brasileiros
haviam conhecido uma fase tão longa de convivência
pautada pelo respeito às instituições.
A nova Carta é, sobretudo, um símbolo dessa
passagem à maturidade política. A Carta Magna não
pode ser tida como mera carta de intenções.
É fundamental que o Poder Judiciário disponibilize
para todos, sem distinção, a efetividade plena
dos princípios por ela assegurados. A aplicação
das garantias fundamentais de forma universal infelizmente
ainda é utópica. Na prática, os reais
destinatários de tais garantias ainda são uma
minoria, composta essencialmente de corruptos e criminosos
de colarinho branco. A eles, parece-me que a Constituição
dá ainda mais proteção. Algo deve estar
errado! De fato, nossa Constituição
é extensa e, muitas vezes, trata de assuntos que não
deveria tratar. Não obstante, acredito que ficou de
fora a exigência de alguns requisitos mínimos
para o ingresso na carreira política, tal como diploma
de curso superior. É um orgulho viver em uma democracia,
mas nossos políticos são uma vergonha. Por mais que se
intitule cidadã, a Constituição de 1988
não logrou incutir na consciência dos políticos
a ética, guardiã asseguradora dos princípios
geradores da igualdade e da justiça, pressupostos básicos
da cidadania, conforme sugere o preâmbulo da Carta Magna. Nossa última
Constituição guardou um dispositivo eficaz,
capaz de poupar tempo e garantir a contínua mudança
de nossa nação: as medidas provisórias.
Essa possibilidade de flexibilidade constitucional é
sem dúvida o que alavanca nosso país para a
tão sonhada posição de nação
desenvolvida. Parabéns, brilhantes pensadores do Brasil
do século XX. Triste retrato deixaram
de si mesmos os constituintes de 1988, imprimindo à
Carta Magna disposições que já nasceram
obsoletas. Muito barulho por nada fizeram ao chamar de "cidadã"
uma Constituição que necessita de uma emenda
a cada quatro meses para garantir as mínimas condições
para o bem-estar público. Enquanto isso, a Constituição
espanhola, de 1978, que em dezembro completará seu
trigésimo aniversário, uma década mais
velha que a brasileira, sofreu uma única emenda, em
1992, com a finalidade de adequá-la ao Tratado da União
Européia (Maastricht).
Carta ao leitor Sinteticamente respondo
à pergunta formulada por VEJA em sua Carta ao Leitor
("Sim, mas quem paga?", 8 de outubro). Quem paga
a conta somos nós, classe média, que não
temos acesso a serviços públicos de qualidade,
apesar da alta carga tributária que nos é imposta.
Ao confundirem liberdade política com direitos de cidadania,
criaram uma situação insustentável, na
qual os ricos continuam muito bem e os pobres são enganados
com cestas básicas, além de educação
e assistência à saúde de péssima
qualidade. Como bem assinalou VEJA, em momentos de crise externa
gravíssima como a que vivemos uma reforma constitucional
torna-se urgente.
Eleições 2008 Acho que os eleitores
de São Paulo estão preparando a cama para a
candidata Marta "relaxar e gozar" ("Urnas escaldantes",
8 de outubro).
Stephen Kanitz Stephen Kanitz fez
em sua coluna ("As vantagens da democracia negativa",
8 de outubro) as mesmas considerações que faço
sobre o atual sistema democrático. A figura de um administrador
de cidades seria indispensável para nossas prefeituras.
O amadorismo que vemos é de pasmar. Compartilho dessa
sensação de imperfeição da nossa
democracia, um tanto populista e festiva em minha opinião.
Acredito que um número cada vez maior de brasileiros
pensa dessa forma. A questão é como sair desse
poço em que nos metemos se, para os políticos,
que fazem as leis, essa forma é excelente e prática. A cada eleição
nossa desilusão aumenta, tanto que perdemos, muitas
vezes, a vontade de votar. Concordo plenamente que os candidatos
deveriam, no mínimo, ter formação administrativa,
como em qualquer profissão. Isso deveria ser condição
necessária para o registro da candidatura. Afinal,
qualquer candidato a concurso público, e mesmo para
trabalhar em muitas empresas privadas, deve ter formação
específica na área.
Tecnologia da informação Cumprimento VEJA
pela reportagem "O Brasil da inovação"
(8 de outubro), sobre os avanços no ramo da tecnologia
da informação e como esse mercado de trabalho
vem progredindo. Por ser uma estudante do curso de TI, a matéria
despertou o meu interesse de um ponto de vista diferente.
Amo a área tecnológica e busco sempre novos
meios de manter-me atualizada sobre o assunto, pois com a
globalização as coisas mudam muito depressa.
