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Entrevista:
Alvin
Toffler
O
big brother
O autor de O Choque do
Futuro
diz que a tendência é sermos vigiados
o tempo todo por câmeras digitais

Rosana
Zakabi
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Liane Neves

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"Não
apenas o governo, mas também as corporações vão monitorar
o comportamento e as conversas das pessoas com objetivos
de marketing" |
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Alvin
Toffler é especialista em apontar tendências para o
futuro, tema de seus onze livros. Dois deles são best-sellers,
com enorme influência ao redor do mundo: O Choque do Futuro,
de 1970, e A Terceira Onda, continuação escrita
dez anos depois. O título do primeiro refere-se à
previsão de mudanças sociais e tecnológicas
tão drásticas que deixariam as pessoas confusas. No
segundo, ele mergulhou na análise dessas mudanças.
Com duas décadas de antecedência, Toffler previu que
as pessoas teriam PCs em casa. Também prognosticou o surgimento
e a expansão da TV a cabo, por assinatura. Para escrever
os dois livros, Toffler contou com a ajuda da mulher, Heidi, que
colaborou com as pesquisas e editou os trabalhos. O primeiro emprego
de Toffler, ainda adolescente, foi como operário na indústria
automobilística. Mais tarde, graduou-se em letras e literatura
e iniciou os estudos de fenômenos sociais. Foi editor da revista
Fortune e hoje trabalha como consultor de empresas e de órgãos
do governo americano, entre eles a Nasa. Da Califórnia, onde
mora com sua mulher, Toffler, aos 74 anos, concedeu a seguinte entrevista
a VEJA:
Veja As mudanças globais provocadas pelo ataque
ao World Trade Center arruinaram as previsões de muitos futurólogos.
O ataque era imprevisível?
Alvin
Toffler
Os ataques realmente mudaram o mundo, mas não eram imprevisíveis.
Em meus livros lançados há trinta anos, eu já
falava sobre o possível crescimento do terrorismo e suas
conseqüências para o mundo. Em um deles, apontava o World
Trade Center como um dos pontos mais suscetíveis a ataques
terroristas. Mas previa um tipo de atentado diferente, não
por aviões, e sim um ataque eletrônico, com bombas
acionadas por meio de computadores ou algo assim. Não era
o único que acreditava nisso. Muitos consultores e especialistas
já indicavam essa tendência, mas ninguém levava
a sério. Ninguém imaginava que a situação
poderia chegar a esse extremo.
Veja
Por que o terrorismo não recorre a armas de maior
sofisticação tecnológica?
Toffler
Por mais que ocorram ataques sem uso de tecnologia sofisticada,
foram os avanços da tecnologia que contribuíram para
o crescimento do terrorismo. Ao mesmo tempo que esses avanços
contribuem para o desenvolvimento da economia e da sociedade, também
podem ser usados com propósitos criminosos e violentos e,
assim, pôr tudo a perder. A tecnologia deu novo incentivo
à produção de armas. O problema não
é o fato de estarmos produzindo armas mais poderosas, e sim
que elas estão cada vez mais baratas e acessíveis.
Hoje, armas sofisticadas podem cair nas mãos de qualquer
um e se tornar uma ameaça à sociedade. Isso vale não
apenas para grupos extremistas, mas também para psicopatas
como o americano Timothy McVeigh, que explodiu um prédio
e matou mais de 100 pessoas em Oklahoma.
Veja O senhor acha que o terrorismo será um
fator determinante no modo como viveremos no futuro?
Toffler
Vários países, não apenas os Estados Unidos,
terão cada vez mais dificuldades em conciliar segurança
com liberdade. Com o objetivo de prevenir ataques terroristas, o
governo americano precisará ter mais informações
de como as pessoas se comportam, quem está fazendo o quê,
quem está entrando onde, quem está freqüentando
aulas de vôo na Flórida, e assim por diante. A necessidade
de fazer isso põe em risco certas liberdades civis que sempre
foram colocadas em primeiro lugar nos Estados Unidos e em muitos
países. A tendência é que as pessoas tenham
cada vez menos liberdade de ir e vir sem ser vigiadas.
Veja
Como as pessoas serão vigiadas?
Toffler
Por meio de câmeras digitais, um dos grandes avanços
dos anos 90. Os preços foram baixando e hoje qualquer pessoa
pode ter uma. Elas já substituem o guarda de trânsito
nas ruas e avenidas. Se você ultrapassar o limite de velocidade,
não é o policial que vai pará-lo. É
a câmera que tira uma foto da placa de seu carro e depois
a multa chega a sua casa automaticamente. A tendência é
aumentar ainda mais o uso desse equipamento no futuro. Surgirão
modelos cada vez menores, mais baratos e mais potentes. Nós
vamos criar uma sociedade investigativa.
Veja
Uma sociedade investigativa?
Toffler Exatamente.
