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Especial
Para ficar de cabelos brancos
O envelhecimento da população mundial
é prova de que a civilização é um projeto
bem-sucedido. Mas como equilibrar uma
pirâmide social que está ficando de cabeça
para baixo?

Isabela Boscov
Viver a velhice com saúde é sempre
uma aspiração pessoal de quem se aproxima dessa etapa.
Mas ela está rapidamente se convertendo em algo mais: uma
urgência social. No Brasil, segundo levantamento divulgado
recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), a proporção de idosos pessoas de 65
anos ou mais crescerá 3,6 vezes até 2050. Na
Bulgária, Alemanha, Itália, Espanha, Grécia
e Japão, pela primeira vez na história das sociedades
humanas, os idosos já são mais numerosos que as crianças
uma situação que o mundo como um todo viverá
em 2050, quando se prevê que as pessoas acima de 60 anos somarão
2 bilhões. O envelhecimento da espécie é, sob
muitos aspectos, uma prova de sucesso civilizatório. Mas
ele encerra problemas. Idosos, mesmo os muito sacudidos, exigem
mais dos sistemas de saúde e previdência (onde eles
existem) do que as pessoas mais novas. Quanto mais adiantado e urbanizado
o país, além disso, mais clara é a tendência
dos idosos de retirar-se do mercado de trabalho assim que a lei
o permite, com todas as facilidades que a infra-estrutura do Primeiro
Mundo prevê: assistência médica, residência,
descontos variados, ajuda com as tarefas da casa e estipêndio
financeiro que permita um cotidiano digno. Os mais de 70% de idosos
de Bangladesh que continuam produzindo, na maior parte das vezes
por absoluta necessidade de subsistir, são um contraponto
triste aos, digamos, velhinhos belgas. Na Bélgica, um dos
países com maior proporção de idosos no mundo,
apenas 2,8% dos homens entre 65 e 69 anos têm alguma ocupação
rentável, segundo dados de 1999. Os restantes 97,2% estão
sendo sustentados ao menos em parte por algum tipo de salvaguarda
pública e merecidamente, após toda uma vida
de trabalho, é o que os avanços sociais do século
XX nos ensinaram. O problema é que, no século XXI,
essa expressão "toda uma vida" já não
faz mais sentido. Em muitos países europeus, a faixa etária
que mais cresce é a dos chamados "muito velhos", de mais
de 80 anos. A aposentadoria em torno dos 60 anos, portanto, já
pode ser encarada como prematura. Basta ver o exemplo da Itália,
em que, segundo dados de 1996, as pensões públicas
consomem 15% do produto interno bruto.
Ninguém vai se sair lá muito
bem desse impasse. Os países ricos, no geral, têm taxa
de fecundidade tão baixa que suas populações
caminham para o declínio. Mesmo que eles abram suas portas
de par em par a trabalhadores imigrantes questão delicada
não haverá como sustentar o crescente contingente
de idosos. Nos países pobres, o dilema é outro. Quase
todas as nações em que a proporção de
velhos vai aumentar drasticamente nas próximas décadas
pertencem ao universo chamado "em desenvolvimento". Até 2030,
esses países concentrarão 71% dos idosos do mundo
e, pela sua típica desestruturação social e
institucional, não dão sinais de mobilização
para enfrentar esse novo jogo de forças.
Nesse aspecto, o Brasil tem pela frente um
cenário preocupante. Na superfície, os indicadores
nacionais não fazem feio. No rastro do acelerado processo
de urbanização ocorrido a partir da década
de 50, o número de domicílios atendidos por serviços
básicos aumentou, a mortalidade infantil reduziu-se dramaticamente
e a esperança de vida cresceu. No mesmo movimento, o nível
de escolaridade melhorou e o ritmo de crescimento populacional decresceu.
