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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
Se eu fosse ditador...
"O
assunto pode ser visto de
uma forma
direta e simples, lembrando
o ditado
oriental 'Olho por olho,
dente por dente'"
Ilustração
Ale Setti
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Tenho às vezes sonhos de virar ditador. Não um ditadorzinho
qualquer, com medo de mandar e com poderes cerceados pelas forças
ocultas. Mas um verdadeiro ditador, capaz de penetrar nas entranhas
da sociedade e impor minha vontade. Segue uma lista de minhas primeiras
providências, para quando se materializar meu sonho:
Em solenidades oficiais, seria cobrada
das autoridades uma taxa por minuto de discurso proferido. O tempo
gasto nomeando as autoridades presentes seria cobrado em dobro.
Só o primeiro minuto seria de graça.
Os chefes teriam de entrar nas filas
de sua repartição pública e ser atendidos por
seus funcionários. Ou mandariam mãe e cônjuge
em seu lugar. Os que exigem papéis inúteis teriam
de ficar ajoelhados em grãos de milho.
Autoridades educacionais teriam de
matricular os filhos na escola sob sua responsabilidade. As de saúde
teriam de se tratar na instituição que dirigem.
Os reitores teriam de fazer os vestibulares
de sua instituição, e os resultados seriam publicados
nos jornais.
O salário dos delegados de
polícia seria ajustado de acordo com o número de crimes
resolvidos e criminosos condenados. O da polícia federal,
pelo tamanho das filas nos aeroportos. Quanto maior o tempo de espera,
menor o salário.
O salário dos funcionários
públicos seria atrasado pela mesma medida do tempo de espera
para despachar os processos. O mesmo se daria com os juízes.
Todo presidente de empresa industrial
teria de abrir a embalagem de seus produtos na frente das câmeras
de TV. Por exemplo, mostrando como se abrem, sem melar as mãos,
as geléias e as manteigas em caixinha.
Igualmente, teriam de instalar os
produtos que vendem e demonstrar como se usam os manuais de instrução,
em particular os dos videocassetes.
O valor da consulta médica
ou odontológica seria reduzido proporcionalmente ao tempo
de espera além da hora marcada. Os reincidentes seriam punidos
com exercícios de caligrafia. Como compensação,
a consulta seria mais cara quando o cliente se atrasasse.
Os empresários da construção
civil teriam de consertar pessoalmente as lajes que vazam, os encanamentos
que infiltram e dormir em quartos de empregada que mais parecem
armários.
E haveria multa, cujo valor seria
baseado no somatório do salário-hora de todos os que
esperaram, para quem chegasse atrasado a reuniões.
Os consertadores dos mais diversos
aparelhos, impenitentes descumpridores de promessas, teriam transponders
implantados no corpo e seriam rastreados por satélite.
Os donos de hotel seriam chicoteados
pela manhã se não respondessem a uma prova cujas respostas
estariam em uma apostila com letra pequena, para ser lida à
noite, nos quartos mal iluminados de seus hotéis.
Os exemplos
estão no limite entre o sério e a brincadeira. O assunto
pode ser visto de forma direta e simples, lembrando o ditado oriental
"Olho por olho, dente por dente". Quem atrapalha merece ser atrapalhado.
Mas podemos
teorizar com mais elegância. Em uma economia de mercado que
funciona bem, os incentivos monetários premiam quem oferece
bons serviços e penalizam ou multam quem atrapalha, atrasa
ou deixa de prestar o serviço devido. No caso mais trivial,
o produto ruim não vende. É essa "mão invisível"
que lubrifica bilhões de relacionamentos e transações
entre pessoas e empresas. Nos exemplos citados, a mão invisível
não deu conta do recado. Os médicos não são
punidos pelos atrasos. Não acontece nada quando a laje vaza.
No caso do serviço público, as penalidades só
existem para os clientes. Faz parte da arte de governar transformar
em custo ou preço o prejuízo ou a inconveniência
infligidos a outrem, penalizando ou atrapalhando quem atrapalha
ou sonega serviços.
Pepe Figueres,
depois de ter sido presidente da Costa Rica por duas vezes, candidatou-se
a ditador nas eleições, com mandato fixo. Queixava-se
de que na democracia não conseguiu eliminar a burocracia.
Aguardo os votos de todos os cidadãos brasileiros para ser
eleito ditador.
Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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