Edição 1871 . 15 de setembro de 2004

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Especial
Para ficar de cabelos brancos

O envelhecimento da população mundial
é prova de que a civilização é um projeto
bem-sucedido. Mas como equilibrar uma
pirâmide social que está ficando de cabeça
para baixo?


Isabela Boscov


NESTA EDIÇÃO
Viver mais e melhor

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Mais sobre envelhecimento em VEJA Saúde
O teste da longevidade

Viver a velhice com saúde é sempre uma aspiração pessoal de quem se aproxima dessa etapa. Mas ela está rapidamente se convertendo em algo mais: uma urgência social. No Brasil, segundo levantamento divulgado recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a proporção de idosos – pessoas de 65 anos ou mais – crescerá 3,6 vezes até 2050. Na Bulgária, Alemanha, Itália, Espanha, Grécia e Japão, pela primeira vez na história das sociedades humanas, os idosos já são mais numerosos que as crianças – uma situação que o mundo como um todo viverá em 2050, quando se prevê que as pessoas acima de 60 anos somarão 2 bilhões. O envelhecimento da espécie é, sob muitos aspectos, uma prova de sucesso civilizatório. Mas ele encerra problemas. Idosos, mesmo os muito sacudidos, exigem mais dos sistemas de saúde e previdência (onde eles existem) do que as pessoas mais novas. Quanto mais adiantado e urbanizado o país, além disso, mais clara é a tendência dos idosos de retirar-se do mercado de trabalho assim que a lei o permite, com todas as facilidades que a infra-estrutura do Primeiro Mundo prevê: assistência médica, residência, descontos variados, ajuda com as tarefas da casa e estipêndio financeiro que permita um cotidiano digno. Os mais de 70% de idosos de Bangladesh que continuam produzindo, na maior parte das vezes por absoluta necessidade de subsistir, são um contraponto triste aos, digamos, velhinhos belgas. Na Bélgica, um dos países com maior proporção de idosos no mundo, apenas 2,8% dos homens entre 65 e 69 anos têm alguma ocupação rentável, segundo dados de 1999. Os restantes 97,2% estão sendo sustentados ao menos em parte por algum tipo de salvaguarda pública – e merecidamente, após toda uma vida de trabalho, é o que os avanços sociais do século XX nos ensinaram. O problema é que, no século XXI, essa expressão – "toda uma vida" – já não faz mais sentido. Em muitos países europeus, a faixa etária que mais cresce é a dos chamados "muito velhos", de mais de 80 anos. A aposentadoria em torno dos 60 anos, portanto, já pode ser encarada como prematura. Basta ver o exemplo da Itália, em que, segundo dados de 1996, as pensões públicas consomem 15% do produto interno bruto.

Ninguém vai se sair lá muito bem desse impasse. Os países ricos, no geral, têm taxa de fecundidade tão baixa que suas populações caminham para o declínio. Mesmo que eles abram suas portas de par em par a trabalhadores imigrantes – questão delicada – não haverá como sustentar o crescente contingente de idosos. Nos países pobres, o dilema é outro. Quase todas as nações em que a proporção de velhos vai aumentar drasticamente nas próximas décadas pertencem ao universo chamado "em desenvolvimento". Até 2030, esses países concentrarão 71% dos idosos do mundo e, pela sua típica desestruturação social e institucional, não dão sinais de mobilização para enfrentar esse novo jogo de forças.

