Edição 1824 . 15 de outubro de 2003

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Diogo Mainardi
Sou de direita.
Mas no Brasil

"A direita dos americanos é religiosa,
nacionalista, governista. Eu sou o contrário
de tudo isso. Quem é religioso, nacionalista
e governista no Brasil é a esquerda"

Eu sou de direita. José Sarney é de esquerda. O Brasil é curioso. Direita e esquerda, certo e errado, limpo e sujo, bonito e feio: nossa mente simplória fica toda embananada com esses conceitos abstratos.

Passei a ser considerado de direita depois que comecei a aborrecer os políticos do PT. Não gosto de políticos. Dos do PT e dos de todos os outros partidos. Não gosto dos políticos profissionais e não gosto dos políticos amadores que falam mal dos profissionais. Estou pouco me lixando para a reforma previdenciária e para a reforma tributária. A única reforma que me interessa é acabar com a obrigatoriedade do voto. O voto é um direito democrático. O eleitor deve ter o direito democrático de manifestar seu menosprezo pelos políticos, ficando em casa em vez de votar. Indo à praia em vez de votar. Embebedando-se em vez de votar. O eleitor deve poder se eximir da responsabilidade de indicar o trapaceiro que irá enganá-lo. Ao votar, o eleitor se torna cúmplice das falcatruas dos políticos. Não quero ser cúmplice de ninguém. Quero continuar a exercitar minha irresponsabilidade cívica. Os brasileiros sempre se espantam com o grande número de abstenções nos Estados Unidos. É exatamente por isso que eles são melhores do que nós. Sabem dar aos políticos o tratamento que merecem.

Pelos critérios dos americanos, eu jamais seria aceito no clube da direita. Pena, porque os colunistas de direita ganham um monte de dinheiro nos Estados Unidos. A direita dos americanos é religiosa, nacionalista, governista. Eu sou o contrário de tudo isso. Quem é religioso, nacionalista e governista no Brasil é a esquerda. A ditadura militar também era religiosa, nacionalista e governista. De fato, seus velhos quadros se aliaram sem problemas ao governo do PT. Se os velhos quadros da ditadura militar se aliaram à esquerda, significa que estou à direita do general Frota. Estou à direita de Fleury.

Claro que esse negócio de direita e esquerda pode gerar algumas ambigüidades. A direita, no mundo inteiro, foi a favor da guerra no Iraque. A esquerda, no mundo inteiro, foi contra. O principal argumento da esquerda era que se tratava de uma guerra colonial. Que o governo dos Estados Unidos só queria se apropriar do petróleo iraquiano. Domingo passado, descobrimos que a realidade era outra. Segundo a imprensa americana, Bush mentiu quando disse que a reconstrução do Iraque seria inteiramente financiada com suas reservas de petróleo. Um relatório governamental já o alertara de que a capacidade de produção dos poços iraquianos estava comprometida por uma década de boicote econômico, e que a conta da invasão teria de ser paga sobretudo pelos contribuintes americanos. A esquerda ajudou Bush a esconder essa mentira. Quanto mais ela repetia que o motivo da guerra era o petróleo, mais os americanos se convenciam de que o resultado seria vantajoso para eles. Quando finalmente perceberam que seriam eles a pagar pela aventura de Bush, mudaram de idéia. Tarde demais.

A esquerda acha que a direita é cínica e só visa ao lucro. A esquerda também acha que a direita sabe fazer contas e que, se entra numa guerra, é porque se trata de um bom negócio. Antes fosse. A esquerda superestima a direita. O melhor é subestimar os dois lados, direita e esquerda.

 
 
 
 
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