Edição 1823 . 8 de outubro de 2003

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Livros
Num país obscuro

A morte e o "depois" assombram os
personagens de O Vôo da Madrugada,
de Sérgio Sant'Anna


Jerônimo Teixeira


São os dois maiores temas literários, e haverá quem diga que são os únicos: amor e morte. A obra de Sérgio Sant'Anna até aqui se voltava mais ao primeiro deles. Estreando com os contos de O Sobrevivente, em 1969, o escritor carioca era um representante da geração que descobria no sexo uma bandeira libertária. Ainda é assim, por exemplo, no conto-título de A Senhorita Simpson, de 1989, no qual o protagonista precisa passar por uma série de aventuras priápicas para no final se lançar a uma viagem de descoberta. No recém-lançado O Vôo da Madrugada (Companhia das Letras; 247 páginas; 39 reais), porém, a viagem é outra. Na maioria dos contos dessa coletânea, os personagens mostram-se obsessivamente preocupados com a morte e com o que vem (ou não) depois. Isso é ao mesmo tempo a grande qualidade e o grande defeito do livro.

No final de A Senhorita Simpson, o protagonista, com 30 anos, afirma que está deixando para trás não a sua juventude, mas a velhice. Essa declaração heróica soa ingênua, quando confrontada à realidade física que assombra alguns personagens de O Vôo da Madrugada, como a senhora com incontinência urinária e glaucoma do conto Formigas de Apartamento. Mesmo os personagens mais jovens estão sempre se perguntando sobre o fim, sobre a existência ou não de vida em outro plano. No magistral O Embrulho da Carne, a personagem, misto de perua carioca e histérica vienense, está obcecada com uma notícia de tablóide: o estupro e assassinato de uma jovem encontrada num trem abandonado. A força expressiva da coletânea parece vir desse país obscuro do qual ninguém retorna, e a morte é o impulso oculto também em Um Conto Abstrato e Um Conto Obscuro, talvez os melhores momentos do livro. São uma mistura de ensaio, ficção e memória, sem um enredo condutor – contos sobre a composição de um conto impossível.

O autor atrapalha-se, porém, na solenidade que seu tema parece exigir. Seu humor às vezes falha, e os personagens tornam-se graves e sentenciosos. Essa afetação emperra a narrativa do conto-título, que tem lugar entre Boa Vista e São Paulo, na viagem de um avião que transporta os corpos de vítimas de um acidente aéreo e seus parentes enlutados. O conto ainda se equilibra na ambigüidade, deixando que o leitor decida se aquela é ou não uma história de fantasmas. Já a exclusão do longo O Gorila, que ocupa sozinho a segunda seção do livro, tornaria O Vôo da Madrugada melhor. Nas primeiras páginas, o leitor ainda se diverte com os espirituosos diálogos do tarado telefônico que se intitula "o Gorila". Mas logo o conto vira uma salada místico-erótica, com repetitivas especulações sobre o suicídio e o amor "transcendental".

A terceira e última seção de O Vôo da Madrugada reúne o que o autor chamou de "três textos do olhar". São contos, ou quase ensaios, compostos sobre pinturas da brasileira Cristina Salgado, do francês Balthus, do expressionista austríaco Egon Schiele. É curioso que esses textos amorosos figurem no final de um livro que até ali era dedicado à morte. No olhar maravilhado que dedica a essas obras eróticas, Sant'Anna parece estar expressando – embora não explicitamente – a esperança de que a arte, afinal, possa sobreviver. Outra crença ingênua, talvez. Mas quem quer abdicar dela?

 
No trem-fantasma

"Meu coração pulava pela boca, mas me deitei na cama, abri o jornal e fui lendo os detalhes, um por um: que era uma moça humilde, de uns vinte anos, presumivelmente, com roupas surradas e calçando um velho tênis cor-de-rosa, com um buraco na sola. Isso, no tênis que ainda estava no pé dela, porque o outro estava no chão do vagão, junto com a calcinha, a miniblusa e o sutiã. Segundo os policiais, ela provavelmente fora atraída por um homem para um encontro amoroso no vagão do trem abandonado, o trem-fantasma, que serve de abrigo para mendigos, marginais e viciados em drogas, conforme o depoimento de moradores da região. Chegando lá, havia, com certeza, pelo menos mais um homem esperando, e ela pode ter resistido, pois foi brutalmente espancada, antes de ser estuprada e morta, e isso a gente podia ver pelo rosto desfigurado dela na fotografia."

Trecho do conto O Embrulho da Carne

 

 
 
 
 
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