No fim dos anos 40, quando o escritor inglês George Orwell
criou o personagem Big Brother (O Grande Irmão, em inglês)
no livro 1984, ninguém imaginava que pudesse existir
na realidade um governo capaz de monitorar todo mundo com o uso
de câmeras. Não só isso está acontecendo
hoje, como em um futuro próximo homens e mulheres precisarão
se preocupar não apenas com o governo observando todos os
seus passos, mas também com o que eu chamo de Big Uncle (O
Grande Tio, em inglês). Ou seja, as grandes corporações
coletarão as imagens e as conversas da população
com objetivos de marketing. E passarão a vender as informações
entre elas.
Veja
Isso quer dizer que seremos observados sem saber que estamos
sendo vigiados?
Toffler
Sim, isso fará parte do nosso dia-a-dia. As empresas vão
observar o que fazemos no supermercado, nas lojas, checando absolutamente
tudo: nosso comportamento nos corredores, em frente às prateleiras,
tudo o que perguntamos aos vendedores, comentamos com nossa mulher,
marido ou filhos. O objetivo será saber mais sobre o consumidor
e lhe servir melhor, reduzir os custos com testes e pesquisas de
opinião e obter lucros vendendo as informações
no mercado.
Veja Se o senhor pudesse, o que mudaria nas previsões
feitas em seus livros?
Toffler Manteria
os temas centrais exatamente do mesmo jeito. Em O Choque do Futuro,
eu disse que as mudanças passariam a acontecer de forma acelerada.
E que as pessoas e as instituições teriam dificuldades
em lidar com essa rapidez. Todos se sentiriam obrigados a ter respostas
imediatas, ficariam confusos na hora de tomar decisões e
sofreriam muito por causa disso. Isso está absolutamente
correto. Mas eu mudaria alguns detalhes. Vários exemplos
que usei para ilustrar meu ponto de vista não se tornaram
realidade.
Veja O que não aconteceu?
Toffler Eu
escrevi que quando tudo começasse a mudar de modo acelerado
muitas coisas se tornariam temporárias. Isso está
correto. Nós temos produtos descartáveis, idéias
descartáveis. Periodicamente, somos levados a jogar fora
estruturas empresariais inteiras. Somos obrigados a jogar amigos
fora. Escrevi que teríamos roupas descartáveis, feitas
de papel. Não precisariam ser lavadas, pois seriam descartadas
depois de usadas. Bem, isso não aconteceu. Eu também
mudaria o que disse sobre clones.
Veja
Por quê?
Toffler
Em 1970, ou seja, trinta anos antes de sair qualquer publicação
científica sobre a clonagem, eu disse que iríamos
clonar animais. Também disse que iríamos clonar humanos.
Acredito que isso vá acontecer um dia. Meu erro foi apenas
temporal. Pensei que a clonagem iria ocorrer em 1985, mas demorou
bem mais.
Veja Em que área científica o senhor
prevê mudanças mais radicais no futuro próximo?
Toffler Analisando
as tecnologias que estão sendo desenvolvidas nesse exato
momento, posso dizer que os maiores avanços serão
no setor agrícola.
Veja
Como será esse processo?
Toffler
A agricultura do futuro não terá como prioridade aumentar
a quantidade de alimentos, e sim a criação de tecnologias
para melhorar a qualidade da produção agrícola.
Com os avanços nos estudos da genética, seremos capazes
de criar produtos cada vez mais resistentes e de custo mais baixo.
A China e a Índia, que têm as maiores populações
do mundo, grande parte delas vivendo em áreas rurais, estão
investindo pesado em tecnologia agrícola. Com esses avanços,
acredito que será possível erradicar a miséria
em muitos países em algumas décadas. É claro
que essa é ainda uma idéia utópica, pois não
é possível fazer isso com as condições
atuais de trabalho nas áreas rurais. Será preciso
investir mais na educação para que esses avanços
realmente aconteçam.
Veja
Os alimentos transgênicos são o resultado
de avanços tecnológicos, mas enfrentam grande resistência
dos ambientalistas. Por que é assim?
Toffler
Ironicamente, as ONGs, que sempre se mostraram preocupadas em combater
a pobreza global e a fome, hoje são as mais interessadas
em atacar a produção de transgênicos. Na Europa
há ONGs tentando bloquear a importação de alimentos
transgênicos de países pobres da África. Com
o boicote, esses países foram forçados a diminuir
a produção de alimentos. Veja que tudo isso ocorre
sem que haja evidências de que os transgênicos trazem
riscos para a saúde. Milhões de pessoas já
ingeriram esse tipo de alimento e não há comprovação
alguma de que tiveram a saúde prejudicada.
Veja
Quais são as conseqüências da batalha
contra a pesquisa genética na produção de alimentos?
Toffler
As campanhas promovidas por esses grupos e pela mídia sensacionalista
causam pânico desnecessário. Com essa atitude, obrigam
os países e as empresas a reduzir a produtividade e a usar
métodos primitivos na agricultura. Ou seja, a frear o desenvolvimento
econômico e tecnológico. Apesar disso, eu tenho uma
visão otimista no quadro geral. Os países do Primeiro
Mundo estão investindo bastante em tecnologia e pesquisas
de transgênicos. Acredito que aos poucos os alimentos geneticamente
modificados começarão a ser aceitos pela sociedade
e em um futuro próximo farão parte do dia-a-dia de
todas as pessoas.
