Uma febre latina

A América do Sul é incendiada por crises
políticas e econômicas e investidores
internacionais temem que haja retrocesso

Eliana Simonetti

Quando se olha para os países latino-americanos, nota-se que a maioria deles está afundando. As taxas do PIB desses países previstas para este ano são deprimentes em relação ao clima de euforia que imperava em toda a região até bem pouco tempo atrás. Desta vez, porém, a crise tem uma formidável atenuante. Basicamente, ela foi detonada por um único ingrediente: o miserável desempenho das exportações dos países da região. Nada a ver com o abismo caótico que engoliu a economia desses países nos anos 80 aquela sim uma crise para ninguém botar defeito, com moratória unilateral da dívida, índices africanos de miséria e governos dominados por ditaduras militares. "Há uma certeza de que o que ocorre agora é uma situação difícil, sem dúvida, mas cuja causa é conhecida e a saída virá logo", diz Miguel Insulza, ministro das Relações Exteriores do Chile.

Os países da América do Sul, todos sabem, costumam andar em bando. Houve um tempo em que a moda era o caudilhismo populista. Depois, veio a temporada da guerrilha comunista. No movimento seguinte, quase todos sofreram golpes militares e passaram longos anos sob governos ditatoriais. A democratização, do ponto de vista político, foi a onda mais recente. Mas nas últimas semanas ela pode estar sendo ameaçada. A febre da crise parece ter incendiado o continente. Há problemas econômicos, e também políticos, por todo lado. As economias encolhem, o desemprego é crescente e os governos são cada vez mais impopulares. Entre os investidores internacionais está crescendo o temor de um retrocesso não só para o protecionismo e o nacionalismo econômico, mas também um retorno às soluções autoritárias de governo. Estudiosos e analistas internacionais têm se perguntado o que é preciso fazer para garantir que o fantasma do autoritarismo e do atraso econômico seja definitivamente afastado e para que esta seja a derradeira crise sul-americana.

Sem poupança O problema que se identifica, de imediato, é a profunda dependência crônica das economias da América do Sul em relação a capitais externos. Embora tenham havido, nos últimos tempos, reformas significativas na estratégia de operação dos Estados, os governos ainda gastam mais do que arrecadam, importam mais do que exportam e não têm poupança interna suficiente para promover o desenvolvimento interno sem auxílio alienígena. Os investidores externos, escaldados pelas crises nos Tigres Asiáticos e na Rússia, andam cuidadosos na escolha do local de destino de seus dólares. E a imagem de descontrole nas contas de muitos países sul-americanos tem sido forte o bastante para contaminar o quadro geral do continente. O risco é sério. Segundo um relatório publicado na semana passada pelo Fundo Monetário Internacional, o FMI, os países emergentes recebem, hoje, apenas a metade dos investimentos que lhes foram destinados em 1997. Já é bastante ruim, e as coisas ainda podem piorar. "Apesar dos avanços dos últimos meses, as condições dos mercados financeiros permanecem frágeis", reconhecem os técnicos do FMI no relatório.

Na percepção dos investidores internacionais, o maior perigo, no que diz respeito à América do Sul, está na Argentina, uma das economias mais robustas da região. Desde a desvalorização do real o Tesouro argentino vem esvaziando, e não há reserva para saldar a dívida que vence no próximo ano, de 20 bilhões de dólares. "Esperamos que a situação melhore depois das eleições presidenciais de outubro", admitiu publicamente o subsecretário das Finanças da Argentina, Miguel Kiguel. Os países vizinhos também não têm indicadores econômicos animadores. Em todos eles, os principais itens de exportação são produtos primários, cujos preços internacionais estão em queda. Cobre, ferro, trigo, café, frutas e carne estão sobrando no mercado. O resultado é que Brasil, Colômbia, Argentina e Chile até que ainda exportam, mas recebem cada vez menos dólares por seus produtos. Então empobrecem. "A América do Sul é um caldeirão. Isso é muito ruim porque é difícil para o investidor americano ou europeu ter uma visão específica da economia brasileira", diz Christian Vecchi, analista internacional da consultoria Tendências, de São Paulo.

