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Livros
Num
país obscuro
A
morte e o "depois" assombram os
personagens de O Vôo da Madrugada,
de Sérgio Sant'Anna

Jerônimo
Teixeira
São
os dois maiores temas literários, e haverá quem diga
que são os únicos: amor e morte. A obra de Sérgio
Sant'Anna até aqui se voltava mais ao primeiro deles. Estreando
com os contos de O Sobrevivente, em 1969, o escritor carioca
era um representante da geração que descobria no sexo
uma bandeira libertária. Ainda é assim, por exemplo,
no conto-título de A Senhorita Simpson, de 1989, no
qual o protagonista precisa passar por uma série de aventuras
priápicas para no final se lançar a uma viagem de
descoberta. No recém-lançado O Vôo da
Madrugada (Companhia das Letras; 247 páginas; 39
reais), porém, a viagem é outra. Na maioria dos contos
dessa coletânea, os personagens mostram-se obsessivamente
preocupados com a morte e com o que vem (ou não) depois.
Isso é ao mesmo tempo a grande qualidade e o grande defeito
do livro.
No
final de A Senhorita Simpson, o protagonista, com 30 anos,
afirma que está deixando para trás não a sua
juventude, mas a velhice. Essa declaração heróica
soa ingênua, quando confrontada à realidade física
que assombra alguns personagens de O Vôo da Madrugada,
como a senhora com incontinência urinária e glaucoma
do conto Formigas de Apartamento. Mesmo os personagens mais
jovens estão sempre se perguntando sobre o fim, sobre a existência
ou não de vida em outro plano. No magistral O Embrulho
da Carne, a personagem, misto de perua carioca e histérica
vienense, está obcecada com uma notícia de tablóide:
o estupro e assassinato de uma jovem encontrada num trem abandonado.
A força expressiva da coletânea parece vir desse país
obscuro do qual ninguém retorna, e a morte é o impulso
oculto também em Um Conto Abstrato e Um Conto Obscuro,
talvez os melhores momentos do livro. São uma mistura de
ensaio, ficção e memória, sem um enredo condutor
contos sobre a composição de um conto impossível.
O
autor atrapalha-se, porém, na solenidade que seu tema parece
exigir. Seu humor às vezes falha, e os personagens tornam-se
graves e sentenciosos. Essa afetação emperra a narrativa
do conto-título, que tem lugar entre Boa Vista e São
Paulo, na viagem de um avião que transporta os corpos de
vítimas de um acidente aéreo e seus parentes enlutados.
O conto ainda se equilibra na ambigüidade, deixando que o leitor
decida se aquela é ou não uma história de fantasmas.
Já a exclusão do longo O Gorila, que ocupa
sozinho a segunda seção do livro, tornaria O Vôo
da Madrugada melhor. Nas primeiras páginas, o leitor
ainda se diverte com os espirituosos diálogos do tarado telefônico
que se intitula "o Gorila". Mas logo o conto vira uma salada místico-erótica,
com repetitivas especulações sobre o suicídio
e o amor "transcendental".
A
terceira e última seção de O Vôo da
Madrugada reúne o que o autor chamou de "três textos
do olhar". São contos, ou quase ensaios, compostos sobre
pinturas da brasileira Cristina Salgado, do francês Balthus,
do expressionista austríaco Egon Schiele. É curioso
que esses textos amorosos figurem no final de um livro que até
ali era dedicado à morte. No olhar maravilhado que dedica
a essas obras eróticas, Sant'Anna parece estar expressando
embora não explicitamente a esperança
de que a arte, afinal, possa sobreviver. Outra crença ingênua,
talvez. Mas quem quer abdicar dela?
| No
trem-fantasma |
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"Meu
coração pulava pela boca, mas me deitei
na cama, abri o jornal e fui lendo os detalhes, um por
um: que era uma moça humilde, de uns vinte anos,
presumivelmente, com roupas surradas e calçando
um velho tênis cor-de-rosa, com um buraco na sola.
Isso, no tênis que ainda estava no pé dela,
porque o outro estava no chão do vagão,
junto com a calcinha, a miniblusa e o sutiã.
Segundo os policiais, ela provavelmente fora atraída
por um homem para um encontro amoroso no vagão
do trem abandonado, o trem-fantasma, que serve de abrigo
para mendigos, marginais e viciados em drogas, conforme
o depoimento de moradores da região. Chegando
lá, havia, com certeza, pelo menos mais um homem
esperando, e ela pode ter resistido, pois foi brutalmente
espancada, antes de ser estuprada e morta, e isso a
gente podia ver pelo rosto desfigurado dela na fotografia."
Trecho
do conto O Embrulho da Carne
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