Se antes eu já era apaixonada pelo tema, agora, depois
de ler a magnífica reportagem, tenho certeza do que
quero. A matéria trouxe-me a idéia que faltava,
a confirmação de um mercado que tem espaço
para mim.
Diogo Mainardi Ao ler o texto "Uma
reforma mais radical" (8 de outubro), encontrei o primeiro
e único ponto positivo da tão comentada reforma
ortográfica: o prazer incontestável de apreciar
a maestria de Diogo Mainardi ao abordar esse assunto
tão importante para a população brasileira.
Ele está corretíssimo quando afirma que por
aqui não se sabe escrever sem reforma ortográfica,
muito menos com ela.
Connie Hedegaard Os estudos sobre
mudanças no clima acertam no diagnóstico, mas
erram no remédio. Não falam da causa maior:
o crescimento populacional. Deste resulta a crescente demanda
por alimentos, moradia, energia, transporte, bens de consumo
em geral. A corrida para alcançar o crescimento da
demanda já está sendo perdida mundo afora. Não
há como não incluir nas políticas de
governo o controle demográfico. Haverá resistências,
inclusive religiosas, mas deve-se começar por aí.
A próxima reunião mundial sobre o clima será
na Dinamarca, por acaso um país onde existe controle
demográfico, mais cultural do que imposto, o que explica
a qualidade de vida dos povos nórdicos (Amarelas, 8
de outubro).
Aids Achei incrível
a trajetória do vírus da aids durante seus 100
anos de vida, como pudemos ver na reportagem "Ele tem
100 anos" (8 de outubro). É extremamente interessante
como uma doença que surgiu nos confins da África,
a partir de macacos, pôde se espalhar pelo mundo e se
tornar conhecida como "O mal do século".
Muito interessante também é o fato de o comum
consumo de macacos pelos africanos estar tão relacionado
ao surgimento do HIV, o que nos mostra que os atos mais banais
podem ter as mais variadas conseqüências.
Novelas A reportagem "A
vida sexual das heroínas" (8 de outubro) caracterizou
bem a vida sexual das mocinhas das telenovelas. Ivani Ribeiro
e Geraldo Vietri, mestres na arte da teledramaturgia, escreviam
histórias sem grande conotação sexual,
mostrando que fizeram grande sucesso por seus textos impecáveis
e por construírem personagens impagáveis sem
nenhuma apelação, a exemplo de Antonio Maria
ou Ruth e Raquel. Assim, seria de bom alvitre que os jovens
autores aprendessem com os grandes mestres e, em vez de se
preocuparem com a vida sexual de seus personagens, se interessassem
mais na construção de uma história inteligente,
com emoção e conteúdo.
Roberto Pompeu de Toledo Roberto Pompeu de
Toledo escreveu um texto antológico, de pura filosofia
da história, no ensaio "A vã corrida atrás
da história" (8 de outubro). Sobrepondo-se ao
ruído ensurdecedor dos falsos profetas que anunciam
solenemente o fim do liberalismo, do neoliberalismo, do capitalismo,
de um certo capitalismo, da hegemonia americana, de um modo
de vida e de um modo de encarar o mundo, ele vai ao ponto
quando escreve que alguns anunciam o fim do mundo por ideologia,
outros "pelo irresistível impulso de avançar
o sinal da história". Roberto faz lembrar os versos
do poeta espanhol Antonio Machado: "Acaben los ecos /
empiecen las voces". Para ficar só na conclusão
de sua matéria, Pompeu diz tudo o que é preciso
dizer ao enunciar este primor de perspicácia e independência
intelectual: "O problema é que a história
é tão exasperadamente lenta em manifestar-se
que só se percebem seus movimentos décadas ou
séculos depois". Com efeito, a corrida atrás
da história é vã, porque corremos não
atrás da história, com seu poder inesperado
de inovação, mas da sombra do presente projetada
no futuro.
Arte Brilhante a reportagem
sobre Van Gogh ("O espetáculo noturno", 1º
de outubro). Uma aula de história da arte. Felizmente
não foi escrita por um crítico. E a maior lição
vem para os artistas "contemporâneos" do Brasil:
fazem cursinho de arte moderna em seis meses e ficam com uma
arrogância que Van Gogh e outros gênios jamais
teriam. Contratam logo uma assessoria de imprensa, marcam
o vernissage e entram no tal mercado de arte, com marchand
e tudo.
Correção: a pintura La Liberté Guidant le Peuple, de Eugène Delacroix, que ilustrou a reportagem "Pequeno guia das constituições" (8 de outubro), é alusiva à Revolução de 1830, que depôs o rei Carlos X, e não à Revolução Francesa de 1789.
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