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Ponto
de vista: Luiz Felipe de Alencastro
Cadências
latinas
"A
ascensão social e cultural dos
latinos nos Estados Unidos compensa
largamente o declínio da influência
latina na
União Européia"
Há
algo de novo na frente ocidental da Europa. No próximo ano,
mais dez países se incorporarão à União
Européia (UE): Chipre, Estônia, Hungria, Letônia,
Lituânia, Malta, Polônia, República Checa, Eslováquia
e Eslovênia. O processo de integração do grupo
iniciou-se em 1998 e deverá prolongar-se até bem mais
adiante, até que os novos membros alcancem as metas econômicas
necessárias para a adesão à moeda única.
Em 2007, a Bulgária e a Romênia também aderirão,
elevando a população da UE a cerca de 500 milhões
de habitantes. Como se vê, a nova UE, que segundo seus círculos
dirigentes poderá guardar o mesmo nome ou passar a se chamar
Estados Unidos da Europa, mudará consideravelmente com os
novos países-membros. Mais orientada para a Europa Central
e Oriental, a UE terá outro perfil cultural e político.
O núcleo inicial dos seis países fundadores (Alemanha
Ocidental, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo
e Holanda) signatários do Tratado de Roma (1957) tinha um
cariz eminentemente ocidental, contando com uma maioria de povos
de cultura latina. Diante de uma Alemanha dividida e de uma Itália
politicamente instável, a França exercia uma liderança
quase incontestada.
Desde a reunificação alemã, em 1990, o eixo
da comunidade européia começou a deslocar-se para
o centro do continente. A partir de 1º de maio de 2004, com
seus 25 países-membros, a UE terá uma composição
variada, em que os povos latinos representarão apenas dois
quintos do total de habitantes. Quais serão as relações
dessa nova Europa com a América Latina? Qual o futuro da
latinidade?
Ilustração Ale Setti
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No contexto das alianças e dos atritos triangulares entre
o Mercosul, a Alca e a União Européia, o presidente
francês Jacques Chirac em 1997, durante sua visita ao Brasil,
declarou: "O futuro da América Latina não está
no eixo Norte-Sul. Está na Europa, por razões que
decorrem da história, da cultura e da adesão aos mesmos
valores, ao mesmo tipo de humanismo, mas também às
mesmas complementaridades econômicas". Mas o mundo anda rápido.
À medida que a unificação do continente avança,
a UE ganha outra cara, distinta do modelo latino e oeste-europeu
que predominou até agora. No meio tempo, o desfecho da reunião
da OMC em Cancún mostrou, mais uma vez, que a UE também
sabe achar "complementaridades econômicas" com os Estados
Unidos, em detrimento da América Latina e do Brasil.
Nesse universo que se revira, o Brasil terá de se virar,
redimensionando suas relações com a Europa e os EUA,
abrindo mais espaço para outras identidades, para outras
aproximações. Para as trocas econômicas com
a China, que se tornou o segundo maior mercado de exportações
do Brasil, atrás apenas dos Estados Unidos. Para o intercâmbio
cultural e diplomático com a África, pois, mais cedo
ou mais tarde, o retrato da evolução demográfica
desenhada nos gráficos dos recenseamentos se encarnará
na nação: nosso povo será majoritariamente
formado por afro-descendentes.
Sob o impacto de outras influências, até mesmo o componente
latino de nossa cultura irá se modificar. Assim, a ascensão
social e cultural dos latinos nos EUA, entre os quais se encontram
perto de 900.000 imigrantes brasileiros, compensa largamente o declínio
da influência latina na União Européia. Essa
neolatinidade americana já dispõe até de uma
nova língua, o "spanglish". Escrito por Ilan Stavans, um
especialista nascido no México numa família judia
oriunda da Europa Central, o livro Spanglish, The Making of a
New American Language (HarperCollins, Nova York, 2003) estuda
a difusão da mistura de inglês e espanhol na mídia
e na conversação corrente nos Estados Unidos. Como
observa Stavans, há mais estações de rádio
de língua espanhola na Califórnia do que em todos
os países da América Central. Dessas novas cadências
nascerá outra latinidade.
Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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