Edição 1871 . 15 de setembro de 2004

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Tales Alvarenga
Um país de quinta

"Os nossos sábios de plantão nunca
conseguiram inventar uma fórmula para tirar
o Brasil do atraso. A solução é tão simples
que me sinto constrangido de ensiná-la"

Assombra-me ver como as pessoas complicam coisas simples. Cuba, por exemplo. A ilha sofre muito. Ninguém gosta de Fidel Castro, com exceção do dominicano Frei Betto e do ministro José Dirceu. Os americanos também não aprovam Fidel. O problema de Cuba é que todo mundo quer usá-la para provar alguma teoria. É preciso enfrentar o desafio cubano de forma original. Eu sei como fazê-lo.

Acho que a Organização das Nações Unidas (ONU) deveria tombar a ilha de Fidel Castro e fazer dela uma espécie de parque ecológico, um santuário da humanidade. Depois do decreto de tombamento, seria proibido destruir qualquer casa centenária de Havana ou qualquer automóvel entre aqueles carros dos anos 50 que ainda rodam no país. Com o tombamento de Cuba, poderíamos congelar a ilha no tempo, do jeitinho que ela é. Os jovens de todo o mundo que nunca tiveram a oportunidade de visitar um país comunista e de se deliciar com suas peculiaridades poderiam então ver como funciona um sistema que sumiu do mapa no século passado. Seria como ver a múmia de um faraó no Museu do Louvre, com a vantagem de se estar entre comunistas vivos.

O comunismo obviamente teria de ser mantido em Cuba, senão o projeto de tombamento perderia a graça. Mas a ONU daria verbas a Fidel para ele se tornar um bondoso gerente de parque. Atualmente, os patriotas cubanos ganham cupons para comprar banana, charuto e caldo de cana. Com a ajuda do resto do mundo, Fidel poderia distribuir rações melhores para essa gente.

O Brasil, infelizmente, é grande demais para aplicarmos aqui uma solução tão simples quanto a de Cuba. Não é à toa que os nossos sábios de plantão nunca conseguiram inventar uma fórmula para tirá-lo do atraso, por mais que se esforcem nas universidades, nos jornais, no Congresso, nas associações de classe e em outros fóruns. A solução é tão simples que me sinto constrangido de ensiná-la.

O Brasil só será um país de primeira categoria quando deixar de ser um país de quinta categoria. Na caminhada para o desenvolvimento, o Brasil terá obrigatoriamente de passar pela quarta, terceira e segunda categorias. Os intelectuais com quem converso querem sempre saber quanto tempo isso vai levar. Depende. Se os brasileiros forçarem bastante o cérebro, o processo levará trinta anos. Se deixarem a coisa correr, que é minha fórmula predileta, serão necessários quarenta ou cinqüenta anos.

Sei que isso chocará nossos patriotas. Pelo que leio nos jornais, eles estão explodindo de otimismo. Há seis meses, achava-se o contrário. Nenhum brasileiro concordará com minha afirmação de que este é um país de quinta categoria. Alguns estrangeiros concordam. Na semana passada, saiu mais um índice internacional que mede o chamado risco Brasil para efeito de investimento estrangeiro.

Nesse índice, a Moody's coloca o Brasil na categoria décima quarta. Antes do Brasil, são considerados melhor negócio países desenvolvidos e outros bem vagabundinhos, como Botsuana, Tunísia, Panamá, Egito, Colômbia, Guatemala e Peru. Todos estão em patamares mais favoráveis do que o Brasil. Quantos anos você acha que Botsuana, Tunísia e Peru levarão para se transformar em países de primeira categoria? Qualquer que seja a sua resposta, saiba que o Brasil, pelo menos hoje, está muito pior do que todos esses retardatários.

 
 
 
 
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