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Carta
ao leitor
O
pecado é o original
João Ramid
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| Sarney
e Ulysses na promulgação da Carta de 1988: a "Demagoga"
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A
Constituição brasileira virou tema de discussão
política na semana passada em função de um
fato pitoresco contado pelo ministro Nelson Jobim, do Supremo Tribunal
Federal, ao jornal O Globo. Jobim informou que dois artigos
da Carta promulgada no dia 5 de outubro de 1988, há exatos
quinze anos, foram incluídos no texto final sem terem sido
submetidos à apreciação dos parlamentares.
Um dos artigos estabelece o princípio da independência
dos três poderes. Graças à iniciativa do ministro,
os brasileiros foram apresentados a um pecadilho envolvido no processo
de aprovação do texto, que é em si um pecadaço.
Os constituintes cometeram erros graves decorrentes da crença
de que é possível resgatar a "dívida social"
com a ajuda de papel e caneta, não com crescimento econômico,
empenho e políticas eficientes. A Constituição
estabeleceu uma lista tão ampla de direitos aos brasileiros
que ganhou o apelido de "Cidadã". Acontece que uma boa parte
desses direitos privilegia justamente a elite, como a estabilidade
no emprego para o servidor e a universidade pública gratuita,
onde pobre dificilmente entra pelas portas do vestibular. A única
forma de financiar tais privilégios é aumentando os
impostos de ricos e pobres. Seria mais honesto chamar a Carta de
"Demagoga". Para não contrariar os preceitos constitucionais
que garantem privilégios caros para a elite, o governo tem
de manter a carga tributária em pelo menos 33% do PIB, segundo
cálculos dos economistas.
O presidente José Sarney foi o primeiro a alertar o país
para o desastre que se processava no Congresso Nacional. Depois
dele, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso avisaram que o
Brasil se tornara ingovernável em virtude dos defeitos distributivos
da Constituição. Todos pediram a reforma da Carta.
Por enquanto, a reforma se dá em conta-gotas. Já se
aprovaram mais de quarenta alterações e há
no Congresso mais de 1 000 propostas de emenda em tramitação.
Não importa quantas mudanças sejam feitas, a Constituição
continuará na mesa de operações enquanto os
políticos não admitirem que o texto constitucional
precisa ser menos barroco. A Carta atual trata de 455 assuntos,
entre eles taxa de juro, pedágios, serviço militar,
seca, poluição, divórcio, desapropriação...
Em alguns a Carta desce a minúcias. Enquanto o Brasil não
adotar um modelo reduzido de Constituição, deixando
o detalhamento e as atualizações para as leis ordinárias,
o texto sempre precisará ser alterado não importa
sua qualidade intrínseca. O reformismo contínuo provoca
insegurança jurídica. O investidor se afasta, o país
perde recursos e o cidadão paga a conta.
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