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Tales
Alvarenga
Um país de quinta
"Os
nossos sábios de plantão nunca
conseguiram inventar uma fórmula para tirar
o Brasil do atraso. A solução é tão
simples
que me sinto constrangido de ensiná-la"
Assombra-me
ver como as pessoas complicam coisas simples. Cuba, por exemplo.
A ilha sofre muito. Ninguém gosta de Fidel Castro, com exceção
do dominicano Frei Betto e do ministro José Dirceu. Os americanos
também não aprovam Fidel. O problema de Cuba é
que todo mundo quer usá-la para provar alguma teoria. É
preciso enfrentar o desafio cubano de forma original. Eu sei como
fazê-lo.
Acho que
a Organização das Nações Unidas (ONU)
deveria tombar a ilha de Fidel Castro e fazer dela uma espécie
de parque ecológico, um santuário da humanidade. Depois
do decreto de tombamento, seria proibido destruir qualquer casa
centenária de Havana ou qualquer automóvel entre aqueles
carros dos anos 50 que ainda rodam no país. Com o tombamento
de Cuba, poderíamos congelar a ilha no tempo, do jeitinho
que ela é. Os jovens de todo o mundo que nunca tiveram a
oportunidade de visitar um país comunista e de se deliciar
com suas peculiaridades poderiam então ver como funciona
um sistema que sumiu do mapa no século passado. Seria como
ver a múmia de um faraó no Museu do Louvre, com a
vantagem de se estar entre comunistas vivos.
O comunismo
obviamente teria de ser mantido em Cuba, senão o projeto
de tombamento perderia a graça. Mas a ONU daria verbas a
Fidel para ele se tornar um bondoso gerente de parque. Atualmente,
os patriotas cubanos ganham cupons para comprar banana, charuto
e caldo de cana. Com a ajuda do resto do mundo, Fidel poderia distribuir
rações melhores para essa gente.
O Brasil,
infelizmente, é grande demais para aplicarmos aqui uma solução
tão simples quanto a de Cuba. Não é à
toa que os nossos sábios de plantão nunca conseguiram
inventar uma fórmula para tirá-lo do atraso, por mais
que se esforcem nas universidades, nos jornais, no Congresso, nas
associações de classe e em outros fóruns. A
solução é tão simples que me sinto constrangido
de ensiná-la.
O Brasil
só será um país de primeira categoria quando
deixar de ser um país de quinta categoria. Na caminhada para
o desenvolvimento, o Brasil terá obrigatoriamente de passar
pela quarta, terceira e segunda categorias. Os intelectuais com
quem converso querem sempre saber quanto tempo isso vai levar. Depende.
Se os brasileiros forçarem bastante o cérebro, o processo
levará trinta anos. Se deixarem a coisa correr, que é
minha fórmula predileta, serão necessários
quarenta ou cinqüenta anos.
Sei que
isso chocará nossos patriotas. Pelo que leio nos jornais,
eles estão explodindo de otimismo. Há seis meses,
achava-se o contrário. Nenhum brasileiro concordará
com minha afirmação de que este é um país
de quinta categoria. Alguns estrangeiros concordam. Na semana passada,
saiu mais um índice internacional que mede o chamado risco
Brasil para efeito de investimento estrangeiro.
Nesse índice,
a Moody's coloca o Brasil na categoria décima quarta. Antes
do Brasil, são considerados melhor negócio países
desenvolvidos e outros bem vagabundinhos, como Botsuana, Tunísia,
Panamá, Egito, Colômbia, Guatemala e Peru. Todos estão
em patamares mais favoráveis do que o Brasil. Quantos anos
você acha que Botsuana, Tunísia e Peru levarão
para se transformar em países de primeira categoria? Qualquer
que seja a sua resposta, saiba que o Brasil, pelo menos hoje, está
muito pior do que todos esses retardatários.
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