Mas essas estatísticas simpáticas se aplicam a apenas
uma faixa dos brasileiros. No mais das vezes, elas escondem as duas
realidades opostas (duas só para simplificar, claro) que
convivem no país: a européia, em que vive a porção
mais abastada da população, e a africana, suportada
pelas grandes fileiras de pobres e miseráveis. No Brasil
europeu, os casais têm fecundidade abaixo da taxa de reposição
populacional, e os idosos, quando se aposentam, compensam a geralmente
irrisória pensão estatal com a participação
em fundos de previdência privada sem falar no plano
de saúde particular, que alivia de forma considerável
os percalços da idade. No Brasil africano, a média
de filhos por casal gira em torno de 5, e os idosos fazem fila no
sistema de saúde e subsistem com pensões minúsculas
mas que, num número expressivo de domicílios
(mais de 6 milhões, segundo o IBGE), são o único
sustento líquido e certo dos filhos e netos desse idoso.
O Brasil como um todo fica mais velho, e uma
parte dele a mais pobre continua produzindo filhos
em grande número. O Brasil que paga impostos e alimenta a
Previdência tem menos filhos e o que depende de políticas
públicas para sobreviver segue a todo o vapor na fabricação
de dependentes. Eis aí os ingredientes de uma bomba-relógio.
Como é preciso cuidar dos dois pólos do quadro etário
ao mesmo tempo, não há como transferir recursos de
um deles para o outro. A mortalidade infantil ainda é alta
29,6 por 1.000 nascidos vivos,
contra 3,5 no Japão , e a estrutura de atendimento
às doenças decorrentes da maior longevidade ainda
é incipiente. Só os presentes desafios da educação,
saúde e emprego já comporiam uma agenda das mais pesadas.
Mas o estudo do IBGE demonstra ainda, de forma inequívoca,
a inviabilidade do atual sistema de Previdência Social. Em
2050 haverá apenas três pessoas em idade potencialmente
produtiva para cada uma com 65 anos ou mais. É uma proporção
que torna impossível financiar o sistema. E o mais preocupante
é que o Brasil tem andado na contramão, insistindo
num modelo de cobertura muito amplo, em vez de restringir o acesso
aos benefícios.
Dois países, hoje, fogem a esses padrões
gerais Estados Unidos e Japão. Ao contrário
de seus colegas de Primeiro Mundo, os idosos americanos e japoneses
tendem a se aposentar não antes, mas depois da idade estatutária.
Fazem isso por causa dos incentivos para quem adia a saída
da profissão e por questões culturais, entre as quais
o status do trabalho como aspecto de valorização individual.
Em 1999, 17% dos velhos americanos continuavam ativos mais
do que no início da década. No Japão, essa
participação é de longe a mais expressiva do
mundo desenvolvido: 36%. Lá, alimentam essa ótima
taxa também o respeito de que os velhos desfrutam na sociedade
e o conceito infelizmente em declínio de família
estendida, em que várias gerações convivem
e estreitam seus laços.
A demografia está tão ocupada
em quantificar o envelhecimento do mundo que a sociologia ainda
nem começou a tratar a sério dessa questão.
O que acontece com uma sociedade quando ela se torna predominantemente
idosa? Ela se torna também mais conservadora e prudente ou
o poder transformador dos jovens será sempre mais forte?
Os sinais emitidos pela Europa são confusos, até porque
seu envelhecimento coincidiu com o rearranjo de forças na
seqüência da II Guerra Mundial, quando o continente perdeu
de vez a supremacia econômica e tecnológica para os
Estados Unidos. Ao mesmo tempo, nas últimas duas décadas
a Europa se reconfigurou em forma de comunidade, num movimento que
exigiu grande vigor e disposição para mudar. Uma revolução
feita por gente de cabelos brancos.
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VIVER
MAIS CUSTA CARO
Na
Inglaterra, os 7% da população
com mais de 75 anos consomem quase
30% dos recursos destinados
à saúde. Os
gastos per capita com um idoso
dessa faixa são 6 vezes maiores
do que os com os cidadãos
mais jovens
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