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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
O último que chegar
é mulher de padre
O
troca-troca de
partidos caracteriza
avassalador fenômeno
migratório,
libertador da pena de ser oposição
Mais
de 100 deputados e senadores trocaram de partido desde a eleição
do ano passado. Segundo o jornal O Globo, até o último
dia 3 os vira-casacas foram 103 na Câmara e dez no Senado.
O Estado de S. Paulo computou 120 trânsfugas, só
entre os deputados, até a mesma data. Talvez a diferença
se deva ao fato de alguns parlamentares terem mudado de partido
mais de uma vez. Mas talvez se deva mesmo à velocidade com
que se dá o troca-troca, rápida como num jogo eletrônico.
Acompanhar movimentações desse porte é difícil
como contar as árvores do caminho, de dentro de um trem-bala.
Um
quinto dos membros da Câmara entrou na dança. O PTB
elegeu 26 deputados, porém, campeão nas artes de seduzir
e aliciar, conseguiu aumentar sua bancada para 55. O PL também
largou com 26, mas na semana passada falava mais grosso, do alto
de uma bancada de 42 integrantes. Ambos os partidos beneficiaram-se
de um regime de engorda capaz de humilhar criadores de porcos premiados.
Do lado perdedor, o PFL, que os eleitores haviam contemplado com
84 deputados, minguou para 65, e o PSDB foi de 70 para 52. Nesses
casos, deu-se um regime de emagrecimento de resultados mais drásticos
que os das dietas do doutor Atkins, de Beverly Hills, do Astronauta,
da Lua e dos Vigilantes do Peso, todas atuando juntas. O presidente
Lula, segundo informações extra-oficiais (a oficial
não existe, pois o dado é protegido por razões
de privacidade), perdeu 8 quilos desde que começou seu regime.
Somados, o PSDB e o PFL perderam 4,6 vezes mais deputados do que
o presidente perdeu quilos. Nem seria preciso dizer, mas diga-se,
em honra ao leitor menos avisado, que o PTB e o PL, os partidos
da engorda, são da chamada base do governo. O PSDB e o PFL,
os do emagrecimento, são da oposição.
O
fenômeno de uma massa de parlamentares pondo-se em movimento
em busca de outra legenda configura uma migração a
gosto do fotógrafo Sebastião Salgado. O quadro que
vem à mente é de uma multidão de almas penadas
em busca de melhor sorte, a pele curtida, os pés doídos
de vagar por enganosos caminhos. Ou, para ir ainda mais longe, uma
migração digna da fuga dos judeus do Egito, aí
incluídos o Mar Vermelho que se abre para favorecer-lhes
a passagem (que muitos identificariam com as magias facilitadoras
da Casa Civil da Presidência) e o anúncio da terra
prometida (identificada no aceno de cargos e outras benesses governamentais).
Como, segundo as evidências disponíveis, o regente-geral
do fenômeno migratório é o ministro José
Dirceu, a ele cabe o papel de Moisés. É ele o guia
que tira as massas oprimidas do inferno da oposição
e as conduz até os umbrais luminosos da situação.
"Ser oposição, nesta nossa República, é
rematada loucura", dizia, 100 anos atrás, o político
paulista Francisco Glicério. A lição, para
a multidão envolvida na travessia do deserto partidário,
continua atual.
Distinguem-se,
no meio da massa, alguns mais irrequietos. O deputado fluminense
Sandro Matos foi eleito pelo PTB. Depois mudou para o PSB e em seguida
para o PMDB, antes de finalmente voltar para o PTB. Três mudanças
num mesmo ano. O goiano Enio Tatico, eleito pelo PSC, foi primeiro
para o PL e depois para o PTB. Duas mudanças e três
bandeiras partidárias. No meio da multidão, essas
são as peças mais curiosas. Fazem o papel de coelhos
de quermesse, indecisos sobre em que casa entrar. A não ser
que... A não ser que se inverta o foco da atenção
e se chegue à conclusão de que digno de nota, mesmo,
não é o fenômeno dos que migram, mas o dos que
ficam. Sim, um quinto dos deputados federais mudou de partido. Mas
quatro quintos não mudaram! Dada a ligeireza com que se trata
a política no país, tanto da parte dos políticos
quanto da dos eleitores, vai ver que fenômeno de verdade,
mesmo, é esse.
O PTB e o PL engordaram seus quadros, assim como o PMDB e outros
menos cotados. O PSDB e o PFL emagreceram. Mas o PT, salvo casos
pontuais, como o do deputado Fernando Gabeira, que na semana passada
ameaçava deixar o partido, ficou do mesmo tamanho. O governo
não teve escrúpulos em induzir uma mudança
maciça de parlamentares rumo às legendas que o apóiam,
mas não abriu as porteiras de sua própria legenda.
Aí, o escrúpulo permaneceu, e com isso o PT provou,
mais uma vez, que, no quadro partidário brasileiro, é
uma exceção. O rebotalho de vira-casacas serve para
apoiar o governo. Mas não para vir ciscar no interior do
partido.
Líderes
do PSDB e do PFL queixaram-se, nos últimos dias, da sangria
provocada em seus quadros. Deviam regozijar-se de ver-se livres
de integrantes com convicções tão firmes quanto
folha ao vento. Se assim fizessem, numa demonstração
de zelo pela pureza de suas linhas, ficariam um pouco mais parecidos
com o PT. O PT oferece um modelo que outros partidos, que se pretendem
sérios, estão tardando a copiar. Talvez, quando se
resolverem a fazê-lo, seja tarde. Não haverá
mais outro partido. Só o PT.
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