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Trabalho
Os
samurais sem patrão
Sem chance de bons empregos,
uma geração de japoneses
vive
no limbo social
Há menos de duas décadas, quando sua economia batia
sucessivos recordes de produtividade, o Japão era considerado
um exemplo a ser seguido. Boa parte do sucesso nipônico foi
creditada ao modelo industrial adotado depois de 1945, que aliava
eficiência, disciplina e um regime de trabalho singular. A
base do sistema era a certeza de que o jovem que terminava a universidade
era contratado por uma empresa, incorporava seus valores com fervor
e, em troca, tinha o emprego garantido até a aposentadoria.
Treze anos consecutivos de recessão decretaram o fim desse
modelo. As empresas, obrigadas a enxugar custos, simplesmente pararam
de contratar condenando uma geração inteira
de jovens ao desemprego. São os primeiros sem-emprego da
história recente do Japão, e nenhum deles sabe muito
bem como lidar com a novidade. Sem opção, muitos encararam
os trabalhos temporários coisa que seus pais e vizinhos
consideram uma vergonha.
Os freeters, como são chamados no Japão os jovens
de até 34 anos que vivem de bico, são um pesadelo
num país onde desemprego é sinônimo de marginalidade
social. A carreira profissional é o que há de mais
sagrado para os japoneses. Não é à toa que
o número de suicídios no Japão aumentou desde
o início da recessão. É comum o demitido esconder
o fato da família até arrumar outro emprego, simulando
diariamente a ida ao trabalho. Nos anos 80, época da bonança,
os freeters não chegavam a 500 000 em sua maioria
jovens excêntricos, que desprezavam a cultura corporativa,
ou ainda indecisos quanto à carreira profissional. Hoje,
eles somam 4,5 milhões e representam o lado mais sombrio
da recessão japonesa. Sete de cada dez vivem na casa dos
pais. Isso causa outro conflito cultural, desta vez doméstico:
muitas famílias não conseguem assimilar a idéia
de ter um desempregado dentro de casa.
AFP
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| Jovens
se cadastram numa agência de trabalho em Tóquio:
futuro incerto |
Os
desempregados sinalizam para uma nova tendência a migração
de ofertas de emprego da indústria para o setor de serviços,
no qual a rotatividade é maior e a qualificação
exigida, menor. Atraídas pela fartura de mão-de-obra
baratíssima, muitas indústrias japonesas levaram suas
linhas de produção para a China ou outros países
miseráveis do Sudeste Asiático. Ou seja, não
há perspectiva a curto prazo para que os jovens japoneses
sejam absorvidos pelo mercado formal de trabalho. Quanto mais tempo
eles demorarem para conseguir um emprego fixo, menores as chances
de adquirir a experiência que é exigida nos melhores
empregos. Um jovem que vive de bico ganha, se tiver sorte, o equivalente
a 1 000 dólares por mês um salário irrisório
no país cujo custo de vida é considerado o mais elevado
do mundo.
Para onde se olhe, as conseqüências são ruins.
A falta de um emprego fixo está levando esses jovens a adiar
planos de casamento e, portanto, de ter filhos. Para o Japão,
cujo índice de crescimento populacional é próximo
do zero, trata-se de um problema sério. Há ainda efeitos
perversos de ordem econômica. Sem emprego formal, eles não
contribuem para a Previdência Social e, por tabela, aprofundam
o buraco de arrecadação causado pelo envelhecimento
da população. O pior dos males é a certeza
de que eles estão fora do mercado consumidor. Para sair da
agonia da recessão, o Japão precisa basicamente que
a população vá às compras e aqueça
a economia doméstica. Isso depende sobretudo dos jovens,
mais gastadores que seus pais. Os japoneses mais velhos são
consumidores cautelosos, que preferem economizar para a aposentadoria.
AP
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| Movimento
no distrito financeiro de Tóquio: as fábricas mudaram para a
China |
O
governo japonês anunciou recentemente algumas providências
para ajudar os desempregados. Uma delas procura ampliar a oferta
de estágio para os universitários e, com isso, facilitar
sua entrada no mercado de trabalho. Outra prevê financiamento
e auxílio técnico para que jovens empreendedores possam
dar início ao próprio negócio. Os desempregados
são a prova de que a indústria japonesa perdeu o ânimo.
Nesse sentido, a criação de novos negócios
é o caminho natural para o país recuperar sua vocação
produtiva. "Há um grande número de engenheiros altamente
qualificados que poderiam ser os pioneiros de um novo estilo empreendedor
no Japão", disse a VEJA o economista Tomokazu Fujitsuka,
da Universidade de Miyazaki. Seria a retomada de uma fórmula
vitoriosa. Logo após a II Guerra, poucos japoneses tinham
emprego fixo enquanto os aprendizes e trabalhadores temporários,
os freeters daquela época, estavam em todos os setores. O
espírito empreendedor e o poder de iniciativa daqueles sem-emprego
são apontados como fundamentais para a transformação
de um país em ruínas numa potência econômica
em apenas duas gerações.
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