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Diogo
Mainardi
Sou de direita.
Mas no Brasil
"A
direita dos americanos é religiosa,
nacionalista, governista. Eu sou o contrário
de tudo isso. Quem é religioso, nacionalista
e governista no Brasil é a esquerda"
Eu
sou de direita. José Sarney é de esquerda. O Brasil
é curioso. Direita e esquerda, certo e errado, limpo e sujo,
bonito e feio: nossa mente simplória fica toda embananada
com esses conceitos abstratos.
Passei
a ser considerado de direita depois que comecei a aborrecer os políticos
do PT. Não gosto de políticos. Dos do PT e dos de
todos os outros partidos. Não gosto dos políticos
profissionais e não gosto dos políticos amadores que
falam mal dos profissionais. Estou pouco me lixando para a reforma
previdenciária e para a reforma tributária. A única
reforma que me interessa é acabar com a obrigatoriedade do
voto. O voto é um direito democrático. O eleitor deve
ter o direito democrático de manifestar seu menosprezo pelos
políticos, ficando em casa em vez de votar. Indo à
praia em vez de votar. Embebedando-se em vez de votar. O eleitor
deve poder se eximir da responsabilidade de indicar o trapaceiro
que irá enganá-lo. Ao votar, o eleitor se torna cúmplice
das falcatruas dos políticos. Não quero ser cúmplice
de ninguém. Quero continuar a exercitar minha irresponsabilidade
cívica. Os brasileiros sempre se espantam com o grande número
de abstenções nos Estados Unidos. É exatamente
por isso que eles são melhores do que nós. Sabem dar
aos políticos o tratamento que merecem.
Pelos
critérios dos americanos, eu jamais seria aceito no clube
da direita. Pena, porque os colunistas de direita ganham um monte
de dinheiro nos Estados Unidos. A direita dos americanos é
religiosa, nacionalista, governista. Eu sou o contrário de
tudo isso. Quem é religioso, nacionalista e governista no
Brasil é a esquerda. A ditadura militar também era
religiosa, nacionalista e governista. De fato, seus velhos quadros
se aliaram sem problemas ao governo do PT. Se os velhos quadros
da ditadura militar se aliaram à esquerda, significa que
estou à direita do general Frota. Estou à direita
de Fleury.
Claro
que esse negócio de direita e esquerda pode gerar algumas
ambigüidades. A direita, no mundo inteiro, foi a favor da guerra
no Iraque. A esquerda, no mundo inteiro, foi contra. O principal
argumento da esquerda era que se tratava de uma guerra colonial.
Que o governo dos Estados Unidos só queria se apropriar do
petróleo iraquiano. Domingo passado, descobrimos que a realidade
era outra. Segundo a imprensa americana, Bush mentiu quando disse
que a reconstrução do Iraque seria inteiramente financiada
com suas reservas de petróleo. Um relatório governamental
já o alertara de que a capacidade de produção
dos poços iraquianos estava comprometida por uma década
de boicote econômico, e que a conta da invasão teria
de ser paga sobretudo pelos contribuintes americanos. A esquerda
ajudou Bush a esconder essa mentira. Quanto mais ela repetia que
o motivo da guerra era o petróleo, mais os americanos se
convenciam de que o resultado seria vantajoso para eles. Quando
finalmente perceberam que seriam eles a pagar pela aventura de Bush,
mudaram de idéia. Tarde demais.
A
esquerda acha que a direita é cínica e só visa
ao lucro. A esquerda também acha que a direita sabe fazer
contas e que, se entra numa guerra, é porque se trata de
um bom negócio. Antes fosse. A esquerda superestima a direita.
O melhor é subestimar os dois lados, direita e esquerda.
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