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A nova cara da TVPopularíssimos e disputados pelas emissoras, os apresentadores ganham fortunas e viram estrelas Ricardo Valladares
Como não poderia deixar de ser, os integrantes dessa nova casta, os "emergentes da TV", dividem com atores e atrizes famosos as atenções das revistas especializadas em vasculhar os bastidores do universo artístico. Com isso, a maneira de fazer esse tipo de crônica também mudou. Antes, o telespectador queria saber quem estava namorando quem, como se a vida real fosse uma extensão do folhetim televisivo. Agora, interessa saber também quem comprou o que, já que os emergentes costumam ser particularmente pouco discretos na hora de gastar dinheiro. O apresentador Carlos Massa, o Ratinho, acaba de adquirir um bimotor turboélice King Air, avaliado em 2,3 milhões de dólares. Vaidoso, mandou pintar na fuselagem do avião a figura de um roedor e a sigla M&M, de Massa & Massa, nome de sua empresa. "Comprei em cash, bufunfa à vista", vangloria-se o apresentador. Ele tem ainda quatro carros na garagem, entre os quais um BMW igual ao que James Bond dirigiu em um dos seus filmes, e uma fazenda de 6.000 alqueires em Dourados, Mato Grosso do Sul, com 15.000 cabeças de gado. Além de bem pago, Ratinho tem sorte. Em setembro do ano passado, temendo pelo destino da economia do país, investiu uma parte de seu patrimônio – 12 milhões – em dólares. A valorização da divisa americana fez com que essa quantia quase duplicasse da noite para o dia, se convertida em moeda brasileira. No ano passado, ganhou outro BMW numa aposta com um empresário paulistano. Ratinho é o campeão dos emergentes: amealhou até o momento um patrimônio pessoal na casa dos 50 milhões de reais. Seus rendimentos, que totalizam uma média de 1,5 milhão de reais por mês, colocam-no num patamar bem acima do de seus colegas (veja quadros nesta reportagem). Imelda Marcos – Há dois anos, excetuando-se Gugu, Xuxa, Faustão e Angélica, os salários mais altos da televisão brasileira eram pagos a atores de primeiro time, como Antonio Fagundes. Esses salários giravam na faixa de 40.000 reais. Os emergentes estabeleceram-se entre o grupo de Gugu e o de Fagundes como uma espécie de "classe média alta", sendo que Ratinho já passou à frente de Faustão e Angélica. Para os emergentes da TV, 40.000 reais por mês é o "piso". Essa é a quantia que recebe Tiazinha, por enquanto a menos aquinhoada dos novos milionários, embora ganhe uma dinheirama fora da televisão. Os rendimentos da turma podem chegar facilmente a 150.000 reais mensais, que é o que mais ou menos embolsam Ana Maria Braga e Celso Portiolli. E o que fazem com o dinheiro? Fazem um pouco do que todo mundo faria, se pudesse. Filha de camelôs, a ex-loira do tchan e atual apresentadora do SBT Carla Perez comprou vários carros e imóveis e acaba de adquirir uma casa num condomínio de São Paulo, no valor de 500.000 reais. Tiazinha mora sozinha em um apartamento de 680 metros quadrados e seis quartos ("contando o de empregada'', faz questão de frisar), que saiu por 960.000 reais. Ela também comprou para o pai, que era metalúrgico, um sítio de 28.000 metros quadrados, no qual pretende instalar um haras. Além disso, os emergentes dedicam-se a excentricidades que falam muito do que anda pela cabeça deles. Carla Perez, como a folclórica ex-primeira-dama filipina Imelda Marcos, gosta de colecionar sapatos. Tem 300 pares no armário. Cátia Fonseca, que substituiu Ana Maria Braga no Note & Anote, da Record, e recebe 80.000 reais por mês, mandou instalar um teto de motel em sua casa, desses que abrem e fecham. Teve a idéia depois de uma noitada em uma suíte presidencial com o marido. Há dois anos, Cátia era secretária numa emissora de rádio FM e ganhava 1.200 reais por mês.
