Edição 1871 . 15 de setembro de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Terror e manipulação
do terror

Putin é bom aluno. Aprendeu com Bush a manipular os fatos e embromar a população

Os ataques terroristas às torres gêmeas de Nova York, em 2001, e à escola russa, no começo deste mês, são aparentados num ponto: representam ambos uma escalada no impensável. São ambos inovadoras flores do absurdo. Jamais se imaginara o uso de aviões, e ainda mais aviões comerciais, para investir contra prédios, e ainda mais prédios daquele porte. Jamais se imaginara, igualmente, grupo desalmado o bastante para tomar uma escola e submeter crianças e pais aos horrores do cativeiro, da sede e da fome, tudo confluindo para o ato final do massacre. Já o atentado de março em Madri não foi inovador. Soltar bombas em lugares de aglomeração, como uma estação de trem, é tática velha como o terrorismo.

Se a inovação e a espetaculosidade os aproximam, outros fatores os afastam. O atentado de 11 de setembro tem a ver com o desafio lançado pelo radicalismo islâmico contra a potência que julgam opressora e desrespeitadora de sua fé. O de 3 de setembro, na escola de Beslan, tem origem no conflito que opõe os separatistas da região da Chechênia às autoridades da Federação Russa. No entanto, do lado russo expressamente, e do americano meio subliminarmente, laborou-se para dar a impressão de que as causas seriam as mesmas. Um e outro seriam produto da vaga entidade apelidada de "terrorismo internacional". O presidente russo, Vladimir Putin, é bom aluno. Aprendeu com o americano George W. Bush a manipular os fatos e embromar a população. Ei-lo, ele também, feito marechal da "guerra ao terror", como a chama Bush. De preferência, o "terror internacional".

Se não estivéssemos tão afundados no reino da mistificação, teríamos, para começo de conversa, de abandonar a expressão "guerra ao terror". O terrorismo é uma tática do inimigo, não o inimigo em si. O inimigo, no caso americano, é o radicalismo islâmico. No russo, o separatismo checheno. Mas embrulhá-los todos no pacote da "guerra ao terror" tem vantagens, ah, se tem. Putin protege os costados contra críticas à política de mão dura na Chechênia. O que está fazendo é "guerra ao terror". Criticar quem há-de? A Bush, o escudo da "guerra ao terror" permitiu atacar, por outros interesses, até quem não era nem alinhado ao islamismo radical nem ao terror, mas um dia, quem sabe, poderia vir a sê-lo, como o Iraque de Saddam Hussein.

As três palavrinhas "guerra ao terror" também têm utilidade eleitoral. Ajudam a manter a população em guarda contra perigos difusos, em cujo enfrentamento ele, Bush, se apresenta como campeão. Fossem outros os tempos, e os EUA não deixariam de criticar a incompetência russa em lidar contra ações terroristas. Tampouco deixariam de insistir, com mais ênfase do que numa tímida declaração do Departamento de Estado, como foi feito na semana passada, no convite a que Moscou negocie com os chechenos. Na conjuntura atual, deixa o camarada Putin dizer que está numa "guerra ao terror". Isso ajuda a reforçar no eleitor americano a idéia de que os EUA também estão. E permite ao vice Dick Cheney, o falcão dos falcões, dizer que, se o eleitorado fizer a "escolha errada", existe "o perigo de novo ataque". A escolha é entre Bush e novo ataque terrorista, eis a lógica de Cheney.

Putin não demorou a jogar a carta da Al Qaeda na mesa. A organização de Osama bin Laden estaria por trás do ataque à escola. Pode ser que sim, pode ser que não, mas que bom, para Putin, se fosse que sim. Não seria mal também para Bush. Bin Laden é seu grande eleitor. Sua sombra vive sendo invocada, nos alertas laranja ou de outra cor com que mantém a população americana em suspenso. Pode-se sempre confiar em que o público não se dará conta de que, se a Al Qaeda conserva essa capacidade operacional toda, segue-se que Bush fracassou na "guerra do terror".

Que não se confundam as coisas. Não se está dizendo aqui que o terrorismo é ameaça desprezível. Muito pelo contrário, ele se mostra cada vez mais apavorante, como o demonstra o episódio da escola de Beslan, e está inclusive em expansão, em alguns casos por cortesia do governo Bush, como no das bombas, seqüestros e decapitações que se sucedem no Iraque, em reação à invasão americana. O que se está dizendo é que atribuir suas manifestações a um "terrorismo internacional" sem rosto nem propósito não é combatê-lo. É desviar do assunto. Os terroristas só agem porque há um caldo de cultura a possibilitar-lhes a ação. E se há esse caldo de cultura é porque há problemas políticos que, quanto mais se arrastam, mais geram frustração, revolta e explosões de violência. Nenhum governo americano investiu tão pouco na solução da questão palestina, a causa primeva das frustrações árabes, quanto o atual. O governo russo sossobra na tentativa de soldar pela via da opressão as mal coladas partes de seu império. Atacar esses problemas de frente, chamando-os pelo nome, é começar a retirar dos terroristas o caldo de cultura no qual, como peixes no mar, navegam. O resto é reagir à irracionalidade com irracionalidade, e à violência com violência que gerará mais violência.

 
 
 
 
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