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Livros
A missão de Boris
O tradutor que há sessenta anos apresenta
os clássicos da literatura russa aos brasileiros

Jerônimo Teixeira
Andre Penner
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| Boris Schnaiderman: infância na Ucrânia
e combate na II Guerra sob a bandeira do Brasil |
Bons tradutores têm um papel civilizador.
Eles não se limitam a achar equivalências entre duas
línguas, mas põem culturas em comunicação.
Professor aposentado de língua e literatura russa da Universidade
de São Paulo, Boris Schnaiderman tem exercido esse papel
há sessenta anos. Modesto, faz questão de dizer que
não foi o primeiro a traduzir diretamente do russo para o
português. Seu trabalho, porém, ajudou a elevar padrões.
Quando tentou suas primeiras traduções que
hoje rejeita , nos anos 40, eram comuns as versões
de Tolstoi ou Dostoievski feitas a partir do francês. Hoje,
já não se engolem facilmente textos de segunda mão.
Há uma escola constituída de tradutores do russo como
Paulo Bezerra e Rubens Figueiredo. Schnaiderman é o decano
da turma. Verteu para o português obras de Pushkin, Tolstoi,
Dostoievski, Tchekov, entre outros clássicos. Foi um dos
grandes divulgadores, no Brasil, da poesia moderna russa, traduzindo
o vanguardista Maiakovski em colaboração com os poetas
Augusto e Haroldo de Campos. E, aos 87 anos, segue aperfeiçoando
suas traduções. Está revisando sua versão
de Um Jogador, de Dostoievski, a ser relançada pela
editora 34.
Schnaiderman
nasceu em Úman e passou a primeira infância em Odessa,
na Ucrânia mas em sua casa se falava o russo, não
o ucraniano. Menino, testemunhou, sem saber exatamente o que estava
vendo, a filmagem de uma cena do clássico O Encouraçado
Potemkin, de Sergei Eisenstein, nas escadarias de Odessa. Logo
passaria por eventos mais dramáticos: sua família
partiu para o exílio quando ele tinha 8 anos. "Meu pai era
comerciante, então é claro que ele teve dificuldades
para se adaptar ao sistema soviético", conta. Foi voluntário
da Força Expedicionária Brasileira na II Guerra. Era
um sujeito único entre os pracinhas: ucraniano de nascimento,
russo por formação, brasileiro por adoção.
A experiência deu origem a seu único romance, Guerra
em Surdina (Cosac & Naify; 256 páginas; 39,50
reais), lançado em 1964 e agora republicado em versão
revisada. No mesmo ano em que partia para a Itália, 1944,
era lançada sua primeira tradução, um empreendimento
temerário para um iniciante: Os Irmãos Karamazov,
de Dostoievski. "Foi uma irresponsabilidade total", admite. O jovem
Schnaiderman sabia que seus dotes literários ainda não
estavam à altura das obras que pretendia verter para o português
tanto que suas seis primeiras traduções foram
assinadas com um pseudônimo, Boris Salomonov. Algumas delas
como Kladji-Murát, de Tolstoi seriam
refeitas e republicadas mais tarde.
Tal como a Irlanda do século XX, que
produziu gênios das letras como Yeats, Joyce e Beckett, a
Rússia do século XIX era um país econômica
e socialmente atrasado que, contra todas as adversidades, se converteu
em um gigantesco celeiro literário. Além do estatuto
indisputável de clássicos, alguns autores russos são
também muito populares no Brasil especialmente Tolstoi
e Dostoievski, cujo romance Crime e Castigo já apareceu
na lista de mais vendidos de VEJA, feito raro para um livro do século
XIX. O gigantismo dessa dupla, porém, lança uma certa
sombra sobre outros compatriotas. Schnaiderman lamenta que Alexander
Pushkin não tenha encontrado tanta aceitação
entre os brasileiros. O tradutor também recusa a idéia
de que a literatura russa tenha decaído no século
XX. "Não havia mais um Tolstoi ou um Dostoievski, mas ainda
tínhamos escritores do porte de um Isaac Babel", diz. É
sobre essa tradição literária assombrosamente
rica que o tradutor segue exercendo sua obra civilizadora: "Hoje
eu trabalho moderadamente. Enquanto tiver forças, vou revisando
minhas traduções antigas".
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Quatro
mestres
Boris Schnaiderman fala de
escritores russos que já traduziu
Alexander Pushkin (1799-1837)
"Pushkin é um autor extraordi-nário,
tanto em poesia quanto em prosa. Foi ele que cristalizou
a linguagem literária da Rússia"
Fiodor Dostoievski (1821-1881)
"Dostoievski tem uma força ímpar,
é uma instituição literária,
mas às vezes irrita com seu chauvinismo e seus
preconceitos nacionalistas"
Leon Tolstoi (1828-1910)
"Ele tem uma acuidade para a expressão verbal
extraordinária. Em Guerra e Paz, por exemplo,
Tolstoi consegue mostrar como a língua russa
estava deformada entre as elites afrancesadas"
Vladimir
Maiakovski (1893-1930)
"Hoje, na Rússia, há uma onda contra
Maiakovski, por causa do seu entusiasmo pela revolução
comunista. Mas ele é inegavelmente um grande
poeta, apesar de suas posições políticas
equivocadas"
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