Nesse aspecto, o Brasil tem pela frente um cenário preocupante. Na superfície, os indicadores nacionais não fazem feio. No rastro do acelerado processo de urbanização ocorrido a partir da década de 50, o número de domicílios atendidos por serviços básicos aumentou, a mortalidade infantil reduziu-se dramaticamente e a esperança de vida cresceu. No mesmo movimento, o nível de escolaridade melhorou e o ritmo de crescimento populacional decresceu. Mas essas estatísticas simpáticas se aplicam a apenas uma faixa dos brasileiros. No mais das vezes, elas escondem as duas realidades opostas (duas só para simplificar, claro) que convivem no país: a européia, em que vive a porção mais abastada da população, e a africana, suportada pelas grandes fileiras de pobres e miseráveis. No Brasil europeu, os casais têm fecundidade abaixo da taxa de reposição populacional, e os idosos, quando se aposentam, compensam a geralmente irrisória pensão estatal com a participação em fundos de previdência privada – sem falar no plano de saúde particular, que alivia de forma considerável os percalços da idade. No Brasil africano, a média de filhos por casal gira em torno de 5, e os idosos fazem fila no sistema de saúde e subsistem com pensões minúsculas – mas que, num número expressivo de domicílios (mais de 6 milhões, segundo o IBGE), são o único sustento líquido e certo dos filhos e netos desse idoso.

O Brasil como um todo fica mais velho, e uma parte dele – a mais pobre – continua produzindo filhos em grande número. O Brasil que paga impostos e alimenta a Previdência tem menos filhos e o que depende de políticas públicas para sobreviver segue a todo o vapor na fabricação de dependentes. Eis aí os ingredientes de uma bomba-relógio. Como é preciso cuidar dos dois pólos do quadro etário ao mesmo tempo, não há como transferir recursos de um deles para o outro. A mortalidade infantil ainda é alta – 29,6 por 1.000 nascidos vivos, contra 3,5 no Japão –, e a estrutura de atendimento às doenças decorrentes da maior longevidade ainda é incipiente. Só os presentes desafios da educação, saúde e emprego já comporiam uma agenda das mais pesadas. Mas o estudo do IBGE demonstra ainda, de forma inequívoca, a inviabilidade do atual sistema de Previdência Social. Em 2050 haverá apenas três pessoas em idade potencialmente produtiva para cada uma com 65 anos ou mais. É uma proporção que torna impossível financiar o sistema. E o mais preocupante é que o Brasil tem andado na contramão, insistindo num modelo de cobertura muito amplo, em vez de restringir o acesso aos benefícios.

Dois países, hoje, fogem a esses padrões gerais – Estados Unidos e Japão. Ao contrário de seus colegas de Primeiro Mundo, os idosos americanos e japoneses tendem a se aposentar não antes, mas depois da idade estatutária. Fazem isso por causa dos incentivos para quem adia a saída da profissão e por questões culturais, entre as quais o status do trabalho como aspecto de valorização individual. Em 1999, 17% dos velhos americanos continuavam ativos – mais do que no início da década. No Japão, essa participação é de longe a mais expressiva do mundo desenvolvido: 36%. Lá, alimentam essa ótima taxa também o respeito de que os velhos desfrutam na sociedade e o conceito – infelizmente em declínio – de família estendida, em que várias gerações convivem e estreitam seus laços.

A demografia está tão ocupada em quantificar o envelhecimento do mundo que a sociologia ainda nem começou a tratar a sério dessa questão. O que acontece com uma sociedade quando ela se torna predominantemente idosa? Ela se torna também mais conservadora e prudente ou o poder transformador dos jovens será sempre mais forte? Os sinais emitidos pela Europa são confusos, até porque seu envelhecimento coincidiu com o rearranjo de forças na seqüência da II Guerra Mundial, quando o continente perdeu de vez a supremacia econômica e tecnológica para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, nas últimas duas décadas a Europa se reconfigurou em forma de comunidade, num movimento que exigiu grande vigor e disposição para mudar. Uma revolução feita por gente de cabelos brancos.

 

VIVER MAIS CUSTA CARO

Na Inglaterra, os 7% da população com mais de 75 anos consomem quase 30% dos recursos destinados à saúde. Os gastos per capita com um idoso dessa faixa são 6 vezes maiores do que os com os cidadãos mais jovens

 

 

 
 
 
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