Quem estuda o cozido sul-americano conclui que é chegada a hora de virar o caldeirão. Os governos acharam que seria possível abrir a economia de mercado e embarcar na integração internacional mantendo o estado e o cenário interno de seus países pouco alterados. Já viram que não vai dar. Um país com um Estado inchado e excessivamente intervencionista não atrai dinheiro de poupadores estrangeiros. Um governo perdulário não inspira confiança. E empresas que cultivam o desperdício não conseguem produzir nada que tenha preço e qualidade para concorrer no mercado mundial. "A América do Sul está passando por um mau momento e já está claro que as reformas terão de ser aceleradas", diz o ex-ministro Mailson da Nóbrega.

Ideologias radicais Há uma questão adicional que é a seguinte. A crise econômica não cria um ambiente propício à manutenção da estabilidade política. E num continente que tem uma história de constantes incêndios provocados por ideologias radicais isso é especialmente perigoso. Alguns casos andam deixando os observadores de orelha em pé. O Peru, país do presidente Alberto Fujimori, que governa numa espécie de ditadura consentida, é um dos poucos que crescerão neste ano. Exemplo ruim. A Venezuela caiu nas mãos de Hugo Chávez, um presidente populista, nos moldes dos caudilhos dos anos 50, que dissolveu o Congresso e interveio na Suprema Corte.

Nos países asiáticos, a crise financeira teve desdobramentos políticos importantes. A Indonésia pegou fogo. O povo foi às ruas, o ditador Suharto deixou o poder e foi acusado de enriquecimento ilícito, e o sucessor que ele nomeou viu-se forçado a promover eleições. Em junho último, o povo foi às urnas e teve de voltar à praça pública para evitar que houvesse trapaça na apuração dos votos. A agitação popular já dura mais de um ano e ainda não sossegou. Tremores também abalaram a estabilidade política na Tailândia. Na Coréia do Sul, o governo foi trocado de afogadilho, depois de uma eleição que acabou empossando o candidato de oposição. Todas as mudanças forçaram os Tigres Asiáticos a dar uma guinada na direção da democracia e da transparência nas contas nacionais. Na América do Sul teme-se um movimento no sentido inverso.

No Chile e na Argentina haverá eleições presidenciais em condições econômicas pouco alvissareiras. A produção industrial argentina caiu 14% nos seis primeiros meses do ano e, teimando em manter o peso atrelado ao dólar, o país não tem perspectivas imediatas de aumentar a exportação e voltar a crescer, já que seus produtos estão muito caros. O Chile, que tem um terço de suas exportações destinado aos combalidos países asiáticos, não está conseguindo encontrar comprador para suas frutas e seu minério. O país encerra uma década de crescimento econômico numa recessão inesperada. A popularidade do presidente Eduardo Frei caiu quase 10% neste ano. Menos da metade da população aprova seu governo. Isso faz crescer a chance de sucesso do candidato da oposição, Joaquin Lavin, apoiado por partidos identificados com as idéias do governo ditatorial do general Augusto Pinochet. O signo da América do Sul, neste fim de século, é o da recessão e da incerteza política. O consenso geral é de que as coisas não podem continuar seguindo por essa trilha.

Os analistas de Wall Street continuam sem entender ou se interessar genuinamente pela América Latina. Na dúvida, pesam os indicadores ruins e os bons, e, invariavelmente, se apegam aos ruins. Dessa maneira, é claro, a temperatura acaba parecendo mais alta do que de fato é. "É difícil para um estrangeiro entender que não estamos entrando num novo ciclo de descontrole. Nos últimos quinze anos as pessoas enfrentaram problemas que atingiram todos os níveis de atividade, a segurança e o bolso. Não querem mais voltar à ditadura, à inflação e aos racionamentos de bens e serviços", afirma Guillermo Hunt, cônsul-geral da Argentina em São Paulo. "A América Latina nunca deixou de estar em ebulição, mas as dificuldades internas estão sendo superadas lentamente", observa o cientista político Bolívar Lamounier, sócio da empresa de consultoria MCM, de São Paulo. De qualquer forma, é uma quimera esperar que os investidores internacionais sejam mais condescendentes ou pacientes. Para atrair dólares sadios e voltar a crescer com vigor, os países latino-americanos têm de reformar suas economias num ritmo ainda mais forte. Como diz o mantra de Wall Street, "se quer que confiem em você, seja confiável".

 

 

 

 




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