Ao se analisar o fenômeno dos emergentes, chama a atenção o fato de que o programa de auditório, desmoralizadíssimo no passado recente, tenha se transformado no formato mais valorizado da televisão. Shows assim eram veiculados nas tardes e noites de sábado, os horários menos nobres, por ser considerados populares demais para atrair anunciantes de peso. Hoje, até alguns dos decanos dos desprezados sábados à tarde viraram campeões de audiência e faturamento, como atesta o sucesso recente do veterano Raul Gil (veja quadro). A recuperação desse gênero televisivo ocorreu principalmente por três motivos. Primeiro, por causa do aumento da audiência das classes C, D e E nos últimos cinco anos. Estima-se que, nesse período, foram vendidos 30 milhões de novos aparelhos de televisão, em sua maioria comprados por pessoas que saíram da linha de pobreza absoluta. Segundo, pela difusão de um recurso que diluiu o poder do grande anunciante: o merchandising. Programas como o de Ana Maria Braga, o de Cátia Fonseca e o do próprio Ratinho devem boa parte de seu faturamento aos depoimentos que esses apresentadores dão em favor de produtos como panelas e remédios. Cada vez que Ratinho abre a boca para anunciar um produto, ele embolsa 4.000 reais. Redator de pegadinhas – Carla Perez, que está fora do ar para fazer ajustes em seu programa, negociou com Silvio Santos noventa inserções por mês para anunciar seus produtos, que já são quinze. A apresentadora não ostenta mais os 103 centímetros de tchan que a consagraram. Depois de um regime, perdeu 7 quilos e 4 centímetros nessa parte da anatomia. Para contrabalançar, fez uma plástica graças à qual hoje em dia pode usar sutiã de número 44 em vez de 40. Aproveitou o embalo e recauchutou o nariz. O prestígio de Carla abriu as portas do meio artístico para seus familiares. Sua mãe, Ivone, recebeu um convite para apresentar um programa numa emissora regional de Salvador, cidade natal da apresentadora. O irmão rebola no grupo Patrulha do Samba, de pagode. Carla tem mais duas irmãs que pretendem seguir o mesmo caminho. Fazem curso de modelo. Os salários dos apresentadores tiveram outro fermento nos últimos tempos: a concorrência entre as redes de televisão. Surgidos nas emissoras que cortejavam mais abertamente a audiência popular, como Record e SBT, esses profissionais passaram a ser cobiçados também pela TV Globo, que virava as costas para eles até pouco tempo atrás. Para alguns apresentadores, o assédio global deu um empurrão definitivo em seu enredo de sucesso. Foi assim com Celso Portiolli, que começou sua carreira no SBT como redator de pegadinhas, ganhando 500 reais por mês. "Dava para pagar o aluguel em uma quitinete e ainda botar gasolina no meu Monza 93", lembra. Portiolli subiu na vida porque a Globo o sondou no ano passado e Silvio Santos resolveu segurá-lo. A quitinete no centro velho de São Paulo é coisa do passado. Ele vive num apartamento de cobertura de 400 metros quadrados, com piscina. Os que resistiram ao assédio da Globo tiveram aumento considerável. Gorete Milagres, que não é propriamente uma apresentadora, mas comanda um humorístico inventado por ela própria, o Ô Coitado, teve seu salário quintuplicado no SBT depois que a emissora carioca tentou contratá-la. Isso fora luvas de 2 milhões. Com o dinheiro, Gorete poderá quitar a bela casa que comprou a prestação no luxuoso condomínio de Aldeia da Serra, nos arredores de São Paulo – o mesmo onde vive Gugu Liberato. Tiazinha é outro caso em que a concorrência atuou a favor. Para impedir que a principal atração do H de Luciano Huck se fosse, a Bandeirantes está criando, a toque de caixa, um programa só para ela. É uma história de cinderela para a aprendiz de modelo que, no fim de semana, pegava o lotação para a Praia Grande, balneário popular do litoral paulista. Tiazinha agora é freqüentadora das ilhas chiques de Angra dos Reis, onde às vezes fica hospedada na casa de Marluce Dias da Silva, diretora-geral da Globo, de cujos filhos é amiga. Ela só não está mais rica porque assinou vários papéis sem ler no início da carreira. Por exemplo: 40% do polpudo cachê que recebeu ao posar nua para a revista Playboy está bloqueado na Justiça. Um empresário reclama o dinheiro. Há os que não resistiram ao canto de sereia da Globo e trocaram de canal. Neste ano, a emissora carioca contratou três apresentadores: Luciano Huck, da Bandeirantes, Serginho Groisman, do SBT, e Ana Maria Braga, da Record. O curioso é que os três saíram do emprego de origem para, em princípio, ganhar menos. Ficaram loucos? Não. Eles sabem que, na era dos apresentadores, salário não é tudo. Às vezes, os maiores ganhos são obtidos por fora – e é nisso que eles apostam. Ana Maria pretende usar a audiência na nova emissora para alavancar a venda de produtos infantis e livros de receitas. Huck acha que, aparecendo na Globo, poderá ficar mais conhecido nacionalmente e vitaminar novos negócios. Ele ingressou na Globo apadrinhado por dois dos principais diretores da emissora, Daniel Filho e Marlene Mattos. Bem diferente de quando começou na Bandeirantes e ninguém o conhecia. "Nem os office-boys me cumprimentavam", lembra ele. Serginho Groisman trocou de emissora em busca de novos horizontes na carreira. Além de atuar no canal de maior audiência, o apresentador, que está com 49 anos, pretende estrear na direção de seu programa e, assim, adestrar-se em um novo campo.
