Edição 1824 . 15 de outubro de 2003

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Ponto de vista: Luiz Felipe de Alencastro
Cadências latinas

"A ascensão social e cultural dos
latinos nos Estados Unidos compensa
largamente o declínio da influência
latina
na União Européia"

Há algo de novo na frente ocidental da Europa. No próximo ano, mais dez países se incorporarão à União Européia (UE): Chipre, Estônia, Hungria, Letônia, Lituânia, Malta, Polônia, República Checa, Eslováquia e Eslovênia. O processo de integração do grupo iniciou-se em 1998 e deverá prolongar-se até bem mais adiante, até que os novos membros alcancem as metas econômicas necessárias para a adesão à moeda única. Em 2007, a Bulgária e a Romênia também aderirão, elevando a população da UE a cerca de 500 milhões de habitantes. Como se vê, a nova UE, que segundo seus círculos dirigentes poderá guardar o mesmo nome ou passar a se chamar Estados Unidos da Europa, mudará consideravelmente com os novos países-membros. Mais orientada para a Europa Central e Oriental, a UE terá outro perfil cultural e político. O núcleo inicial dos seis países fundadores (Alemanha Ocidental, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e Holanda) signatários do Tratado de Roma (1957) tinha um cariz eminentemente ocidental, contando com uma maioria de povos de cultura latina. Diante de uma Alemanha dividida e de uma Itália politicamente instável, a França exercia uma liderança quase incontestada.

Desde a reunificação alemã, em 1990, o eixo da comunidade européia começou a deslocar-se para o centro do continente. A partir de 1º de maio de 2004, com seus 25 países-membros, a UE terá uma composição variada, em que os povos latinos representarão apenas dois quintos do total de habitantes. Quais serão as relações dessa nova Europa com a América Latina? Qual o futuro da latinidade?

Ilustração Ale Setti


No contexto das alianças e dos atritos triangulares entre o Mercosul, a Alca e a União Européia, o presidente francês Jacques Chirac em 1997, durante sua visita ao Brasil, declarou: "O futuro da América Latina não está no eixo Norte-Sul. Está na Europa, por razões que decorrem da história, da cultura e da adesão aos mesmos valores, ao mesmo tipo de humanismo, mas também às mesmas complementaridades econômicas". Mas o mundo anda rápido. À medida que a unificação do continente avança, a UE ganha outra cara, distinta do modelo latino e oeste-europeu que predominou até agora. No meio tempo, o desfecho da reunião da OMC em Cancún mostrou, mais uma vez, que a UE também sabe achar "complementaridades econômicas" com os Estados Unidos, em detrimento da América Latina e do Brasil.

Nesse universo que se revira, o Brasil terá de se virar, redimensionando suas relações com a Europa e os EUA, abrindo mais espaço para outras identidades, para outras aproximações. Para as trocas econômicas com a China, que se tornou o segundo maior mercado de exportações do Brasil, atrás apenas dos Estados Unidos. Para o intercâmbio cultural e diplomático com a África, pois, mais cedo ou mais tarde, o retrato da evolução demográfica desenhada nos gráficos dos recenseamentos se encarnará na nação: nosso povo será majoritariamente formado por afro-descendentes.

Sob o impacto de outras influências, até mesmo o componente latino de nossa cultura irá se modificar. Assim, a ascensão social e cultural dos latinos nos EUA, entre os quais se encontram perto de 900.000 imigrantes brasileiros, compensa largamente o declínio da influência latina na União Européia. Essa neolatinidade americana já dispõe até de uma nova língua, o "spanglish". Escrito por Ilan Stavans, um especialista nascido no México numa família judia oriunda da Europa Central, o livro Spanglish, The Making of a New American Language (HarperCollins, Nova York, 2003) estuda a difusão da mistura de inglês e espanhol na mídia e na conversação corrente nos Estados Unidos. Como observa Stavans, há mais estações de rádio de língua espanhola na Califórnia do que em todos os países da América Central. Dessas novas cadências nascerá outra latinidade.


Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris ­ Sorbonne (abomey@uol.com.br)

 
 
 
 
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