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Entrevista:
Roberto Rodrigues
O
segredo é negociar
Roberto
Rodrigues, ministro da Agricultura,
diz que é preciso ouvir o setor privado para
chegar a uma Alca boa para o Brasil

José
Edward
Veja
O senhor se disse "encabulado" com a atuação
dos diplomatas brasileiros na reunião da Alca em Trinidad
e Tobago, que teriam agido, em suas palavras, de "forma rígida
e intransigente"...
Rodrigues
Não
entenda essa questão como uma briga minha com o Itamaraty.
Não se trata disso. O que eu quis dizer e ficou mal-entendido
foi que, em negociações internacionais, o país
só é valorizado se se sentar à mesa com um
discurso unificado que reflita o interesse nacional e não
o de setores da economia ou de determinado ponto de vista ideológico.
Nossas chances de vitória são maiores nos fóruns
internacionais quando combinamos competência técnica
com capacidade negociadora.
Veja
Se o Brasil tem como meta ser líder regional, não
deveria ter um papel mais de negociação que de negação
nas negociações na OMC e na Alca?
Rodrigues
Eu
e outros ministros defendemos que essas negociações,
por ser muito sensíveis, devem ser tratadas no âmbito
da Câmara de Comércio Exterior, a Camex, que tem representantes
dos ministérios da Fazenda, do Desenvolvimento, da Agricultura,
do Planejamento, da Casa Civil e das Relações Exteriores.
É indiscutível que o papel de negociar é do
Itamaraty, mas as definições sobre a Alca têm
de ser ditadas pelo governo brasileiro como um todo, e um bom fórum
para isso é a Camex, sob a liderança do presidente
da República. Para a reunião ministerial no próximo
mês, em Miami, espero que nossa posição reflita
a participação do setor privado e de outros órgãos
do governo, além da do Itamaraty. Já conversei sobre
esse assunto com o chanceler Celso Amorim para que em Miami adotemos
o mesmo espírito de equipe que nos levou a uma vitória
na reunião da OMC em Cancún.
Veja
Nas negociações da Alca o senhor não
acha que está sobrando retórica e faltando competência
técnica?
Rodrigues
Acho que a negociação em torno da abertura comercial
é fundamental e deve ser tratada não apenas como uma
questão pontual de governo, mas como algo que interessa a
toda a nação. No caso específico da Alca, estamos
diante do que pode vir a ser um grande negócio para o país,
pois o livre-comércio certamente redundará na geração
de empregos e no aumento da renda e da riqueza no país. Por
isso defendo que nas negociações haja uma firme participação
do setor privado, que, afinal, é o interessado direto nesse
processo. Como presidente da Associação Brasileira
de Agribusiness, criei uma assessoria técnica de altíssimo
nível e em conjunto com a Confederação
Nacional da Agricultura e a Organização das Cooperativas
Brasileiras um fórum de negociações
agrícolas internacionais. Através desses dois instrumentos
sempre conseguimos chegar de forma rápida e eficiente a uma
posição consistente sobre qualquer tema negocial que
envolva o agronegócio. Agora, estou transportando essa experiência
para o Ministério da Agricultura, aumentando o poder de fogo
da competente equipe técnica que já existe lá.
Veja
Na reunião de Trinidad e Tobago, o Brasil ficou
quase isolado, e mesmo parceiros tradicionais do país no
Mercosul, como o Uruguai, nos deixaram de mãos abanando...
Rodrigues
A
maior intransigência vem dos Estados Unidos. O Itamaraty reagiu
duramente e com dignidade. Endurecemos porque os americanos endureceram
primeiro. É vital entender que, nessa disputa, a bola está
sendo tocada pelo adversário, e não por nós.
Estamos apenas reagindo ao jogo deles. No ano passado, em Quito,
no Equador, foi a primeira vez que os Estados Unidos colocaram com
clareza que não discutiriam política de apoio interno
a seus agricultores dentro da Alca antes de esse tema ser definido
no âmbito da Organização Mundial do Comércio,
a OMC. Como os americanos não queriam colocar em pauta os
subsídios agrícolas, pois esse é um tema sensível
para eles, dissemos que também nos dávamos ao direito
de protelar temas mais sensíveis para nós, como o
da propriedade intelectual. É uma reação negocial
óbvia. Foi aí que surgiu a idéia do que se
chamou de "Alca light", que inicialmente discutia apenas os temas
mais consensuais.
Veja
Afinal, o senhor é a favor de uma "Alca light"
ou de um acordo mais abrangente?
Rodrigues Sempre
fui a favor de uma Alca abrangente e de uma abertura comercial ampla
e imediata. É inegável que, se tivéssemos uma
área de livre-comércio legítima, a agricultura
brasileira teria uma vantagem enorme, pois somos muito competitivos
nesse campo. Agora, como ministro, defendo uma abertura paulatina,
sem tempestividade, pois, nesse posto, tenho de olhar o Brasil como
um todo e sei que outros setores da economia nacional ainda não
estão devidamente preparados para uma abertura rápida
e irrestrita.
Veja
Por que outros setores da economia brasileira não
alcançaram o mesmo desempenho do agronegócio?
Rodrigues
O
sucesso do agronegócio no Brasil se deve basicamente a três
fatores. O primeiro é que o Brasil tem características
únicas, com vários tipos de clima, relevo e solo.
Isso nos permite tocar uma grande variação de atividades
rurais. Além disso, algumas instituições de
pesquisa, como o Instituto Agronômico de Campinas e a Embrapa,
conseguiram desenvolver tecnologias aplicáveis ao campo que
nenhum outro país tropical tem. As influências da colonização
européia nesse campo, sobretudo a italiana, bem como da japonesa,
também foram fundamentais.
Veja
Estudo recente mostrou que o protecionismo do governo
americano à indústria local do aço teve como
efeito colateral um contingente de 200.000
desempregados nos Estados Unidos. Será que ao dar o subsídio
o governo Bush estava defendendo o interesse nacional americano
ou se rendendo a lobbies?
Rodrigues
Entre
subsídios e outros tipos de políticas protecionistas,
os países ricos concedem cerca de 320 bilhões de dólares
anuais a seus agricultores. Isso dá quase 1 bilhão
de dólares por dia um dado alucinante que é
indiscutivelmente fator inibidor de competitividade. Nos Estados
Unidos há uma reação de bons economistas a
essa farra de subsídios, principalmente porque eles são
dirigidos mais para o grande do que para o pequeno produtor. Pelas
contas do prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, cada produtor
rural americano que enriquece com os generosos subsídios
concedidos pelo governo gera 1.000 fazendeiros
pobres na África e na América Latina, além
de onerar setores competitivos da própria economia americana.
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