Veja
As pesquisas espaciais, que tanto furor causavam há
trinta anos, hoje despertam pouca atenção. O senhor
acha que um dia conquistaremos o espaço?
Toffler
Nós colonizaremos outros planetas ou outros corpos celestes.
No futuro, vamos encontrar mecanismos que possam tornar possível
essa empreitada. Hoje ainda é inviável e não
deve ocorrer em vinte ou trinta anos. Mas vai acontecer.
Veja
O que faz o senhor ter tanta certeza disso?
Toffler
Minha mulher, Heidi, e eu acompanhamos há anos o trabalho
de um grupo de cientistas da Nasa. Eles querem saber se os humanos
podem viver no espaço. O objetivo é descobrir se há
possibilidade de as células permanecerem saudáveis
num ambiente sem gravidade. Ou seja, teoricamente, se suas células
fossem modificadas, o homem poderia sobreviver bem nesse tipo de
ambiente. Os estudos ainda estão em fase inicial, mas já
indicam que a conquista do espaço é um sonho possível.
Veja
O senhor previu que a tecnologia causaria mudanças
drásticas na família. A estrutura familiar realmente
sofreu alterações nas últimas décadas,
mas o que a tecnologia tem a ver com isso?
Toffler
As novas tecnologias nunca vêm sozinhas. É um pacote:
mudanças tecnológicas, seguidas de mudanças
sociais, políticas e culturais. Nos Estados Unidos, esse
conjunto de mudanças nas últimas décadas significou
um novo modo de vida. A força de trabalho que gerava riqueza
passou do uso do bíceps para o uso do cérebro. As
pessoas depararam com um novo tipo de economia que mudou praticamente
todos os valores da sociedade. Os computadores começaram
a ser usados entre o fim da década de 50 e o início
dos anos 60. As feministas logo perceberam que as novas tecnologias,
que requeriam o uso do cérebro em vez do uso dos músculos,
tornariam possível a ocupação de mulheres em
postos de trabalho que antes eram prioridade dos homens. Isso realmente
aconteceu. Quanto mais os computadores iam se expandindo, mais mulheres
começavam a trabalhar. Isso afetou a estrutura familiar e
a criação dos filhos.
Veja
Isso foi inesperado?
Toffler
Ninguém imaginava. Anos antes de O Choque do Futuro
ser publicado, perguntei a vários especialistas qual seria
o futuro da família. Naquela época, os pais iam ao
trabalho, as mães ficavam em casa, e cada casal tinha dois
filhos, em média. Esse modelo predominava em todas as cidades
industriais. Os especialistas opinaram que nada iria acontecer à
família, que o núcleo familiar já estava estabelecido
e ninguém poderia mudá-lo. Eu duvidei. Não
se pode mudar a tecnologia, o trabalho, a base econômica da
sociedade sem esperar que também haja mudança na estrutura
familiar. Uma coisa é conseqüência da outra. Hoje,
a família tradicional é minoria, pois a maioria das
mães sai para trabalhar em vez de ficar em casa tomando conta
dos filhos 24 horas por dia. Essa foi a primeira mudança
em massa.
Veja
O senhor acredita que haverá outras mudanças
na vida da família?
Toffler
As mudanças que vemos hoje devem continuar acontecendo. As
famílias continuarão menores que no passado, teremos
pais solteiros, casais divorciados que se casam de novo duas, três
vezes. A sociedade começa agora a aceitar o casamento de
gays. O que nós vemos é uma diversificação
da família. Nos últimos anos, os americanos começaram
a questionar os efeitos dessas mudanças no desenvolvimento
de seus filhos. Eles querem desacelerar o processo, mas eu não
vejo como voltar atrás.
Veja O movimento zen, que inclui filosofia, meditação,
ioga e esoterismo, tem crescido nos últimos anos. É
uma moda passageira ou veio para ficar?
Toffler
Eu acho que alguns detalhes específicos são apenas
passageiros, mas há algo maior nisso tudo. O movimento zen
é um profundo ataque às idéias e aos valores
do iluminismo. O movimento iluminista, dos séculos XVII e
XVIII, promoveu a ciência, o ceticismo e o conceito do progresso.
Foi o oposto da religião. Naquele tempo, havia um grande
abismo entre religião e ciência. A tendência
é que as duas coisas se aproximem cada vez mais.
Veja
O que deve acontecer com as religiões?
Toffler
A característica das religiões é a mesma da
família. Elas estão se diversificando graças
ao acesso cada vez mais fácil à informação.
Dentro da mesma religião haverá mais grupos distintos,
com idéias e comportamentos diferentes um do outro, principalmente
no catolicismo e no protestantismo. Aumentará a competição
entre as religiões e os grupos lançarão campanhas
de marketing para conquistar fiéis. Nós já
vemos um pouco disso hoje, mas com certeza será mais freqüente
no futuro.
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