Espelho do Brasil – Não é apenas o folclore do enriquecimento rápido que marca a escalada dos apresentadores emergentes. Esse fenômeno está associado ao aspecto mais comentado da televisão brasileira atualmente: a queda da qualidade de sua programação, que não raro resvala nas baixarias. Tudo começou em 1996, quando se disseminou o uso do aparelho que possibilita a medição instantânea do ibope. A máquina provocou uma reviravolta na televisão brasileira, já que pela primeira vez era possível aferir, com alguma segurança, quais atrações levantavam o ponteiro da audiência e quais o derrubavam. Tal aparelho é especialmente útil em shows de variedades, nos quais o apresentador pode prolongar ou abreviar a apresentação de uma determinada atração em função do ibope. A utilização da máquina tornou-se polêmica em 1996, quando Fausto Silva levou um deficiente físico ao palco e, estimulado pelo aumento da audiência, o manteve no ar por quase quarenta minutos, período em que o convidado foi alvo de brincadeiras pesadas. A partir daí, Fausto Silva e Gugu Liberato, seu rival nas tardes de domingo, passaram a disputar quem levaria a atração mais estúpida, em busca de melhores índices. Se Fausto atacava com o "sushi erótico", Gugu respondia com sua famosa banheira. Estimulados pelo ibope eletrônico, vários programas apelaram – e até hoje apelam – para atrações desse tipo. Gilberto Barros, o Leão, é especialista em levar para a cena portadores de doenças raras. Ratinho tem aumentado várias vezes a audiência de seu programa, mostrando campos de nudismo e variedades sexuais bizarras. Goste-se ou não das novelas da TV Globo, elas são um produto de boa qualidade, exportadas para o mundo inteiro e nitidamente superiores, em elenco e qualidade da dramaturgia, às similares mexicanas, espanholas ou americanas. É inegável, portanto, que a passagem da "era da telenovela" para a "era do apresentador" representou uma queda de padrão na televisão brasileira. Desde que a censura foi extinta, nunca se falou tanto em "controle dos meios de comunicação" como nos dias de hoje. O secretário dos Direitos Humanos, José Gregori, propõe um código de ética fixado pelas próprias emissoras. De acordo com sua proposta, sempre que um canal contrariasse esse código teria de pagar uma multa. É importante que se discuta o papel da televisão. Realmente, determinadas cenas mostradas no vídeo causam revolta. Num país que é modelo de liberdade de expressão como os Estados Unidos, a exibição de um deficiente físico em situação de vexame, como o que Fausto Silva mostrou, marcando o início das baixarias, seria objeto de processo na Justiça comum. Existe, no entanto, uma hipocrisia nesse debate. Muitos dos que defendem um controle da programação partem de dois princípios discutíveis. O primeiro, de que a televisão deve tomar para si a tarefa de "educar o povo". O outro, de que existe um complô, orquestrado pelos donos de emissoras e pelos apresentadores, interessados em manter altos índices de audiência com produtos chinfrins, tudo isso à custa de uma massa de telespectadores de baixo nível intelectual. Ou seja, as emissoras dependeriam da ignorância das pessoas para fazer sucesso. O primeiro argumento é problemático porque, se existe algum responsável pela educação da população, este deveria ser o governo, e não os donos das emissoras. Não é a televisão que, por ser ruim, mantém o povo nas trevas, embora ela pudesse contribuir, no papel de coadjuvante, para melhorar o nível das pessoas. Fazendo um raciocínio inverso, é lícito dizer que, se a população tivesse acesso a uma boa educação, passaria a exigir uma programação de melhor qualidade. Não que com isso os shows de auditório sumiriam. Mesmo em nações desenvolvidas, como Estados Unidos, França ou Itália, eles ocupam uma fatia gorda da programação. Afinal de contas, televisão é, antes de tudo, entretenimento. Mas, num país com uma população mais ilustrada, eles não seriam provavelmente a única opção. O segundo argumento, o de que haveria um complô, é uma piada porque atribui aos profissionais da televisão um maquiavelismo que eles não têm. Gente como Ratinho e Gorete Milagres, que criam e estrelam seus próprios programas, são seres sensíveis às demandas reais do público e, fazendo um paralelo não de todo descabido, dançam conforme a música. Os executivos das emissoras, de uma maneira geral, também são assim, profissionais que tratam de oferecer ao povo o que o povo, pelas pesquisas, está dizendo que quer. Carla Perez, Celso Portiolli ou Fausto Silva apresentariam cantoras líricas e cisnes de sapatilha em seus programas se a massa lá fora estivesse ávida para ouvir prima-donas e ver estrelas do balé clássico. "Antigamente, a televisão se impunha ao gosto do telespectador e ditava moda", analisa José Bonifácio de Oliveira Sobrinho. "Hoje em dia, com o número cada vez maior de mecanismos que permitem a interatividade, é cada vez mais o telespectador que determina o que vai aparecer na tela." É um raciocínio maduro de quem tem mais de trinta anos de carreira brilhante na televisão. Pode-se gostar ou não de Tiazinha, Ratinho, Leão ou Gorete Milagres. Mas uma coisa é certa: a era dos apresentadores colocou na tela rostos muito parecidos com a cara do Brasil real.
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Com reportagem de Sérgio Martins
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