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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Terror e manipulação
do terror
Putin
é bom aluno. Aprendeu com Bush a manipular os fatos e embromar
a população
Os ataques
terroristas às torres gêmeas de Nova York, em 2001,
e à escola russa, no começo deste mês, são
aparentados num ponto: representam ambos uma escalada no impensável.
São ambos inovadoras flores do absurdo. Jamais se imaginara
o uso de aviões, e ainda mais aviões comerciais, para
investir contra prédios, e ainda mais prédios daquele
porte. Jamais se imaginara, igualmente, grupo desalmado o bastante
para tomar uma escola e submeter crianças e pais aos horrores
do cativeiro, da sede e da fome, tudo confluindo para o ato final
do massacre. Já o atentado de março em Madri não
foi inovador. Soltar bombas em lugares de aglomeração,
como uma estação de trem, é tática velha
como o terrorismo.
Se a inovação
e a espetaculosidade os aproximam, outros fatores os afastam. O
atentado de 11 de setembro tem a ver com o desafio lançado
pelo radicalismo islâmico contra a potência que julgam
opressora e desrespeitadora de sua fé. O de 3 de setembro,
na escola de Beslan, tem origem no conflito que opõe os separatistas
da região da Chechênia às autoridades da Federação
Russa. No entanto, do lado russo expressamente, e do americano meio
subliminarmente, laborou-se para dar a impressão de que as
causas seriam as mesmas. Um e outro seriam produto da vaga entidade
apelidada de "terrorismo internacional". O presidente russo, Vladimir
Putin, é bom aluno. Aprendeu com o americano George W. Bush
a manipular os fatos e embromar a população. Ei-lo,
ele também, feito marechal da "guerra ao terror", como a
chama Bush. De preferência, o "terror internacional".
Se não
estivéssemos tão afundados no reino da mistificação,
teríamos, para começo de conversa, de abandonar a
expressão "guerra ao terror". O terrorismo é uma tática
do inimigo, não o inimigo em si. O inimigo, no caso americano,
é o radicalismo islâmico. No russo, o separatismo checheno.
Mas embrulhá-los todos no pacote da "guerra ao terror" tem
vantagens, ah, se tem. Putin protege os costados contra críticas
à política de mão dura na Chechênia.
O que está fazendo é "guerra ao terror". Criticar
quem há-de? A Bush, o escudo da "guerra ao terror" permitiu
atacar, por outros interesses, até quem não era nem
alinhado ao islamismo radical nem ao terror, mas um dia, quem sabe,
poderia vir a sê-lo, como o Iraque de Saddam Hussein.
As três
palavrinhas "guerra ao terror" também têm utilidade
eleitoral. Ajudam a manter a população em guarda contra
perigos difusos, em cujo enfrentamento ele, Bush, se apresenta como
campeão. Fossem outros os tempos, e os EUA não deixariam
de criticar a incompetência russa em lidar contra ações
terroristas. Tampouco deixariam de insistir, com mais ênfase
do que numa tímida declaração do Departamento
de Estado, como foi feito na semana passada, no convite a que Moscou
negocie com os chechenos. Na conjuntura atual, deixa o camarada
Putin dizer que está numa "guerra ao terror". Isso ajuda
a reforçar no eleitor americano a idéia de que os
EUA também estão. E permite ao vice Dick Cheney, o
falcão dos falcões, dizer que, se o eleitorado fizer
a "escolha errada", existe "o perigo de novo ataque". A escolha
é entre Bush e novo ataque terrorista, eis a lógica
de Cheney.
Putin não
demorou a jogar a carta da Al Qaeda na mesa. A organização
de Osama bin Laden estaria por trás do ataque à escola.
Pode ser que sim, pode ser que não, mas que bom, para Putin,
se fosse que sim. Não seria mal também para Bush.
Bin Laden é seu grande eleitor. Sua sombra vive sendo invocada,
nos alertas laranja ou de outra cor com que mantém a população
americana em suspenso. Pode-se sempre confiar em que o público
não se dará conta de que, se a Al Qaeda conserva essa
capacidade operacional toda, segue-se que Bush fracassou na "guerra
do terror".
Que não
se confundam as coisas. Não se está dizendo aqui que
o terrorismo é ameaça desprezível. Muito pelo
contrário, ele se mostra cada vez mais apavorante, como o
demonstra o episódio da escola de Beslan, e está inclusive
em expansão, em alguns casos por cortesia do governo Bush,
como no das bombas, seqüestros e decapitações
que se sucedem no Iraque, em reação à invasão
americana. O que se está dizendo é que atribuir suas
manifestações a um "terrorismo internacional" sem
rosto nem propósito não é combatê-lo.
É desviar do assunto. Os terroristas só agem porque
há um caldo de cultura a possibilitar-lhes a ação.
E se há esse caldo de cultura é porque há problemas
políticos que, quanto mais se arrastam, mais geram frustração,
revolta e explosões de violência. Nenhum governo americano
investiu tão pouco na solução da questão
palestina, a causa primeva das frustrações árabes,
quanto o atual. O governo russo sossobra na tentativa de soldar
pela via da opressão as mal coladas partes de seu império.
Atacar esses problemas de frente, chamando-os pelo nome, é
começar a retirar dos terroristas o caldo de cultura no qual,
como peixes no mar, navegam. O resto é reagir à irracionalidade
com irracionalidade, e à violência com violência
que gerará mais violência.
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