Edição 1824 . 15 de outubro de 2003

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Música
A vitória do contra

A banda Los Hermanos faz sucesso
sem seguir a cartilha das gravadoras


Sérgio Martins


Claudio Rossi
Hermanos: Cara Estranho, a nova canção do grupo, não tem refrão, mas não sai das rádios


PARA OUVIR
Cara Estranho
A Flor
Veja Bem Meu Bem
Samba a Dois
Do Sétimo Andar
DA INTERNET
Site oficial da banda

Para um diretor de gravadora, não existe nada mais anticomercial do que uma canção sem refrão. Se a tal música sem refrão tiver dois solos de guitarra seguidos, pior ainda. Se ela for escolhida como canção de trabalho – aquela que vai tocar nas rádios –, é sinal de que a gravadora está em apuros. Pois a banda Los Hermanos provou que as exceções existem. Autores de Anna Júlia, balada que virou hit do Carnaval baiano e foi gravada até pelo ex-beatle George Harrison, eles têm repudiado a fórmula do sucesso com resultados positivos. Cara Estranho, a tal canção sem refrão e com dois solos, não sai das rádios-rock do país. Ventura, terceiro disco do grupo, chegou à marca de 42.000 cópias vendidas. É pouco se comparado ao CD de estréia, que trazia Anna Júlia e chegou aos 300.000 exemplares, mas muito bom para o atual momento do mercado. Há, além disso, a questão inefável do prestígio. Os Hermanos têm fãs entre os artistas do primeiro time da MPB e entre a moçada emergente. Caetano Veloso até vestiu uma barba postiça, à la Hermanos, para apresentar o grupo na mais recente premiação da MTV. "Foi um gesto até bonito, mas ele não precisava pagar aquele mico", diz o tecladista Bruno Medina.


A principal estratégia de marketing dos Hermanos é não ter estratégia. Ou melhor, fingir que não têm estratégia. Apesar de serem todos de classe média alta, eles se vestem de maneira relaxada e não dispensam a camiseta furada, item obrigatório em bandas ditas alternativas. Três deles usam barba que os credenciaria como figurantes de filmes bíblicos. A justificativa vai do queixo fino do cantor e guitarrista Marcelo Camelo – a barba esconderia essa imperfeição – à preguiça de usar a navalha. O toque final fica por conta de uma postura de quem é alheio ao sucesso. "Não fazemos músicas para passar mensagens ou revolucionar o mercado. Nossos CDs não servem para nada a não ser para serem tocados", diz o guitarrista Rodrigo Amarante. Os Hermanos são uma das raras bandas brasileiras que não imitam a mescla de funk e rock consagrada por artistas como Charlie Brown Jr. Também não apelam às letras escatológicas. Pelo contrário: muitas de suas composições trazem uma certa melancolia que lembra os sambas antigos. As apresentações do grupo costumam atrair um público bastante diverso, que chega às lágrimas durante as passagens mais românticas das canções. Os fãs nem sequer reclamam da ausência de Anna Júlia, há tempos vetada das turnês dos Hermanos. "A gente até gosta dela, mas a canção não cabe mais no roteiro", justificam.

 
 
 
 
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