Edição 1824 . 15 de outubro de 2003

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O último que chegar
é mulher de padre

O troca-troca de partidos caracteriza
avassalador fenômeno migratório,
libertador
da pena de ser oposição

Mais de 100 deputados e senadores trocaram de partido desde a eleição do ano passado. Segundo o jornal O Globo, até o último dia 3 os vira-casacas foram 103 na Câmara e dez no Senado. O Estado de S. Paulo computou 120 trânsfugas, só entre os deputados, até a mesma data. Talvez a diferença se deva ao fato de alguns parlamentares terem mudado de partido mais de uma vez. Mas talvez se deva mesmo à velocidade com que se dá o troca-troca, rápida como num jogo eletrônico. Acompanhar movimentações desse porte é difícil como contar as árvores do caminho, de dentro de um trem-bala.

Um quinto dos membros da Câmara entrou na dança. O PTB elegeu 26 deputados, porém, campeão nas artes de seduzir e aliciar, conseguiu aumentar sua bancada para 55. O PL também largou com 26, mas na semana passada falava mais grosso, do alto de uma bancada de 42 integrantes. Ambos os partidos beneficiaram-se de um regime de engorda capaz de humilhar criadores de porcos premiados. Do lado perdedor, o PFL, que os eleitores haviam contemplado com 84 deputados, minguou para 65, e o PSDB foi de 70 para 52. Nesses casos, deu-se um regime de emagrecimento de resultados mais drásticos que os das dietas do doutor Atkins, de Beverly Hills, do Astronauta, da Lua e dos Vigilantes do Peso, todas atuando juntas. O presidente Lula, segundo informações extra-oficiais (a oficial não existe, pois o dado é protegido por razões de privacidade), perdeu 8 quilos desde que começou seu regime. Somados, o PSDB e o PFL perderam 4,6 vezes mais deputados do que o presidente perdeu quilos. Nem seria preciso dizer, mas diga-se, em honra ao leitor menos avisado, que o PTB e o PL, os partidos da engorda, são da chamada base do governo. O PSDB e o PFL, os do emagrecimento, são da oposição.

O fenômeno de uma massa de parlamentares pondo-se em movimento em busca de outra legenda configura uma migração a gosto do fotógrafo Sebastião Salgado. O quadro que vem à mente é de uma multidão de almas penadas em busca de melhor sorte, a pele curtida, os pés doídos de vagar por enganosos caminhos. Ou, para ir ainda mais longe, uma migração digna da fuga dos judeus do Egito, aí incluídos o Mar Vermelho que se abre para favorecer-lhes a passagem (que muitos identificariam com as magias facilitadoras da Casa Civil da Presidência) e o anúncio da terra prometida (identificada no aceno de cargos e outras benesses governamentais). Como, segundo as evidências disponíveis, o regente-geral do fenômeno migratório é o ministro José Dirceu, a ele cabe o papel de Moisés. É ele o guia que tira as massas oprimidas do inferno da oposição e as conduz até os umbrais luminosos da situação. "Ser oposição, nesta nossa República, é rematada loucura", dizia, 100 anos atrás, o político paulista Francisco Glicério. A lição, para a multidão envolvida na travessia do deserto partidário, continua atual.

Distinguem-se, no meio da massa, alguns mais irrequietos. O deputado fluminense Sandro Matos foi eleito pelo PTB. Depois mudou para o PSB e em seguida para o PMDB, antes de finalmente voltar para o PTB. Três mudanças num mesmo ano. O goiano Enio Tatico, eleito pelo PSC, foi primeiro para o PL e depois para o PTB. Duas mudanças e três bandeiras partidárias. No meio da multidão, essas são as peças mais curiosas. Fazem o papel de coelhos de quermesse, indecisos sobre em que casa entrar. A não ser que... A não ser que se inverta o foco da atenção e se chegue à conclusão de que digno de nota, mesmo, não é o fenômeno dos que migram, mas o dos que ficam. Sim, um quinto dos deputados federais mudou de partido. Mas quatro quintos não mudaram! Dada a ligeireza com que se trata a política no país, tanto da parte dos políticos quanto da dos eleitores, vai ver que fenômeno de verdade, mesmo, é esse.

O PTB e o PL engordaram seus quadros, assim como o PMDB e outros menos cotados. O PSDB e o PFL emagreceram. Mas o PT, salvo casos pontuais, como o do deputado Fernando Gabeira, que na semana passada ameaçava deixar o partido, ficou do mesmo tamanho. O governo não teve escrúpulos em induzir uma mudança maciça de parlamentares rumo às legendas que o apóiam, mas não abriu as porteiras de sua própria legenda. Aí, o escrúpulo permaneceu, e com isso o PT provou, mais uma vez, que, no quadro partidário brasileiro, é uma exceção. O rebotalho de vira-casacas serve para apoiar o governo. Mas não para vir ciscar no interior do partido.

Líderes do PSDB e do PFL queixaram-se, nos últimos dias, da sangria provocada em seus quadros. Deviam regozijar-se de ver-se livres de integrantes com convicções tão firmes quanto folha ao vento. Se assim fizessem, numa demonstração de zelo pela pureza de suas linhas, ficariam um pouco mais parecidos com o PT. O PT oferece um modelo que outros partidos, que se pretendem sérios, estão tardando a copiar. Talvez, quando se resolverem a fazê-lo, seja tarde. Não haverá mais outro partido. Só o PT.

 
 
 
 
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