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Medicina
Com mais de 50 anos
e com aids
O surgimento
de drogas mais poderosas permite a sobrevivência na velhice
apesar do HIV
Claudio Rossi
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"Imagine
a minha situação: homossexual, portador do HIV
e velho. A gente acaba mesmo sozinho, a sociedade não
perdoa. Houve uma época em que, por causa da doença,
emagreci muito, fiquei com o rosto mais fino, os braços
e as pernas perderam musculatura e a barriga cresceu, sintoma
típico dos remédios. Fiz um tratamento estético
para poder melhorar minha aparência e continuar a trabalhar
sem dar na cara que sou doente. As quinze cápsulas
de remédio que tomo por dia causam muitos efeitos colaterais,
mas não posso me dar ao luxo de passar mal e descansar."
C.C.B.,
mordomo, 68 anos
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Desde que
a aids começou a fazer vítimas em larga escala, no
início dos anos 80, sua imagem sempre foi a de uma doença
de jovens. Vários fatores contribuíram para criar
essa associação. A aids se disseminou primeiro entre
os homossexuais, justamente numa época de ventos liberalizantes
em que muitos deles saíam do armário e começavam
a promover nas grandes cidades as paradas do orgulho gay, freqüentadas
majoritariamente por jovens. Além disso, a atividade sexual
é muito mais intensa na juventude, o que tornava essa parcela
da população mais vulnerável à disseminação
do vírus HIV. Hoje, as estatísticas apontam para outra
direção. Em grande parte por causa dos avanços
da medicina, que criou remédios mais eficientes no combate
ao vírus e outros capazes de minorar os efeitos das infecções
secundárias que ele provoca, aumentou bastante a sobrevida
de quem tem aids. O resultado é que cresceu o número
de doentes que chegam à meia-idade ou passam dos 60 anos.
Muitos dos que contraíram a doença nas décadas
de 80 e 90, e que na época receberam prognósticos
sombrios de seus médicos, ganharam uma longa sobrevida e
gozam hoje de saúde suficiente para levar um dia-a-dia próximo
do normal.
No Brasil,
cujo programa oficial de combate à aids é freqüentemente
citado como um exemplo para o mundo, o número de doentes
com idade acima de 50 anos se multiplicou. Em 1992, cinqüentões
e sessentões representavam 6% dos casos registrados de aids.
No ano passado, essa cifra foi de 11%. Também contribuem
para essas estatísticas o fato de menos bebês adquirirem
o vírus ainda no útero, já que as mães
de hoje estão mais bem informadas e prevenidas sobre os riscos
de contaminação. Se há menos bebês com
vírus, a proporção de pessoas de meia-idade
que o contraíram cresce dentro do quadro da população
em geral. Nos Estados Unidos, o número de doentes com mais
de 50 anos cresceu cinco vezes durante os anos 90, embora o ritmo
de novas contaminações, na população
americana, tenha diminuído. No Estado de Nova York, para
se ter uma idéia de quantidade, 25% dos portadores de HIV
têm mais de 50 anos.
Roberto Setton
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"Descobri
que era portadora do vírus HIV aos 48 anos. Peguei
de um namorado com quem me relacionava há algum tempo.
Descobri que ele me traía e tinha relações
homossexuais, por isso decidi fazer o teste. Na época,
achei que tinha comprado meu atestado de óbito. Meu
pai, que já morreu, nunca soube de minha doença
e até hoje a escondo de minha mãe. Eu abri mão
do sexo. Para alguém te aceitar com aids, tem de te
amar
muito, e isso é difícil acontecer. Consegui
aprender outras formas de ter prazer. Viajo, organizo jantares
e saio com os amigos."
S., comerciária, 62 anos
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Os avanços
da medicina são a melhor explicação para o
crescimento da população de meia-idade e idosa com
o vírus mas não é a única. Segundo
o Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids, órgão
do Ministério da Saúde, as pessoas mais velhas estão
hoje mais expostas ao vírus HIV do que uma década
atrás e, por isso, acabam contraindo aids. "Até há
pouco, havia uma noção arraigada na sociedade de que
as pessoas, ao envelhecer, eliminavam o sexo de sua vida", diz a
médica infectologista Eliane Fonseca. "Hoje há estímulo
para que os idosos tenham uma vida social e sexual ativa." Ocorre
que a maioria dos idosos, ao contrário do que ocorre com
os jovens, não cultiva o hábito de usar preservativos
e os encara com desconfiança. Primeiro porque, quando eles
próprios eram jovens, os preservativos eram usados principalmente
para evitar a gravidez e para relações extraconjugais.
Segundo porque os homens nessa faixa de idade têm ereções
menos intensas e mais curtas. Por essa razão, eles têm
medo de perdê-las na manobra necessária para colocar
o preservativo.
Evidentemente,
mesmo que os coquetéis de remédios operem prodígios,
amadurecer com aids envolve desafios. Além da incidência
dos males naturais da velhice, como aumento de pressão, colesterol
alto e osteoporose, os coquetéis anti-HIV têm efeitos
colaterais fortes, que vão de diarréia a emagrecimento
excessivo. Os coquetéis também interferem no efeito
dos remédios usados para outros fins, geralmente amplificando
seus efeitos. "Nessa fase da vida, o mais importante é manter
o CD4 (indicador da capacidade imunológica do indivíduo)
alto. Isso porque as pessoas mais velhas são naturalmente
mais suscetíveis a infecções oportunistas e
elas podem se tornar muito mais graves", explica a médica
Eliane Fonseca. Outro risco freqüente é que os médicos
deixem de diagnosticar a aids, confundindo seus sintomas com outros
problemas típicos da terceira idade. O herpes, por exemplo,
pode ser avaliado como uma conseqüência natural do passar
dos anos. Suores noturnos podem ser interpretados como resultado
da menopausa. A demência que acomete as vítimas da
aids se parece muito com aquela relacionada ao mal de Alzheimer,
embora se desenvolva com maior velocidade.
11%
dos novos casos
de aids ocorrem em
pessoas com mais de 50 anos. Há uma década,
eram apenas 6%
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Vencidos
os percalços e a resistência do vírus, muitos
aidéticos com mais de 50 anos podem viver sem grandes restrições
e redescobrir os pequenos prazeres da existência. Como acontece
com a paulista E.A., de 52 anos, HIV positivo desde os 31, quando
foi contaminada numa transfusão de sangue devido a um aborto
espontâneo. Eis seu depoimento: "Assim que fui diagnosticada
com HIV, ficava prostrada em casa. Não tinha ânimo
para sair nem podia, porque estava com a imunidade muito baixa.
A partir daí, com a medicação, comecei a melhorar
e a vida aos poucos voltou a fluir normalmente. As cinco cápsulas
do coquetel anti-HIV que tomo diariamente às vezes causam
dor de cabeça, de estômago e enjôos, mas vou
em frente. Cuido de meu marido e me fortaleço vendo minhas
filhas crescerem com saúde".
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